Decadência e Queda da Comboios de Portugal

Suor e Carris

Suor e Carris.

O cenário tem vido a repetir-se ao longo das últimas décadas. Chega a canícula e qualquer viagem feita num comboio da CP é, por norma, um desconforto do princípio ao fim. Nunca o ar condicionado está no nível correcto. Aliás, é a própria CP a admitir essa grave falha ao decidir suspender a venda de bilhetes no longo curso, o serviço mais solicitado e o que mais receitas dá, nos dias 3 e 4 de Agosto, e isto porque “o sistema de ar condicionado nos comboios não funciona acima dos 42 graus”. Como é possível? Serve afinal para quê um ar condicionado? Se a esta perene falha juntarmos a degradação da via férrea – há troços na viagem Porto-Lisboa que proporcionam meias horas seguidas de irritantes solavancos capazes de abalar os estômagos mais blindados – e os constantes atrasos, estão reunidos os ingredientes para a desgraça. A verdade é esta: há vinte anos viajava-se com mais rapidez e conforto, e a metade do preço. Outra coisa admite a Comboios de Portugal, “uma iminente situação de colapso”. Na verdade a empresa já colapsou, apenas aguarda que lhe encontrem um destino final e até que isso aconteça teremos de gramar com mais do mesmo.

No dia em que em Portugal se registaram todos os recordes, 2 de Agosto, com temperaturas nunca antes vistas, tive a infeliz ideia de recorrer aos serviços da CP. A viagem no Alfa Pendular 135 que saiu de Lisboa às 16 horas com destino a Braga e que me deixou em Espinho foi uma experiência traumática. A temperatura no interior das carruagens ultrapassou os 30 graus centígrados, obrigando as centenas de passageiros – muitos idosos e crianças, e também inúmeros turistas (estes incrédulos, face ao que estava a acontecer) – a fazer de qualquer objecto um leque de forma a respirar. Era tal o descalabro que o cobrador em vez de controlar os bilhetes distribuía garrafas de água. Presumo que receasse que algum passageiro colapsasse devido ao calor. E não vale a pena culpar o dito. Um comboio – no caso, novo em folha – deve estar devidamente equipado de forma a prestar um serviço de qualidade aos seus passageiros.

Já em casa, nas redes sociais, dei-me conta que nesse dia não fôramos apenas nós as vítimas. Li duas queixas de pessoas que passaram pelo mesmo. A primeira delas, também num Alfa Pendular, o 127, “que deveria ter saído de Santa Apolónia às 17 horas” mas que só sairia meia hora depois, já que chegara do Porto atrasado e com uma avaria no ar condicionado. O utente em questão teve o cuidado de ir ter com o revisor pedindo-lhe que se a avaria se mantivesse o alertasse, de forma a que pudesse sair na Gare do Oriente, para apanhar outro comboio. Apesar da promessa, o revisor não atendeu ao pedido. Na Gare do Oriente, como é habitual, entrou o grosso dos passageiros e “o ambiente foi ficando cada vez mais irrespirável”. Pensando que o problema se limitava à carruagem que ocupava, o utente e outros passageiros “que também já se estavam a sentir mal” dirigiram-se às outras carruagens, mas o problema mantinha-se. “Na carruagem 4, então, a temperatura era absolutamente insuportável, de tal forma que todos os passageiros a abandonaram e se espalharam pelo resto do comboio, de pé ou sentados no chão”, escreve o indignado internauta. Pelos vistos o bar era “o único sítio com temperatura suportável”. Aí se foram concentrando muitas pessoas, e como resultado também aí o ambiente se tornou insuportável. O problema agravar-se-ia quando algumas pessoas, sobretudo idosos e crianças, se começaram a sentir mal. “Como se tudo o resto não bastasse, o comboio seguia em marcha muito lenta e parava volta meia volta, fora de estações, em sítios ermos, agravando ainda mais o estado de pré-pânico que começou a gerar-se”, informa ainda o queixoso.

Durante toda esta situação, e como já é hábito na CP, “nenhuma explicação foi dada aos passageiros, quer pelo maquinista, quer pelo revisor (ainda por cima, este último, com respostas pouco delicadas para quem o interpelava)”. Com a situação no limite, alguns passageiros (entre os quais o queixoso) interpelaram o revisor exigindo sair na estação mais próxima. E assim foi. Saíram em Pombal e daí foram de táxi até Coimbra. Conclui o passageiro: “Só quem passou por esta situação pode avaliar o profundo sofrimento que ela provocou, para além dos prejuízos objectivos do atraso e dos enormes danos morais (recordo que foi o dia mais quente do ano, a temperatura exterior rondava os 45 graus centígrados e como o Alfa é hermeticamente fechado, sem outra ventilação que não seja o ar condicionado, a temperatura no interior tornou-se insuportável e o ar irrespirável)”. Apesar da imensa gravidade da situação, o queixoso pensou que se tratasse de “uma inesperada anomalia”, e que a CP, perante as reclamações de tantos passageiros, iria impedir que tal se repetisse. Porém, logo se apercebeu de que havia queixas de outros passageiros relatando uma situação similar num outro Alfa Pendular (certamente aquele onde eu viajara), que, recorda, “é o melhor comboio que a CP tem para oferecer aos passageiros!”. E pergunta com toda a legitimidade: “Será preciso morrerem pessoas dentro do comboio, para que a CP actue e corrija estas gravíssimas anomalias?”.

Outra das queixas a circular na Internet, neste caso acompanhada de imagens que documentam o incidente, foi a de um comboio regional avariado em pleno Alentejo. Os passageiros ficaram fechados nas carruagens sem a possibilidade de abrir as portas sob uma temperatura de quarenta graus! No fim do pequeno vídeo ilustrativo vêem-se pessoas a seguirem pela linha férrea a pé de forma a encontrar uma localidade próxima. “Retrato na primeira pessoa de uma situação incompreensível em pleno século XXI”, comenta o autor do alerta.

Joaquim Magalhães de Castro

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