Calçada, bola e contos de fadas

A inquietante mansidão lusitana

A inquietante mansidão lusitana

Há algo de profundamente inquietante na gente portuguesa. Vejo-a cada vez mais apática e amorfa, incapaz de uma reacção decente a não ser que o árbitro roube um golo ao Benfica. Aliás, a futebol-tolice continua com audiências estratosféricas. É a maior. Há uns dias, todos os noticiários das principais estações televisivas da República insistiram nas imagens, mostradas “ad nauseam”, referentes à irregularidade de uma jogada de ataque assinalada por essa nova entidade reguladora chamada vídeo-árbitro. Como se não nos bastasse a epidemia dos comentadeiros avençados, gente que parece não saber fazer mais nada na vida, que por aí anda…

Além de mansa – não no sentido da mansidão dos Evangelhos, antes mansidão boçal e domesticada – a gente portuguesa parece sofrer de uma doentia propensão para assistir impávida e serena à aniquilação de tudo aquilo que mais a distingue e identifica.

Não consigo tirar da cabeça a actual ameaça à calçada portuguesa, até porque regressei às ruas de Lisboa e, como previa, deparei com mais uns pedaços do belo empedrado arrancados. Continua em curso, com certeza com o ámen da maioria da população nacional, a erradicação da nossa típica calçada. Isto porque, aqui há uns anos, umas senhoras de tacões altos se queixaram que aquele piso não era o mais apropriado para as suas sessões na “passarelle” do quotidiano. Ou não terá sido antes porque um amigo do edil-mor ou de um dos seus vereadores andava necessitado de uma grande empreitada, pois a malvada da crise – “os tempos estão difíceis, não é?” – assim o exigia?

Há, no criminoso processo em curso, uma refinada perversão: retiram-se os paralelepípedos de calcário branco e negro onde eles estão muito bem e se recomendam há dezenas e dezenas de anos, substituindo-os por umas manhosas placas de cimento que ficam a meter nojo logo às primeiras pastilhas elásticas, beatas de cigarros ou escarradelas, poupando-se, porém, os vinte ou trinta centímetros de mosaico junto às paredes dos edifícios. Será que é para freguês ver ou algum descargo de consciência ao retardador? Não me parece que haja qualquer utilidade nisso. Já que o crime está em marcha, ao menos que se minimizem os estragos. Ou seja, o contrário se impõe: manter a calçada no seu todo, e, quando necessário, criar um trecho de piso aderente com uns vinte ou trinta centímetros, ao jeito das ciclovias, evitando-se assim os ocasionais desequilíbrios e quedas em dias de chuva, provocadas pelo calcário molhado.

Nem de propósito. Há pouco mais de uma semana, ali para os lados do Areeiro, cogitava eu sobre este assunto de olhos fixos na calçada que palmilhava, quando me deparei com uma dessas periquitas tentando estoicamente aguentar-se nos seus vistosos saltos em “stiletto”. Pensei logo para com os meus botões: “Aproveita, pois da próxima vez que por aqui passares estas pedras já aqui não estarão”.

Recorde-se que a decisão de liquidar um dos nossos patrimónios mais autênticos deu-se, por deliberação da Assembleia Municipal, em 2014, quando a Câmara Municipal de Lisboa era presidida pelo actual Primeiro-Ministro. Nunca o conseguirei perdoar por isso. Nem a ele nem a quem votou nessa tão descabida decisão. Infelizmente, o mesmo acontecera, em 2005, na Praça da Liberdade, em pleno centro da Invicta. Sem que o povão tugisse ou mugisse, antes aplaudisse a ideia, arrancados foram os desenhos que ilustravam a história do vinho do Porto e os românticos jardinzinhos que tinham a eles acoplados esse sinal de civilização que são as casas de banho públicas. Tudo foi sacrificado para dar lugar ao grande plano do senhor Siza Vieira que substituiu as pedras de calcário por cimento e pedras de granito e livrou-se das poucas árvores ali existentes.

Pelo andar da carruagem outros municípios seguirão a tendência e em breve chegará o dia em que para podermos apreciar um troço de calçada à portuguesa teremos de atravessar o Atlântico, até uma das cidades brasileiras. Ou vir a Macau.

E é isto. Incapaz de se amar a si próprio ou o que genuinamente é seu – e quem ama protege, nem que seja com a própria vida – a gente portuguesa busca refúgio em contos de fadas alheios. Não há flatulência produzida pelos membros da família real britânica que passe despercebida aos periodiqueiros de serviço, sempre dispostos a prender-nos com enlatados que empestam os bons ares desta terra à beira mar plantada. E se a coisa não mete príncipe ou princesa, recente rebento ou rainha fora do prazo, mete certamente famoso com compra de imóvel efectuada ou vontade disso. O país está à venda. A capital, os arredores, o monte alentejano. Aplaude-se em delírio a mudança de residência da Madonna para Lisboa, aplaudem-se as classificações que elegeram este ou aquele lugar de Portugal como o melhor destino do ano ou melhor destino do mundo, havendo até estudos (ah! os estudos, essa nova e chorunda fonte de receitas) que indicam Portugal como país com a melhor qualidade de vida… para estrangeiros com posses, é claro. Será que não se apercebeu ainda, a mansa gente portuguesa, que o seu país se está a transformar num país de serventes e empregados de mesa?

Joaquim Magalhães de Castro

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