Antigos Hábitos, Vestes Modernas

Vassalagem e hotelaria

Vassalagem e hotelaria

É em períodos de feitos-lusitanos-em-época-de-regência-estrasburgo-bruxelense, altura em que o português, por norma, embandeira em arco, que mais oportuno se afigura trazer à liça algumas reflexões sobre a nossa forma de ser e de estar no mundo, neste caso sobre a péssima e incorrigível tendência para o servilismo e a subserviência. Que reforça a incómoda impressão, como escrevia Miguel Esteves Cardoso numa excelente crónica publicada na imprensa e que respiguei de um dos seus livros, de que “é só em Portugal que o tratamento que se dá aos incompatriotas atinge o nível da água das malvas, dos descontos chorudos e dos paninhos quentes”.

E nem sequer está aqui em causa – pelo menos directamente – o recente e polémico jantar no Panteão Nacional destinado a uns quantos participantes da Web Summit escolhidos a dedo, até porque se começa a descobrir que esse hábito, o das jantaradas bem regadas, tem sido prática corrente nestes últimos anos naquele espaço patrimonial, que é a perfeita metáfora do Portugal actual. Certo é que, neste particular, parece haver, da esquerda à direita, um consenso no que à indignação diz respeito – curiosamente em assunto bem mais grave, que é a irradicação em curso da calçada à portuguesa em muitas das ruas da capital, o nível de indignação é quase nulo.

Mas nem mais esta cedência face ao brilho de uns trocos do vil metal, nem o escancarar dos portões dos Jerónimos a um passeio privado da Madonna é coisa nova entre nós. Já durante a visita de Bill Clinton – que por cá passou à pressa porque precisava de vir dar alguns recados à Europa – tivemos a oportunidade de mostrar quão bons somos a dobrar a espinhela e a escovar os pêlos dos librés de suas excelências. Por acaso, e só por acaso, acontecia que os destinos da União eram ainda presididos por Portugal, daí que se possa dizer que o Presidente norte-americano visitou o nosso país por arrasto. Ou acréscimo, como preferirem. E, arreigado à “sua América” e aos ianques costumes como estava, o saxofonista de fim-de-semana trouxe com ele uma esquadrilha de aviões, várias centenas de funcionários (desde assessores de Imprensa a escanções) e umas valentes toneladas de material de apoio, fossem cabos de microfones ou garrafões de água mineral. Pois nada de utilizar a água da torneira em Lisboa, nem mesmo para lavar a dentuça, pois isso de Portugal tresandava mesmo a Terceiro Mundo. Porém, para ser simpático, Clinton quebrou uma ou outra vez o protocolo, acenou às criancinhas, mencionou Timor, Vasco da Gama e Bartolomeu Dias. E é claro, elogiou o clima e manifestou o desejo de aqui ter casa, à beira mar plantada – onde é que já ouvimos isso?… Olhando o reverso da medalha: desprezou os órgãos de informação locais, ao negar-se prestar uma declaração que fosse, e os seus gorilas chegaram a agredir profissionais da Comunicação Social. Que, recorde-se, actuavam no seu país natal. Aliás, os “men-in-black” da Casa Branca foram as verdadeiras estrelas do patético filme. Intrometeram-se no que não lhes dizia respeito, complicaram a vida a quem trabalhava e tiveram o desplante de irromper no Palácio de Belém – para acertar os últimos pormenores no apertado sistema de segurança previamente montado – no momento em que Jorge Sampaio dava uma entrevista a jornalistas do Público.

Nessa histórica deslocação, durante a qual os nossos dirigentes tiveram uma óptima oportunidade de prestar vassalagem à mais poderosa nação do planeta, a subserviência – maleita que nos vai destruindo implacavelmente – atingiu as raias do absurdo. Na cedência, por parte dos responsáveis do Parque Expo, aos pedidos (ou terão sido ordens?) da embaixada norte-americana em Lisboa, no sentido de encerrar as portas e encobrir a fachada do bar “CubaLibre”, e ainda retirar as quatro bandeiras cubanas que das esquinas do dito estabelecimento esvoaçavam junto ao Tejo. Assim se fez. Em nome dos delicados olhos do ex-governador do Arkansas, que devia a todo o custo ser poupado a tal “afronta” visual. Consta que o palanque de onde o Presidente discursou (que também veio directamente dos Estados Unidos, no porão do Air Force One), distava uns 60 metros do “CubaLibre”. Razão suficiente para a tomada de atitude tão radical. O gerente do bar, que assim se viu privado do negócio durante esse e o dia seguinte, terá afirmado: “É uma vergonha nacional que a embaixada norte-americana mande em Portugal”. É claro que o gerente em questão teve todo o direito de pedir uma indemnização, assim como exigir explicações junto da embaixada ianque em Lisboa, e consta até que o fez.

Como se não bastasse, o então Primeiro-Ministro israelita Ehud Barak, aproveitando a estadia de Clinton, deu cá um pulinho. Primeiro enfrentou as câmaras televisivas ao lado de Guterres, visivelmente incomodado pela indelicadeza do sionista. Pois sabia – ele e todos nós – que o encontro era simples fachada, já que Bill era o alvo de Barak. A quem este, de resto, fez mais uma série de queixinhas. Majestoso, Clinton recebeu como se estivesse em casa. Como se Portugal fosse uma espécie de Hawai ou de Ilhas Marshall.

A este propósito, e mais uma vez, cito o antigo cronista d’O Independente: “É mesmo verdade que sabemos receber. Podemos não saber dar, devolver ou mesmo pagar mas, em matéria de recebimentos, ninguém abre mais os braços, as pernas, os porta-moedas, ou as auto-estradas pagas pela CEE. Ninguém sabe receber como nós”. E conclui: “Mais do que um povo hospitaleiro, somos um povo hoteleiro”. Fomo-lo tantas e variadas vezes ao longo dos últimos séculos. Fosse acolhendo ditadores a banhos no Estoril, fosse albergando em Macau os pouco escrupulosos comerciantes britânicos durante a Guerra do Ópio; fosse ainda fornecendo de borla talentosos pilotos à Royal Air Force durante a Segunda Guerra ou permitindo a usurpação do nosso Algarve e Alentejo nas últimas décadas pelos abastados estrangeiros dos quatro continentes.

Associados aos serviços de hotelaria, também o servilismo e a subserviência têm raízes profundas na nossa história não tão longínqua. Em relação à Inglaterra então, o rol não mais acaba. Dificilmente recuperaremos algum dia dos desastrosos efeitos do tratado de Methuen e dos actos de pirataria de Francis Drake e congéneres, que actuaram sob a asa da sua majestade do outro lado do canal da Mancha. No campo estritamente político, Portugal permitiu, em diversas ocasiões, ser representado ao mais alto nível pelo seu suposto aliado. Foi assim aquando o reconhecimento oficial da independência do Brasil, em 1825, proclamada três anos antes por Dom Pedro I. Assim foi meio século depois, no reatamento das relações diplomáticas com o jovem país. Em ambas as ocasiões, as negociações decorreram sob os auspícios da diplomacia inglesa. E assim continuamos, desgraçadamente.

Ainda a respeito da histórica visita de Bill Clinton a Portugal, a promotora imobiliária Euroamer, mais conhecida como “a empresa de Frank Carlucci”, presidida então pelo ex-jornalista Artur Albarran, alugou uma página inteira nos diários portugueses mais importantes para dar as boas-vindas ao Presidente norte-americano. E preencheu-a com um desenho infantil, certamente orientado por espírito adulto, que representava Clinton em pé sobre o mundo de mãos dadas a quatro criancinhas, duas americanas e duas portuguesas, cada uma delas com as respectivas bandeiras. Nos lugares que ocupam no globo terrestre, o minúsculo Portugal e o gigantesco Estados Unidos da América unidos por setinhas e um grande coração. No topo um “Welcome President Clinton on your visit to Portugal”.

A propósito de visitas de chefes de Estado, Miguel Esteves Cardoso lembra que existem “povos hipócritas” capazes de servilismo interesseiro, ao contrário dos portugueses. É que aqueles, ao invés de nós, uma vez cumprido o protocolo, “logo se desfazem da bandeira americana que trazem atada à cabeça, e cospem nela repetidas vezes”. Concluindo depois: “E só não cospem mais nela porque depois não arde”. Ainda sobre endeusamentos, não de Presidentes mas de outras figuras nem por isso menos conhecidas, subscrevo inteiramente as linhas de Esteves Cardoso: “Muitas vezes lamentei publicamente a tendência dos públicos portugueses para entrar em extâses adulatórias só porque um cantor pop foi capaz de, no final do concerto demasiado bem pago, balbuciar ‘Obrigado Portugal’”.

E quem se lembra dessa pérola do anedotário nacional que foi a decisão da fanfarra de elite da GNR, certamente cansada do reportório, ter escolhido o tema “YMCA” da banda de disco-sound Village People, para render a guarda na residência do Presidente da República? Facto que, como ficou registado, deleitou uma turista-americana que em Portugal pode “recordar o seu país com muito prazer”, embora tivesse deixado uma transeunte nacional estupefacta por aquela coisa “tão pouco apropriada a esse género de cerimónias”. Realmente! Já agora, e para compor o ramalhete e dar mais colorido à coisa, por que não terem vestido os guarda nacionais republicanos à operário de construção civil, à marinheiro, à motard, à cowboy e à índio? Enfim, por que não tê-los trajado à imagem e semelhança dos rapagões do Village People?

Nesta época em que uma série de celebridades escolhem Lisboa para residir ou fugir a impostos mais pesados, facto que tem posto em polvorosa as redes sociais, e enquanto a desgraçada da “Like a Virgin”, coitada, não encontra palacete para descansar das varizes, vou folheando revistas com quase vinte e anos e deparo com os tristes cenários que atrás ficam descritos. Afinal, apesar do foguetório e do habitual atirar de culpas da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, do presente Governo para o anterior e do deste para o actual, o cenário pouco mudou nesta concessão à beira-mar afogada.

Joaquim Magalhães de Castro

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