Bengala e o Reino do Dragão – 49

Voo sobre os Himalaias

Voo sobre os Himalaias

A tranquilidade do formoso vale de Paro é quebrada apenas pelos voos em ziguezague das aeronaves da Bhutan Airlines e da Druk Air, as únicas companhias aéreas autorizadas a sobrevoar este estreito pedaço de terra bastante arado e cingido por uma cadeia de montanhas com uma média de altitude de cinco mil e quinhentos metros. Umas quantas vezes ao dia vêem-se romper do nada aviões rumo ao aeroporto, “o mais desafiador do Mundo”, cuja pista, de tão curta, não atinge sequer os dois mil metros. Contam-se pelos dedos das duas mãos os pilotos certificados para cumprir tão delicada tarefa. Voos em Paro são permitidos apenas durante o dia e sob condições meteorológicas de excelência, o que nem sempre é o caso no Verão, altura das monções, facto que origina alguns dissabores pois é o turista obrigado a recorrer ao meio aéreo pelo menos uma vez – à entrada ou à saída do Butão – podendo, como é lógico, e se for essa a sua vontade, fazê-lo em ambos os casos.

Findo o périplo de cinco dias neste auto-proclamado Reino do Dragão, ouço-me a dizer: “Tantas questões para tão pouco tempo!”. Precisaria de aqui ficar alguns meses para poder aprofundar uma série de pistas que com certeza me conduziriam a agradáveis surpresas. Infelizmente não me posso dar a esse luxo e, feitas as despedidas – um jantar da nossa equipa com o guia e o seu chefe, regado com um bom tinto Infinitae, patrocinador do projecto –, eis-me no interior de um desses aeroplanos de tamanho médio que em slalom contornam, num sucessivo virar de asas, os diferentes píncaros até atingirmos a velocidade cruzeiro. Atencioso, o co-piloto indica-nos a presença de “à vossa direita, o Evereste” e, minutos depois, “o Annapurna, à vossa esquerda”, etc… Nunca os alvos picos dos Himalaias me pareceram tão próximos. Aproveito as horas que nos separam de Banguecoque para fazer um ponto da situação.

Resumida de forma sucinta a actividade dos padres jesuítas nas faldas, contrafortes e planaltos da cadeia himalaica, resta-nos, em jeito de epílogo do tamanho de quatro ou cinco capítulos, saber quais os passos do padre João Cabral posteriores à sua saga hindustânico-butanesa, pois sabemos já que Estêvão Cacela faleceu em Xigatsé, no Tibete Central, e ali jaz sepultado. Seria longa a vida do padre Cabral e geografias muitas abrangeria. Caso a seguíssemos passo-a-passo pano haveria para compridas e marchetadas mangas. Fiquemos pois pela região a que se cinge este conjunto de crónicas. Acabado de regressar do Tibete Central, João Cabral seria testemunha de um decisivo evento histórico: o ataque mogol a Hugli de 1632. Essa mesma Hugli de onde, em 1627, tinha partido na companhia de Estêvão Cacela e Bartolomeu Fonteboa com o intuito de atravessar as terras do Reino do Cocho e do Butão, e onde tinha retornado antes de voltar a rumar ao Tibete, desta feita acompanhado pelo padre Manuel Dias, testando uma outra rota ainda, a do Sikkim, actual Estado da União Indiana entremeado entre o Nepal e o Butão – rota essa à qual não se daria continuidade devido ao inesperado falecimento do padre Dias, como também já aqui foi dito. Ora, esteve na origem do mencionado ataque mogol inesperada mudança de poder e de atitude em relação aos portugueses. Sucede que após a morte de Jahangir, imperador magnânimo seguidor da linha de acção do progenitor Akbar, e com quem os portugueses sempre mantiveram excelentes relações, sentar-se-ia na cadeira do poder Shah Jahan, seu filho, que não teve qualquer pejo em assassinar – não sem antes o cegar, como era tradição naquelas paragens – o seu irmão Shahryar Mirza, legítimo herdeiro, imperador de facto durante algumas semanas apenas.

Jahan tinha tanto de cruel como de fanático, e desde logo demonstrou enorme hostilidade em relação aos portugueses de Hugli que em massa tinham aderido à causa de Shahryar Mirza, apesar de anteriormente terem servido Shah Jahan como soldados, pois este fora um dos generais mais temidos daquela época. O mogol encarou o gesto como uma traição e não lhes perdoou. Para agravar a situação, tão pouco a cidade lhe mandara o costumeiro presente e as felicitações aquando a sua entronização no final de 1627, ou seja, pouco tempo depois de Estêvão Cacela e João Cabral por lá terem passado. Hugli constituía uma aventura comercial de portugueses à revelia do poder oficial sedeado em Goa. Residiriam então nesse entreposto comercial uns três centos deles, casados com mulheres locais ou mestiçadas, se bem que as houvessem também, caso raro, de extracção europeia. O resto da população, uns dez mil, eram indianos, na sua maioria comerciantes e marinheiros, havendo também um número indeterminado de escravos, pois o tráfico de seres humanos era das actividades mais rentáveis daquela cidade. Embora, de modo geral, Hugli fosse útil às autoridades de Bengala, actividades como essa causavam desconforto. E também a lucrativa venda de pólvora e armas aos mercenários e piratas portugueses que à rédea solta andavam naqueles mares e em Dianga (hoje mero bairro da cidade de Chittagong) e na ilha ali próxima de Sandwip se encontravam sedeados, servindo sempre que requeridos Tiri-tu-dama, rei de Arracão, que tenazmente defendia os seus territórios do impiedoso e inexorável avanço mogol. Esses portugueses à solta, bons de armas, eram presença desejada naquelas partes e por isso os protegia o monarca arracanês, fechando os olhos às actividades menos lícitas a que eles se entregavam: pilhando as aldeias costeiras e embarcações do Golfo de Bengala que lhes forneceriam os escravos que depois iriam vender em Hugli.

Joaquim Magalhães de Castro

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