Duarte de Sande, Jesuíta Vimaranense

DUARTE DE SANDE

O mentor de Matteo Ricci

Desde os tempos da escola primária que nos habituamos a associar Guimarães à figura de Dom Afonso Henriques e à origem da nação. Essa é uma realidade bem conhecida dos portugueses. São raros, no entanto, aqueles que conhecem a aventura vimaranense da época dos Descobrimentos, representada por alguns ilustres personagens. O jesuíta Duarte de Sande foi um deles, pois deixou a sua marca na China do século XVI. Inicialmente em Macau; e depois, em Zhaoqing, cidade da província de Cantão.

Interessado em saber mais sobre a vida e obra deste padre, visito a cidade berço, detentora do título Património da Humanidade. Nas ruas, parques, vielas e praças da cidade respira-se história e cultura. Aqui, pessoas e granito parecem um só. O lado secular da vida convive com o lado religioso, como o constata a traça arquitectónica dos edifícios do centro histórico.

Foram muitos os missionários que o Minho enviou por esse mundo fora. Mas, apesar dessa tradição religiosa, não encontro uma única pessoa em Guimarães que tenha ouvido falar de Duarte de Sande. Terei de procurar informações noutro local.

Ao contrário do que se pensa, a chegada dos portugueses a Macau fez-se a bordo de juncos, e não de caravelas ou naus. E os seus ocupantes não representavam o Império, mas sim a iniciativa privada. Estamos a falar de portugueses em pleno processo de miscigenação. Com mulheres indianas, javanesas, siamesas, japonesas e chinesas. Na sua obra “Peregrinação”, o aventureiro Fernão Mendes Pinto ilustra bem essa realidade. A viagem das pessoas foi também a viagem das plantas, das tecnologias e das crenças.

A introdução do Catolicismo na China fez-se, precisamente, via Macau. Contudo, para que a empresa singrasse, houve que assimilar os cultos locais, estratégia utilizada com sucesso pela Companhia de Jesus. Duarte de Sande seria um dos primeiros missionários a introduzir as novas leis de adaptação à cultura, usos e costumes, bem como à língua chinesa.

Isabel de Pina, investigadora do Centro Científico e Cultural de Macau, é das pessoas que melhor conhece a vida e obra de Duarte de Sande. «Sabe-se que ele nasce em 1547, em Guimarães, embora o seu contexto familiar esteja por estudar», admite.

Como não existem documentos comprovativos, toda a especulação acerca das origens do jesuíta é legítima: Seria Duarte de Sande de uma família nobre, como muitos acreditam? Ou, pelo contrário, seria um simples aldeão?

Perto de Guimarães há uma freguesia chamada Vila Nova de Sande. Seria essa a terra natal do nosso jesuíta? Muitas são as perguntas ainda sem resposta.

Como é que era naquela altura fazer uma viagem de Lisboa para Goa? Ouçamos Isabel de Pina: «Esse é um dos assuntos que mais me fascina… Duarte de Sande segue a bordo da nau São Luís, precisamente onde vai uma das figuras mais emblemáticas da missionação na China; ou seja, Matteo Ricci. O irmão Ricci com o padre Sande, que lidera um grupo de cinco jesuítas. Infelizmente a nau em que seguiam é a única das três naus que do qual não existe relato de viagem».

Nada se sabe. Sabe-se, isso sim, que eram viagens muito duras, feitas nas condições mais adversas. E que demoravam, no mínimo, seis meses. Quem partia, partia sem a certeza de um regresso.

«Um professor sino-americano que fez uma das biografias mais fascinantes sobre Matteo Ricci cruzou a informação sobre os outros dois relatos para imaginar a própria viagem do Ricci que é a viagem do Duarte de Sande», acrescenta a investigadora.

Nessa jornada, Goa, a faustosa capital do Império Português do Oriente, era etapa segura e desejada. Duarte de Sande fica sete anos na Índia, entre Goa e Baçaím. Se é provável que haja algum relato sobre essa sua estada, nada foi encontrado nos arquivos europeus, fosse no Palácio da Ajuda, fosse nos Arquivos da Companhia de Jesus em Roma.

Goa é sobretudo um ponto de formação extremamente importante. Duarte de Sande é professor, e é professor de Teologia de Matteo Ricci. No entanto, a figura do primeiro acabaria por ser ofuscada pelo segundo, que, ao que consta, não simpatizava com o português. Chamava-lhe judeu, entre outros nomes. Essa antipatia devia-se certamente a uma mera questão pessoal e funcional, pois não esqueçamos que o Sande é o primeiro a ocupar as funções de chefia nas missões de Macau e da China que só depois Ricci ocupará. Hoje em dia, o italiano é sinónimo de jesuítas na China, o que não deixa de ser uma injustiça para com outras destacadas figuras da missionação no Oriente. Pelos vistos, a professora Isabel de Pina partilha desta opinião: «Ricci faz parte de um todo. Não pode ser visto, como um gigante, como foi chamado na década de sessenta pelo George Dan».

Sobre essa matéria muita coisa haveria a dizer, pois são muitos os esquecidos.

Em frente a um galão quente, tento descortinar algo mais sobre a vivência portuguesa de Duarte de Sande. Mas, para além de ficar a saber que estudou Filosofia e Teologia em Coimbra, e que mais tarde ensinou Latim e Retórica, também nessa cidade, como era costume, parece que nada mais de substancial se conhece. Faltam estudos fundamentais sobre a matéria.

«O Duarte de Sande continua a ser, apesar de tudo, uma figura muito mal estudada. E esse é um problema que se aplica aos nossos jesuítas em geral. Há figuras muito mal estudadas. E eram muito interessantes, figuras centrais mesmo». Figuras que, por falta de estudo, ficaram remetidas para uma simples placa de rua ou para uma apagada inscrição numa lápide funerária.

Joaquim Magalhães de Castro

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