Invasão do Iraque – Treze anos depois (2)

A cirurgia e os tiros que sobram

A cirurgia e os tiros que sobram.

Não acredito muito em cirurgias. E muito menos em cirurgias limpas. Cirurgia mete sempre muito sangue. Na guerra, então, as probabilidades de uma operação bem sucedida são reduzidíssimas.

Começaram por ser esparsos, precisos, os bombardeamentos a Bagdade, há treze anos, dando assim origem à uma guerra que está na origem ao ambiente de terror em que o mundo vive hoje. Os bombardeamentos visavam os palácios e os “bunkers” onde supostamente estaria o ditador e pandilha, só que falhou redondamente a dita tentativa de “decapitação do regime”. Seguiram-se alvos políticos, ministérios, alvos militares, aquartelamentos nas imediações da cidade. As bombas e os mísseis caiam à noite após o aviso das sirenes, depois começaram a cair durante o dia e sem qualquer aviso prévio. Outros edifícios, museus, de novo os palácios – qual era a necessidade de os deitar abaixo se já lá não estava ninguém? – seriam atingidos. Uma universidade, um infantário e um bairro residencial foram os clientes seguintes. Daí até ao mercado onde supostamente existiriam oficinas de fabrico de armas foi uma fracção de segundo. E aqueles que até então não acreditavam que aquela guerra iria ser uma carnaficina, passaram a acreditar.

Às primeiras vítimas da Coligação, o discurso mudou radicalmente. De “uma guerra rápida e limpa” passámos para uma guerra longa e dura, embora com a certeza da vitória. Lá se foi a retórica do “choque e espanto” com o secretário Rumsfeld a admitir que «estamos mais próximos de príncipio do que do fim». Uma frase que certamente ficará para história.

«Porque razão está aqui? Porque me disseram para vir». A resposta de um dos prisioneiros de guerra americanos dada à televisão iraquiana diz bem dos heróis que Bush mandou para o deserto. A América puritana, hipócrita, preocupada em manter as aparências, não quis ver as imagens dos seus mortos e falou em Direitos Humanos e na Convenção de Genebra. Entretanto, agradecia o Presidente às famílias dos marines sacrificados. Quase todos de estratos sociais baixos. Negros. Hispánicos.

Só que na guerra não há heróis. Na guerra prevalecem ódio, terror e medo. Muito medo. E só alguém atiçado por drogas e lavagens cerebrais vai para a frente de combate.

Um forrobodó de acidentes e enganos fatais, aquele malfadado conflito. Antes mesmo de entrar no deserto a Coligação tinha já perdido um helicóptero de transporte e treze homens e um caça britânico fora abatido por um Patriot. Em três dias registaram-se dois acidentes com helicópteros em pleno voo. Um deles, diz-se, “devido à escuridão total”, embora a Lua estivesse cheia. Humilhante, humilhante foi ver um temível Apache vir abaixo sob o fogo de kalashinikovs disparadas por camponeses. Inimigos também nas próprias fileiras. Um marine atira uma granada para dentro da tenda dos colegas. Afinal que soldados são estas que perdem as estribeiras, que amuam só porque não o deixam ir para a frente de batalha?

Um míssel seguiu rumo à Síria e estoirou com um autocarro e respectivos passageiros. Um outro caíu numa zona rural destruíndo uma família, e um outro ainda invadiu território turco.

Na sua frieza, os porta vozes militares falavam das baixas e danos colaterias com naturalidade e espantavam-se com o número reduzido de vítimas daquela guerra. Como falariam se essas vítimas fossem entes queridos seus?

Com o recrudescer da guerra, eram cada vez mais os inocentes civis. A imagem de um criança num hospital e um pai a prometer vingança foi a primeira de muitas outras que se seguiriam. «Resistiremos», dizia o homem. Alguém duvida? Ponham-se no lugar dele. Por muito que um ditador nos atormente a existência, a revolta é sempre maior para quem nos prive para sempre de um ente querido. Mesmo que seja em nome de uma liberdade prometida.

O descaramento foi tal que, ainda o conflito ia no adro e começavam já a ser divulgados quais os reais interesses dessa e de todas as outras guerras. Sabia-se (já então) que a maior parte dos membros da Administração Bush estivera ligada a empresas de armamento e que a dama Condolezza Rice tinha até um porta aviões baptizado com o seu nome.

A política de destruir para reconstruir envolvia biliões do dólares. Tinham já sido adjudicados contratos para as empresas norte-americanas e britânicas irem buscar a sua parte de leão. Fosse nos poços de petróleo, que era preciso apagar; fosse no porto de Um Qsar, que era preciso reconstruir. «A guerra é o juíz da economia moderna», comentava acertadamente alguém em Portugal.

Estávamos agora na fase dos bombardeamentos massivos. Dos hospitais cheios de homens, mulheres, crianças esventradas. Na fase do conveniente apelo de Saddam e outros loucos à jihad. Na fase do regresso a Bagdade de exilados políticos e milhares de voluntários árabes prontos a serem mártires. Dos primeiros ataques suicidas. Do nervosismo no gatilho dos soldados da Coligação nos posto de controlo e nos erros que não podem mais ser remediados. Na fase dos ódios e promessas de vingança.

A verdadeira guerra começava de verdade. Ou melhor, começara depois da tomada de Bagdade. Uma guerra que com toda certeza iria “sobrar para todos nós”, como se constata ainda hoje, nos dias que correm.

Joaquim Magalhães de Castro

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