Cartas do Bornéu – 21

As casas longas dos daiaques

As casas longas dos daiaques

De regresso ao Brunei, desta feita para uma visita rural. Um Nissan de motor bem apurado serve o propósito, rumo à fronteira com o que resta da selva do Bornéu. No caso, é todo o caminho, até a estrada acabar. Literalmente. Em Teraja, onde resiste uma “longhouse” – a dita “casa comprida”, típica habitação dos povos autóctones, sejam eles iban, orang ulus ou daiaques – credenciada pelo turismo local.

Antes de ali chegar, passagem obrigatória em Tutong, terra de feiticeiros. Se até aí já não era muita a mancha habitacional, quando deixamos a auto-estrada, direcção sul, passando por Labi, raríssimas se tornam as povoações.

Excelente motivo para uma demorada paragem, a reserva natural de Hutan Luagan Lalak. Tem um passadiço de madeira que permite ir até ao centro do lago pantanoso com águas de um negro metalizado onde se reflecte um céu encastoado de nuvens negras. À superfície, lótus, nenúfares e tufos de gramíneas várias que mais parecem ilhas. É um local lindo e simultaneamente ameaçador. Adivinham-se todo o género de répteis e os inevitáveis crocodilos, apesar de aqui, como habitualmente acontece, não se vislumbrarem quaisquer avisos de alerta para a presença dos temidos sáurios. Abrigos cónicos permitem que fiquemos à sombra, em profunda meditação se assim o desejarmos, embora o breu das águas dê a impressão de estar a ocultar algo intimidante. Peixes certamente os há, pois ali vi pescadores de fim de semana aguardando serenamente a presa.

Liang, a 47 quilómetros do fim do troço de estrada, como o nome indica, identifica quem povoou toda esta região. Chineses (quem mais havia de ser?) bem embrenhados nas lides agrícolas: horticultura, floricultura e fruticultura. Simbologia muito sua transparece não só nos domicílios – com pequenos templos à porta a fazer lembrar marcos de correios – como também em templos maiorzinhos de culto colectivo.

Todas as estâncias, aparentemente sem vivalma, mantêm um aspecto abandonado, invariavelmente com automóveis entregues aos elementos a fazer lembrar cenários de filmes rodados nos grandes espaços abertos do continente americano, só que aqui a paisagem sobra de tão verdejante que é.

Antes de chegarmos a Teraja, outras “longhouses” ficam pelo caminho. Rampayaoh, Mendaram Besar e Mendaram Kechil, porventura os vestígios mais óbvios da existência dos nativos da Grande Ilha, a respeito dos quais sobejamente escreveu o antropólogo britânico Edwin M. Gomes, cujo apelido revela ascendência portuguesa. Filho do reverendo anglicano W.H. Gomes, que missionou entre os daiaques de Lundu entre 1852 a 1867, Edwin é talvez o maior especialista dos nativos do Bornéu e são da sua autoria os livros “Sete anos entre daiaques” e “Filhos do Bornéu”.

Informa-nos Gomes que a casa longa dos daiaques é construída em linha recta, “com paredes e telhado cobertos com folhas de palmeira secas”. Conta com uma longa varanda descoberta “onde o arroz, após a debulha, é colocado a secar ao sol”. É ali que se penduram as roupas e uma variedade de outras coisas. Diz-nos ainda Gomes que “o piso desta parte da casa é geralmente de tábuas de madeira dura, de modo a aguentar as agruras do clima”. O pavimento do resto da casa é feito de cana de bambu. Ao lado da varanda descoberta temos uma sala aberta, “ou varanda coberta”, que se estende sem qualquer divisão por toda a extensão da casa. “É um lugar fresco, agradável, muito frequentado por homens e mulheres”, garante o antropologista. Não só serve de espaço de convívio como é aqui que as mulheres tecem e os homens cortam a lenha usada para cozinhar os alimentos ou até fazer barcos, “se estes não forem de tamanho muito grande”. Trata-se de um lugar público aberto a todos os que chegam, e é, inclusivamente, usado como caminho pelos viandantes, “que sobem a escada numa das extremidade, caminham por todo o comprimento da casa, e descem a escada na outra extremidade”. O piso é alcatifado com espessas e pesadas esteiras de cana entrelaçadas com tiras estreitas de casca batida. Recorda Edwin Gomes que, “quando necessário”, são espalhados no solo “tapetes de textura mais fina” para os visitantes se acomodarem, “pois os daiaques não usam cadeiras e sempre se sentam no chão”. De um dos lados do dito corredor público está uma fileira de portas, conduzindo cada uma delas a um quarto separado que é ocupado por uma determinada família. Quartos esses que servem vários propósitos. Servem como cozinha, “porque em cada canto há uma lareira onde a comida é preparada”, de sala de jantar e de quarto de dormir. Nos três lados da sala – o quarto lado é ocupado pela lareira – estão alinhados os objectos de valor, “o tesouro dos daiaques”: vasilhas de cerâmica, gongos e pistolas de bronze. “As xícaras e os pratos são pendurados em prateleiras alinhadas contra a parede”, informa Gomes. O chão da casa longa é varrido regularmente, caindo o lixo pelas frinchas para a parte inferior onde vivem os porcos, as cabras e vários tipos de aves de capoeira.

Joaquim Magalhães de Castro

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