Francisco Vaz Patto, Embaixador de Portugal na Tailândia

Francisco Vaz Patto

Portugal pode chegar à ASEAN através da Tailândia.

«É importante mostrar o que é português na Tailândia», defende o embaixador de Portugal em Banguecoque, Francisco Vaz Patto. «Portugal vai muito para lá dos vinhos e dos pastéis de nata. É preciso que os tailandeses conheçam os nossos produtos e serviços, a nossa tecnologia de ponta e as empresas portuguesas com dimensão mundial», explica a’O CLARIM o representante diplomático de Portugal, numa conversa em que abordou também outros assuntos, como os planos para as celebrações dos 500 anos do primeiro Tratado de Comércio e Aliança entre Portugal e o Reino do Sião e as diversas trocas culturais entre os dois países.

O Tratado de Comércio e Aliança foi o primeiro firmado pelo Reino do Sião com um país ocidental, com os termos a serem discutidos entre Junho e Dezembro de 1518. As negociações decorreram entre enviados portugueses de Malaca, liderados por Duarte Coelho, e representantes do Rei Rama Thibodi II. As autoridades querem fazer coincidir as festividades com o mesmo período, cinco séculos depois.

Em 2011 assinalou-se os 500 Anos da Chegada dos Portugueses à Tailândia, com toda a solenidade que tal efeméride merecia: visitas de alto nível de ambas as partes, incluindo uma passagem daquela que deve ser a maior embaixadora do orgulho português, o Navio Escola Sagres, que esteve aportado na capital tailandesa durante alguns dias na sua última volta ao mundo. A parte tailandesa retribuiu com a oferta a Portugal de um pavilhão (Sala) em teca, ornamentado a ouro, que a princesa Maha Chakri Sirindhorn foi a Portugal entregar pessoalmente ao povo português. A oferta está acessível a todos no Jardim de Belém, onde pode ser visitada diariamente. Por sua vez, a barca portuguesa foi visitada por milhares de pessoas em poucos dias.

Sete anos após a chegada dos portugueses ao Sião, dado as boas relações com a corte siamesa, foi assinado o Tratado de Comércio e Aliança entre os dois países. Nos últimos meses deste ano uma equipa de investigadores tem procurado encontrar documentos que possam atestar este acordo, que inicialmente se pensava ter sido apenas oral. Segundo Francisco Vaz Patto «devem existir documentos na Tailândia, pois em Portugal desapareceram com o terramoto de Lisboa em 1755. As referências ao acordo são transversais aos historiadores dos dois países».

O resultado desta pesquisa dará origem a uma exposição, para que se possam ver os documentos que comprovam o acordo e as boas relações entre os Estados. Mostras estão a ser preparadas tanto em Lisboa como em Banguecoque, mas ainda não há datas, estando apenas assente que terão lugar no mesmo período em que decorreram as negociações há 500 anos.

Apesar deste ser, muito provavelmente, o evento de maior porte a que Francisco Vaz Patto irá presidir durante a sua estada na Tailândia, muito outro trabalho tem sido feito. Com dois anos de funções oficiais no Reino da Tailândia, a diplomacia económica e cultural tem assumido um papel de extrema relevância.

Para o embaixador, «o que de bem se faz em Portugal tem de ser dado a conhecer aos tailandeses. Através da Tailândia as empresas portuguesas podem ter uma excelente porta de entrada na ASEAN».

As trocas comerciais nunca estiveram tão bem como agora. Os investimentos tailandeses em Portugal são de grande monta. Um grupo hoteleiro comprou o Tivoli em Lisboa, uma empresa ligada ao ramo petrolífero adquiriu posições em Sines e um grande grupo ligado ao sector das pescas comprou recentemente uma empresa conserveira em Peniche. Razões para acreditar que o trabalho que vem sido feito pelos sucessivos embaixadores está a dar frutos para Portugal. Cabe agora aos empresários portugueses olharem para o mercado da Tailândia como um polo de oportunidades e aproveitarem-no como porta de entrada na ASEAN. Apetite pelos produtos e serviços portugueses parece haver no antigo Sião, mas falta aos empresários portugueses uma presença mais assídua para ficarem a conhecer o mercado.

 

Vertente cultural

Para se aproximar mais da população, nomeadamente dos luso-descendentes em Banguecoque, Francisco Vaz Patto vai continuar a abrir os portões da residência diplomática – um dos mais emblemáticos edifícios da capital tailandesa, situado na margem do rio Chaophraya – aos fins-de-semana. Apesar da residência ser a «minha habitação», o diplomata reconhece que a importância arquitectónica e histórica do edifício não se coaduna com o facto de estar sempre interdito à população.

Ao mesmo tempo estão a ser pensadas outras iniciativas, como visitas guiadas aos bairros onde ainda vivem luso-descendentes e o convite a artistas de várias áreas de Portugal. Escritores, artistas plásticos, músicos e dançarinos já passaram pelos jardins e pelas instalações diplomáticas, sendo esperados mais ainda este ano e no próximo.

Um trabalho de monta que se tem vindo a realizar, apesar de todas as restrições financeiras que afectam Portugal. «Com muita ginástica, contactos, cooperações e patrocínios vai sendo possível trazer o que de melhor se faz em Portugal nestes campos. A iniciativa mais recente foi a vinda da Companhia de Bailado de Olga Roriz no dia 9 de Novembro, um evento organizado e concretizado pela Embaixada, Centro Cultural Português Camões e a Friends of the Arts Foundation que teve também uma faceta de beneficência na angariação de fundos destinados ao patrocínio de dez bolsas de estudo para alunos tailandeses de dança moderna». Conforme explicou Francisco Vaz Patto, «esta é uma das formas mais eficazes de divulgar Portugal. Trazer cá a nossa cultura e apoiar a ida de jovens tailandeses a Portugal para aperfeiçoarem as suas vocações. São esses jovens que, quando voltarem ao seu país, irão divulgar Portugal de forma mais eficiente – uma divulgação que funciona de forma mais efectiva do que outras iniciativas, porque quem vive em Portugal, por muito curta que seja a sua experiência, nunca mais esquece o nosso país e vem completamente apaixonado».

Já em Outubro esteve na Tailândia a designer portuguesa Rita Gomes, mais conhecida por Wasted Rita, onde apresentou a sua primeira exposição a solo na WTF Galery. A mostra “10795 days of bummer de Wasted Rita” contou com o apoio da Embaixada e do Centro Cultural Português Camões. Partiu de um convite da galeria tailandesa depois da artista portuguesa ali ter participado na exposição colectiva Neverland, em Maio.

O empenho da galeria tailandesa WTF tem tido o apoio da Embaixada de Portugal. Para além da aposta em criar um nicho para os artistas portugueses, quer tentar encontrar uma parceria em Lisboa para ali ser criado um espaço para artistas tailandesas e, assim, intensificar o intercâmbio entre artistas dos dois países.

Pela Embaixada passou também o artista de rua Vihls, que em Macau deixou algumas obras este ano. Aliás, a passagem por Banguecoque estava agendada para antes da ida a Macau, mas devido ao falecimento do Rei Bhumibol Adulyadej o programa teve de ser alterado. Contudo, tal não impediu o jovem artista luso de deixar a sua marca na parede exterior da Embaixada de Portugal, obra que é já uma atracção turística. Muitos guias, nomeadamente os que lideram grupos que visitam vários locais da capital tailandesa de bicicleta, não dispensam parar ao pé do muro e, em várias línguas, explicar a obra do artista.

Vihls tem agendada nova presença em Banguecoque para o início de 2018. Foi convidado para a Bienal BUKRUK, um evento com o alto patrocínio da União Europeia que reúne em Banguecoque artistas de rua de todo o mundo. Vihls virá de Portugal com outro artista, cujo nome ainda não está confirmado, para deixar a sua marca nas paredes do Distrito Creativo de Bangrak, onde está a Embaixada de Portugal.

Entretanto, conforme adiantou o embaixador, «ainda este ano virá um escritor português para participar numa conferência e apresentar uma das suas mais recentes obras “Jesus Cristo Bebia Cerveja”». Afonso Cruz é já um autor consagrado que escreve essencialmente livros juvenis.

“Jesus Cristo Bebia Cerveja”, de 2012, venceu os prémios “Time Out – Livro do Ano” e “Melhor Livro do Ano”, segundo os leitores do jornal Público, devendo a representação diplomática patrocinar a tradução para Tailândes no decorrer de 2018.

João Santos Gomes

Em Banguecoque (Tailândia)

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