Bengala e o Reino do Dragão – 46

As viagens himalaicas

As viagens himalaicas

Em 1580, nas faldas montanhosas de Oleiros, Beira Alta, nasce António de Andrade, o homem a quem com toda a justeza se atribui o pioneirismo nos Himalaias e no planalto tibetano. Passariam dezasseis anos até que, em parte incerta, visse a luz do dia Manuel Marques, o companheiro de viagem de Andrade, e não menos pioneiro do que este. Protagonistas foram, um e outro, de uma das mais emocionantes jornadas encetadas por portugueses. Entretanto, em 1582, lá longe, no Oriente, Rodolfo Acquaviva, missionário italiano destacado no Norte da Índia pelo Padroado, enviava para a Europa as primeiras notícias acerca de um misterioso reino chamado Potente, ou seja, o Tibete. Em 1590, o catalão Antonin Montserrat, companheiro de Acquaviva, dava os últimos retoques num relatório onde, detalhadamente, eram descritas as crenças e costumes dos “boths” ou “bothantas”, isto é, tibetanos. Um ano depois, Jerónimo Xavier (sobrinho de Francisco Xavier), na companhia do irmão leigo Bento de Góis, tratam de recolher informações acerca do Tibete no decorrer de uma viagem efectuada à região montanhosa de Caxemira. E mais: resumem-na, nas cartas que dali enviam para Goa. Xavier remeteria novas informações na missiva do ano seguinte, isto 24 meses antes do desembarque de António de Andrade em Goa.

A busca propriamente dita do mítico reino do Cataio inicia-se com a partida de Góis para a Rota da Seda, em 1603, no decorrer da qual, em Yarkand (actual Xinjiang chinês), este irmão coadjuctor encontra um príncipe tibetano prisioneiro dos muçulmanos. O seu nome era Gombuana Miguel, e após a conversa mantida com ele, em Persa, concluiu o açoriano de Vila Franca do Campo serem cristãos os tibetanos. Por essa altura, 1603-1604, é possível que alguns jesuítas tivessem já tentado entrar no Tibete através da montanhosa região de Caxemira, certamente inspirados pelas pistas fornecidas por Xavier e Góis. A 30 de Março de 1624, António de Andrade, acompanhado do leigo Manuel Marques, deixa Agra, e um mês depois está já em Deli com destino ao Tibete. Alcançam estes dois portugueses a povoação de Serinagar, na actual província do Himachal Pradesh, a 11 de Maio; e, a caminho de Badrinath, local de peregrinação hindu, acabam por descobrir a nascente do rio Ganges, “as fontes do Ganges”, como diz Andrade na sua carta. Logo a seguir, atravessam o colo de Mana – charneira entre as enflorestadas montanhas himalaicas e o árido planalto tibetano – atingindo assim, em Agosto, e depois de várias tentativas goradas, o tão aguardado reino do Guge. Setembro é altura de regresso a Agra, de onde Andrade enviará a primeira carta, que só dois anos depois, e “com todas as licenças”, será publicada em Lisboa, pelo editor Matheus Pinheiro. O padre beirão voltaria a encetar a mesmíssima rota a 17 de Junho de 1625, desta feita acompanhado pelo confrade Gonçalo de Souza. O destino seria atingido a 18 de Agosto, tendo Souza regressado a Índia pouco tempo depois. A 10 de Setembro, António de Andrade escreve uma carta relatando esta segunda deslocação ao Tibete.

1626 seria um ano frutífero. Enquanto em Lisboa era editada, sob o título “Novo Descobrimento do Gram Cathayo ou Reinos de Tibet”, a primeira missiva de Andrade, escrita a 8 de Novembro de 1624, algures entre 15 de Março ou 30 de Abril de 1626, deixavam Cochim os padres Estêvão Cacela e João Cabral rumo ao Tibete Central, decididos a estabelecer aí uma missão católica semelhante à existente em Tsaparang. Por essa altura, conduzidos por Manuel Marques, demandavam o Guge os padres João de Oliveira, Francisco Godinho e Alan dos Anjos, de seu verdadeiro nome Alain de Beauchere, pois era francês de nacionalidade. São eles que a 12 de Abril irão colocar a primeira pedra naquela que virá a ser a igreja de Tsaparang, dedicada a Nossa Senhora da Esperança. A 12 de Julho é expedida de Hugli a primeira missiva de Estêvão Cacela, e a 2 de Agosto, este e o companheiro João Cabral, deixam Bengala rumo ao norte. O mês de Agosto assinala o envio de dois relatos da missão do Tibete: um de Andrade (a terceira da conta pessoal) e um outro do padre João Godinho. Relatos enviados, note-se, com um dia de diferença. Quando, em Outubro, Cacela e Cabral alcançam Cooch Behar, Manuel Marques abandona Tsaparang com destino à Índia, pois essa época é marcada por viagens sucessivas de ida e volta. Eram viagens épicas, feitas em dificílimas condições e que muitas vezes custavam a vida a quem as realizava.

Na passagem do ano de 1626 para 1627 o rei de Guge, que tão bem recebera os padres portugueses, inicia uma perseguição aos monges locais, facto que determinará a médio prazo o futuro da missão católica. Criar esse polo de Cristandade em terras tão inóspitas fora façanha basta mas não suficiente, pois na Primavera seguinte seria estabelecida uma estação missionária no ainda mais remoto povoado de Rutok, na fronteira entre o Ladakh e o Ngari, ou seja, o Tibete Ocidental. Erguida numa colina sobranceira ao lago Pangong e a uma altitude de quatro mil metros, Rutok caracteriza-se pelas suas casas construídas em camadas, caiadas de branco, todas elas muradas. No topo da colina avista-se um grande palácio e vários mosteiros pintados de vermelho, a assinalar território budista.

Joaquim Magalhães de Castro

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