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Que outras evidências temos para além dos manuscritos?
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Teologia, uma dentada de cada vez (5)

Que outras evidências temos para além dos manuscritos?

Para além dos numerosos dados fornecidos pelos manuscritos das Sagradas Escrituras (“evidência interna”), também podemos usar outras obras para estabelecer a autenticidade das Escrituras (“evidência externa”). Neste caso focamo-nos apenas no Novo Testamento e em particular nos Evangelhos. Queremos examinar os Evangelhos porque são a maior fonte do nosso conhecimento sobre os testemunhos enviados por Deus, Testemunhos da Nova Aliança: Jesus Cristo.

Quando dizemos “evidência externa” queremos referir-nos aos outros registos que foram escritos por altura do tempo em que os Evangelhos apareceram e que se referiam aos Evangelhos. (aviso: alguns leitores poderão achar isto aborrecedor e enfadonho). O Novo Testamento foi escrito aproximadamente entre 50 e 100 d.C. Podemos encontrar provas em outras obras literárias?

Vamos começar pelas obras escritas entre 70 e 155 d.C. Estas obras (que já se encontram disponíveis na Internet) contêm aproximadamente cem citações directas ou indirectas dos nossos Evangelhos. Entre elas encontramos o “Diache” ou “Os Ensinamentos dos Doze Apóstolos” (entre 70 e 100 d.C.); escritos de Santo Inácio de Antioquia (+107 d.C.); a Primeira Epístola do Papa Clemente, escrita e enviada da comunidade cristã de Roma para a comunidade cristã de Coríntio em 96 ou 98 d.C. (o Papa Clemente foi o quarto Papa, entre 92 e 99 d.C.); uma carta de São Policarpo de Esmirna (+155 ou 166 d.C.), escrita a partir da Ásia Menor (hoje parte da Turquia); e uma obra chamada “O Pastor de Hermas”, de finais do primeiro século ou meados do século II.

Papias (bispo de Hierápolis na Asia Menor), no primeiro quartel do século II, mencionou dois ou três dos Evangelhos pelo nome nos seus escritos e escreveu cinco livros sobre o Evangelho, os quais foram conhecidos até 340 d.C. Santo Irineu, bispo de Lion (140-203), citou o Novo Testamento (e não só o Evangelho) mil 819 vezes. Para não ser ultrapassado, Clemente de Alexandria (Egipto, 150-211) citou-o duas mil 406 vezes. Tertuliano (160-220) sete mil 259 vezes. Podemos comparar as citações deste com as de outros escritores e com textos modernos da Bíblia – são essencialmente iguais. Também escreveu o “Adversus Marcionem” – “Refutando Marcião” (Marcião era um gnóstico que distorceu e adoptou o Terceiro Evangelho). Tertuliano defendia a integridade dos Evangelhos mostrando que numa data anterior teriam sido tomadas medidas para se certificarem que as transcrições estavam de acordo com os originais.

Taciano (120-180) compôs a “Diatéssaron” ou “Harmonia dos Evangelhos”, isto é, juntou as quatro narrativas numa só (provavelmente foi escrita em Sírio). O seu texto foi influenciado por São Justino, o Mártir (140 d.C.) que o convertera. A tradução, em Arábico, foi encontrada e editada por Ciasca em 1888. Esta versão é, uma vez mais, essencialmente a mesma da dos textos modernos.

Numa aula futura, veremos que no começo os Evangelhos foram transmitidos de boca em boca, mas muito rapidamente foram registados por escrito. São Justino dizia na sua “Primeira Apologia” que por altura do ano 140 d.C. os cristãos já liam os Evangelhos quando celebravam a Eucaristia. Este facto só foi possível com recurso a manuscritos ou cópias dos textos.

Enquanto São Justino testemunhava a existência de um texto em Grego, também há provas de que já havia traduções em Latim (antes de São Jerónimo, que viveu entre 347 e 420, e que efectuou a tradução “Vulgate”).

Nos julgamentos dos primeiros mártires cristãos, por exemplo, estes eram obrigados a entregar as Escrituras, escritas em Latim, para serem queimadas. Também havia provas da existência de textos em Siríaco (língua antiga derivada do Aramaico, que gerou a língua Síria).

Pe. José Mario Mandía

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