Centro de Estudos Portugueses para o Sudeste Asiático (CEPESA)

CEPESA

Em busca dos traços indentitários lusófonos.

O CEPESA – Centro de Estudos Portugueses para o Sudeste Asiático é uma unidade de investigação do Ministério da Ciência e do Ensino Superior, inaugurada a 13 de Março de 2000 na altura em que o ministro da Ciência era ainda Mariano Gago. Pretendia-se coordenar as actividades dispersas de investigadores com experiência para a região do Sudeste Asiático e para as áreas adjacentes, especialmente Macau e o Sul da China, e tentar desenvolver um projecto institucional de investigação no domínio das Ciências Sociais. O centro tem hoje essa vocação, sendo um centro interdisciplinar, inter-universitário, e que fundamentalmente desenvolve actividades de investigação colectiva e individual no campo das Ciências Políticas, das Ciências Sociais, da História e do Património.

Naturalmente que no projecto do centro há uma influência decisiva da presença dos vestígios sociais, patrimoniais e culturais do legado luso no Sudeste Asiático, que é para o público português assunto praticamente desconhecido. Na verdade, é que em qualquer país que actualmente faz parte da ASEAN encontramos vestígios da presença cultural portuguesa e, às vezes, até organizada, essa presença, em comunidades importantes.

Evidentemente que esta presença é, digamos, dialéctica. Ela significa também que grupos sociais no mundo asiático se serviram da presença portuguesa, se serviram da cultura portuguesa, se serviram da língua portuguesa com objectivos de identificação social de eles próprios com objectivos de serem diferentes, com objectivos de promoção social, como ainda hoje em dia se percebe nos kristang de Malaca, que começando por serem pescadores são agora um grupo de católicos particularmente proeminentes com importância social e económica no mundo malaio.

O caso de Macau é fundamentalmente um espaço sínico onde se desenvolveu uma cultura que foi cruzando o chinês e o português ou até o chinês e o luso-asiático. E que criou comunidades, que criou hábitos, que criou até urbanismos sem paralelo noutros espaços coloniais e muito menos nos espaços coloniais europeus. Comparando Hong Kong – que é quase construído de raiz pelos ingleses – com Macau, Hong Kong poderia chamar-se Singapura ou Kuala Lumpur que não veríamos grande diferença. Mas em Macau, apesar de tudo, apesar de ser fundamentalmente uma cidade chinesa, encontramos diferenças. E esse questionamento acaba por interrogar a especificidade sociológica e cultural da presença colonial portuguesa na Ásia, que é diferente daquela que ocorreu no Brasil ou em África.

A língua é, como sabemos, um dos mais importantes traços identitários de um povo, no caso particular dos países da CPLP, de vários povos.

Um recente (e assustador) relatório da UNESCO diz-nos que desaparecem no mundo duas línguas por semana. São comunidades que com a crescente globalização deixam de usar línguas com um passado de milénios. E uma língua significa uma biblioteca, para identificar plantas, animais, formas de parentesco, objectos. É tudo isso o que essas populações estão a perder para depois importar um idioma forasteiro. Batemo-nos tanto para salvar espécies animais em extinção, mas se calhar temos que começar a batermo-nos para salvar espécies culturais em extinção.

Em Portugal as pessoas têm muito pouca consciência desse legado (línguistico e de outra natureza), inclusive as instituições governamentais. O próprio Ministério da Ciência tem pouca consciência desta presença e de como ela pode gerar boas oportunidades de negócios.

Em Portugal o desinteresse pela Ásia explica-se pela integração europeia e a chegada dos fundos comunitários. O que interessa é a Europa mesmo que essa Europa seja a Letónia. Arriscamo-nos a desperdiçar boas oportunidades, inclusive a oportunidade de termos um país a falar Português no Sudeste Asiático. Em Timor Leste (apesar das boas perspectivas no horizonte) a batalha pelo Português foi mal gerida. Foi feita sem a compreensão das sociedades locais. Mandaram-se fundamentalmente jovens para ensinar Português nas escolas primárias em vez de preparar timoreneses que dominam os códigos culturais da sociedade e das sociedades locais a ensinar Português. Os tribunais funcionavam em Bahasa Indonésio, os jornais circulavam em Inglês, Indonésio e Tétum e o Português tinha dificuldades em penetrar.

Aqui, seria importante compreender as lições africanas. Quando Portugal saíu oficialmente de Moçambique apenas sete por cento dos moçambicanos falavam Português, segundo as estatísticas oficiais. Hoje temos 70 por cento da população a falar Português, porque o Português se tornou vital enquanto identidade. Senão Moçambique não passaria de um apêndice da África do Sul e dos restantes paises anglófonos existentes em redor. E isto, embora pertença à Commonwelth, como país de língua oficial portuguesa, o que é significativo.

Timor Leste que está a negociar a sua entrada oficial na ASEAN pode fazê-lo como país de língua oficial portuguesa. É absolutamente espantoso ter um país na Ásia profunda que fale Português, e que pode muito bem ser uma ponte para a Indonésia e os restantes países do Sudeste Asiático. Há muito pouco conhecimento em Portugal, mesmo entre os decisores políticos, sobre estas oportunidades e realidades. Evidentemente que cabe (também) à investigação científica tentar inverter a situação.

Joaquim Magalhães de Castro

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