D. Michael Yeung, Bispo da Diocese de Hong Kong, fala das relações China-Vaticano

D. Michael Yeung

Associação Patriótica sem dias contados.

O novo bispo da diocese de Hong Kong, D. Michael Yeung, abordou recentemente, em declarações à Catholic News Agency, a liberdade religiosa e as relações Igreja-Estado na China continental. Delineou também os principais desafios e realçou a importância do trabalho da Igreja Católica junto do povo chinês, especialmente nos idosos, doentes e pobres.

A Igreja na China continental continua a «descobrir o rosto de Jesus nos rostos dos pobres», apesar dos desafios políticos que se colocam, disse o líder da diocese de Hong Kong, D. Michael Yeung. «Não há motivação, além de servir a Cristo, ao servir o menor dos seus irmãos, sem incluir os outros do seu amor e abraço», referiu o prelado, sustentando que «isto é verdade para a Igreja na China, como é em qualquer outro lugar».

As conversações para um possível acordo entre a Santa Sé e o Poder Central sobre a nomeação dos bispos têm estado em marcha nos últimos anos. A Associação Católica Patriótica Chinesa (ACPC) assinalou o seu 60º aniversário sem grande alarido, levando à esperança que um acordo pudesse ser finalizado. Todavia, o processo parece estar num impasse, complementava a Catholic News Agency.

«As coisas não são sempre o que parecem» porque «o que acontece ao nível prático da realidade é muitas vezes mais significativo do que o que foi ou não alcançado em termos formais», analisou D. Michael Yeung. De igual forma, notou que o controlo é particularmente importante durante este «momento delicado, com a preparação para o 19º Congresso Nacional do Partido Comunista Chinês, previsto para Novembro».

«Não estou muito surpreendido que Yu Zhengsheng, um dos sete membros do Comité Permanente do Politburo e presidente da Conferência Consultiva Política do Povo Chinês, segundo relatos de Julho deste ano, tenha destacado que Pequim pretende manter as “rédeas curtas” para garantir que a Igreja Católica na China seja mantida firmemente nas mãos daqueles que “amam a nação e a religião”», nomeadamente os comunistas chineses.

D.Michael Yeung lembrou que «o Presidente Xi Jinping insistiu em Abril do ano passado, durante a Conferência Nacional sobre o Trabalho Religioso, que os grupos religiosos devem aderir à liderança do Partido (com ele ao leme), apoiar o sistema socialista e o socialismo com características chinesas, conservar o princípio da “independência religiosa” e da “auto-administração”, e que deve haver a “sinização da religião”».

 

Associação Patriótica é para manter

«As autoridades chinesas definem o papel da ACPC como uma ponte entre a Igreja e os seus próprios gabinetes de governança interna», observou D. Michael Yeung, para quem «na prática é assim que esse papel é desempenhado, o que pode fazer grande diferença». Para ele, «não há muito a dizer» quanto à «falta de alarido nas comemorações do 60º aniversário da ACPC», até porque a entidade «parece não estar preparada para se anular a si própria».

Conforme explicou, a ACPC foi criada pelo Congresso Nacional de Representantes Católicos Chineses, uma organização fundada para suplantar a Conferência Episcopal da Igreja Católica na China, estabelecida pela Santa Sé.

«A própria existência destas três entidades, a sua composição e a suas relações com a Igreja são, presumivelmente, parte dos desafios a serem enfrentados nas negociações entre a Santa Sé e a administração chinesa», frisou, admitindo que não são «desafios novos», como «o próprio Papa Bento XVI identificou e reconheceu» entre «vários outros problemas» constantes «na sua carta aos católicos chineses de 2007».

Ao falar de liberdade religiosa, explicou que «os sinais estão frequentemente misturados e a situação varia de religião para religião, de localidade a localidade e de tempos em tempos». Segundo D. Michael Yeung, «a Constituição chinesa fala de “liberdade de crença religiosa” e protecção de “actividades religiosas normais”, mas o que realmente importa é como o controlo governamental é exercido na prática».

«As autoridades chinesas parecem ter definições diferentes de “patriotismo” para diferentes propósitos em diferentes momentos», aclarou. «O Partido Comunista Chinês procura impedir que os seus membros se tornem cristãos, mas está perfeitamente contente em nomear a honorável Carrie Lam, uma católica, que não é membro do partido, como Chefe do Executivo da administração governamental de Hong Kong. Ninguém sugere que ela não possa amar o País e amar Hong Kong em virtude da sua religião», reforçou o prelado.

Em jeito de conclusão, o bispo de Hong Kong disse esperar que possa ser dado aos católicos do continente o direito de professarem a sua fé para benefício de todos e para a harmonia da sociedade como bons cidadãos, trabalhando para o desenvolvimento positivo da comunidade nacional, conforme palavras do cardeal italiano D. Pietro Parolin.

Na mesma linha de ideias, «são pontos que valem a pena ser realçados», pois «entoam a responsabilidade e a harmonia social», sem esquecer «as metas de desenvolvimento no contexto do continente chinês».

 

Ao serviço dos pobres (Caixa)

Nos desafios que a Igreja enfrenta no seu ministério como “Igreja dos pobres e para os pobres”, D. Michael Yeung fez questão de dizer que «o Governo chinês incentiva geralmente o sector religioso a participar mais nos serviços sociais e de caridade». «Infelizmente a Igreja, com poucas excepções, só podia fornecer serviços médicos privados porque as reformas do sistema de seguro médico geralmente não abrangiam as instituições médicas católicas», assinalou, notando que nos últimos anos a situação tenha começado a mudar. Os hospitais católicos atraem muitos clientes, devido à «qualidade do atendimento que oferecem aos pacientes», vincou.

P.D.O.

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