Crianças no Sofá

CRIANÇAS NO SOFÁ

Acha que o seu filho não se motiva com nada?

As férias do Natal estão à porta. Entre o tempo para não fazer nada, o tempo para a brincadeira e o tempo para actividades de interesse, alguns pais e avós podem confrontar-se com crianças a quem nada parece despertar a vontade, o entusiasmo ou a motivação. Haverá motivos para preocupação?

Quem convive com crianças sabe que não é só uma frase feita, mas é um facto que, mesmo criadas pelas mesmas pessoas e com as mesmas rotinas, as crianças são todas diferentes. E se as há motivadas, focadas e apaixonadas por alguma coisa, também as há mais dispersas, sem certezas quanto a pontos de interesse, que saltam de actividade em actividade porque não conseguem adorar uma, mais amigas de um “não me apetece fazer nada, nem gosto muito disso”.

Sobre as dificuldades de arrancar algumas crianças do sofá, há um aspecto muito determinado pela época em que vivemos: a tecnologia. E a mesma criança a quem não apetece sair do sofá poderá ser a mesma que, podendo, não larga o telemóvel ou o “tablet”.

O estudo “Childhood Obesity Surveillance Initiative” (COSI), que avaliou seis mil 745 crianças em Portugal, mostra que, em 2016, quase sessenta por cento utilizavam o computador para jogos electrónicos cerca de uma hora por dia durante a semana, enquanto dezasseis por cento despendiam na actividade duas horas por dia e 4,5 por cento cerca de três horas ou mais. Ao fim de semana, cerca de oitenta por cento das crianças estavam no computador duas ou mais horas por dia. Estes dados representam um aumento relativamente ao estudo anterior, feito em 2008, em que apenas doze por cento das crianças avaliadas usavam o computador para jogos entre uma e duas horas durante a semana.

As tecnologias são de facto «um enorme desafio», acredita Rita Guapo, psicóloga e autora do blogue “Pés na lua”, mas se pensa que a solução pode passar por lhes encontrar inúmeras actividades que lhes desviem as atenções do ecrã e os arranquem do sofá, pode não ser a melhor abordagem, assegura, em entrevista dada por e-mail. «Sempre que expomos a criança a demasiados estímulos estamos, de alguma forma, a sobrepor-nos ao ritmo da sua curiosidade, anulando a sua capacidade de se auto-motivar e de descobrir aquilo que a move. A hiperestimulação a que muitas vezes assistimos hoje em dia, que resulta do desejo dos pais em proporcionar o máximo de experiencias possível aos filhos, associando a estas um melhor desempenho cognitivo, acaba por ser contraproducente. A criança aprende a acomodar-se a tudo aquilo que lhe é proporcionado ou, pelo contrário, torna-se dependente desse excesso de estimulação, o que pode alimentar um sentido de insatisfação permanente ou de falta de desejo: o mundo é dado como garantido e a criança não se sente como parte activa do processo da sua descoberta».

Embora a utilização de “gadgets” tenha aumentado, 66 por cento dessas mesmas crianças brinca fora de casa durante o fim-de-semana três ou mais horas por dia. Ainda há, portanto, formas de motivar os mais novos a encontrarem vontade de sair do sofá.

Até porque «nenhuma criança, nasce desmotivada para aprender», acredita Rita Guapo. «As crianças pequenas possuem, naturalmente, um instinto de curiosidade muito grande por tudo o que acontece à sua volta. É esta procura de compreensão do mundo que as leva a descobrir e a aprender, de uma forma autónoma, usando a experiência como motor do conhecimento. Nenhuma criança nasce desmotivada para aprender. Pelo contrário, esse é o seu principal equipamento de base, que se caracteriza por uma predisposição natural para a observação atenta do que as rodeia», continua.

E não há que ter medo se desligar os ecrãs e a criança não encontrar logo aquela actividade preferida que a vai fazer parecer verdadeiramente empenhada e interessada numa qualquer actividade ou desporto. Não é preciso estranhar se desliga o ecrã e a criança fica por ali, sem fazer nada. Porque, de acordo com os especialistas, esse não fazer nada também ajuda ao desenvolvimento. «É precisamente este tempo para não fazer nada que nos permite o treino da criatividade e a capacidade de nos reinventarmos e de transformar o ambiente que nos rodeia. Uma criança a quem é permitido este tempo e este espaço é uma criança capaz de estar consigo própria e de procurar no meio as ferramentas para dar resposta às suas necessidades e desejos», esclarece Rita Guapo.

Já em Outubro de 2016, Álvaro Bilbao, neuropsicólogo e pai de três filhos, tinha defendido uma ideia semelhante numa entrevista ao Expresso: «O momento em que se apaga a televisão é mágico. É incrível o que os miúdos inventam quando os pais não lhes dizem o que fazer. Isso ajuda imenso a desenvolver a imaginação».

Por outro lado, talvez esteja nos próprios pais o maior poder para motivar os filhos a sair do sofá. Sem pressões, críticas ou culpas, os pais são efectivamente um impulso para as crianças. O último estudo da Imaginarium, “A felicidade e a infância”, divulgado no final do ano passado, realizado com mil 131 pais, indica que oito em cada dez pais preocupam-se com a felicidade futura dos filhos e a maioria acredita que os filhos são “felizes” (20,2 por cento) ou “muito felizes” (51,6 por cento). Contudo, os níveis de felicidade das crianças variam conforme a idade. De acordo com os seus pais, 15,2 por cento das crianças entre os sete e os oito anos nem sempre são felizes, descendo para os 13,2 por cento na faixa etária dos cinco-seis anos e fixa-se em apenas 6,4 por cento de crianças infelizes entre os zero e dois anos. Sobre motivos para a infelicidade, os pais inquiridos responderam: “não passar tempo suficiente com os pais” (26,3 por cento), “não ter tempo suficiente para brincar” (21,3 por cento) ou “ficar de castigo” (16,4 por cento). Fazer planos em família fora de casa (como andar de bicicleta ou ir ao cinema) é aquilo que faz as crianças mais felizes para 45 por cento dos pais. Logo a seguir, vem o “passar tempo sozinhos com os pais” (20,2 por cento das respostas), sendo que brincar com os amigos aparece em terceiro lugar na lista de actividades que mais felizes fazem as crianças, com 17,8 por cento das respostas.

Em relação aos brinquedos, 38 por cento dos inquiridos consideram que as bicicletas e os veículos com rodas em geral são os preferidos. No topo das preferências estão também os brinquedos relacionados com a música, a arte e os trabalhos manuais (35,2 por cento), os jogos de lógica e construção (30,8 por cento), cozinhas e profissões (30,6 por cento). Os ecrãs, televisões, “iPads”, videojogos e telemóveis (19,4 por cento) surgem na oitava posição.

Mas se não vale a pena demonizar o sofá, os ecrãs e entrar em pânico com uma certa atitude de “eu quero é estar sossegado” e um desinteresse por uma agenda preenchida de actividades, vale sempre a pena manter uma observação mais consciente, principalmente à medida que as crianças se vão aproximando da adolescência, para uma possível desmotivação mais real. «A falta de empenho ou desmotivação é muitas vezes a parte visível do icebergue, constituindo um recurso para nos defendermos de algo com o qual não nos sentimos capazes de lidar: se um adolescente não liga nenhuma a escola, pode ser porque acredita que os outros serão sempre melhores do que ele; se não investe no exame final, pode ser porque acha que nunca vai conseguir ter uma nota que satisfaça a família, e assim, por evitamento, se vão confirmando todas as profecias, as dos pais e as do próprio. É fundamental compreender que a desmotivação pode ser um sinal de alterações emocionais ou de uma baixa auto-estima que, alimentadas por sentimentos de incapacidade ou de maior vulnerabilidade, acabam por impedir os jovens de explorarem as suas capacidades e de correrem atrás daquilo que desejam», acredita a psicóloga.

Por agora, aproveite as férias com os seus filhos; pode ser a dose de motivação que baste para já.

RITA BRUNO 

Família Cristã

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