A Mudança Equinocial

Drones e pechas avulsas

Drones e pechas avulsas

Uma das questões mais badaladas nos Meios de Comunicação Social portugueses no decorrer do Verão que já era, foi a questão da necessidade ou não de se legislar sobre os drones. Essas maquinetas – que são tudo menos brinquedos, recorde-se – foram, inclusive, o prato forte da conversa numa das edições do debate televisivo “Prós e Contras”. Na minha modesta opinião, acho que, neste caso, a questão do pró e do contra nem sequer se devia colocar. É claro que é preciso – é urgente – legislar. E, uma vez posta a lei em letra, fazê-la cumprir. E com a maior celeridade e rigor possíveis, pois está em causa a segurança de todos. Queira-se ou não, os drones podem constituir uma potencial e poderosa ameaça. E bastante real. Um dia destes são utilizados num atentado terrorista e depois quero ouvir o que têm para dizer os tontos que acham que a actividade não precisa de ser regulada.

Não é que precisasse de ficar convencido – até porque foram já várias as ocasiões em que o avistamento de drones no espaço aéreo dos aeroportos de Lisboa e do Porto (só para nos cingirmos ao panorama nacional) levaram os pilotos a abortarem a aterragem e, nalguns dos casos, a arribar a outro aeroporto, com o astronómico custo que isso implica –, contudo, um pequeno vídeo que vi há dias na Internet deixou-me arrepiado. Passo a explicar. A imagem, filmada do interior um avião em pleno voo, mostra-nos a ponta de uma das asas a ser arrancada por um drone, que surge de repente, e do nada. O incidente foi captado pelo telemóvel de um dos passageiros no preciso momento em que, entusiasmado, explicava ao seu filho menor de idade o que representavam os arranha-céus lá embaixo, pois o aparelho preparava-se para aterrar. Que fosse ou não uma cidade norte-americana, não vem ao caso e pouco interessa. Na altura do impacto (por incrível que pareça, o drone seguiu o seu percurso, aparentemente incólume) a imagem, como é óbvio, tremeu. E o avião também, embora ligeiramente. Ouviu-se de imediato o curto e sonoro “pim”, indicador da obrigatoriedade de apertar os cintos de segurança. É quase certo que a aeronave aterrou sem problemas de maior, caso contrário todos saberíamos já da notícia. Mas, semelhantes a este, quantos casos não ocorrerão numa base regular em todo o mundo? Será que se justifica chegarmos a uma desgraça colectiva só porque um imbecil qualquer, acenando a todos o seu “direito” e a sua “liberdade pessoal”, decide brincar com a vida dos seus semelhantes?

Assustadores os tempos que se avizinham… Após os drones, que já nos espiolham a intimidade quando estamos nos nossos terraços, jardins e varandas, teremos carros e homens voadores a preencherem os céus. Sei que há palavras adequadas para os definir, mas não me vou dar ao trabalho de as procurar. Quando isso acontecer, não teremos paz e sossego em lado nenhum, pois desgraçadamente as estradas do ar não têm qualquer empecilho de carácter orográfico. Mesmo que estejamos no fim de mundo, a dias de distância de uma estrada ou de uma localidade, haverá sempre a possibilidade de sermos sobrevoados por um dos milhentos objectos voadores que entretanto passarão a estar disponíveis no mercado. Surgirão as excursões de turistas voadores que irão a todo o lado. Imagino já um futuro prenhe de besouros eléctricos…

Enfim, o melhor é regressarmos à terra. Um dia destes, ao descer a rua 19, em Espinho, fiquei intrigado com o nome 100 Manchas e os dizeres “services amenity” escarrapachados em duas carrinhas estacionadas junto um café-restaurante. Só quando me aproximei é que me apercebi dos dois homens que limpavam os vidros desse estabelecimento. Pelos vistos, o apropriado termo “serviços de limpeza” não serviu ao dono da dita empresa. Querem melhor exemplo de subdesenvolvimento? A mania dos estrangeirismos em Portugal (esta, a do século XX, pois no anterior abundou o estrangeirismo versão francesa) começou na década de noventa com “kaffés” em vez de “cafés” e quejandos, e medraria no presente século. São agora tantos os exemplos que seria fastidioso enunciá-los, embora possamos apontar como exemplo contundente da novel palermice o “tecnolês” saído da boca de Zeinal Bava.

E por falar dos Bavas deste mundo… Notória e recorrente lusa pecha, o sector da justiça. Num país onde a culpa insiste em morrer solteira não admira que abunde gente desequilibrada. Um destes fins de tarde (ainda nos dos mais magníficos pôres-de-Sol do planeta) deparei com um indivíduo com uma mochila às costas que corria no passadiço sobre as dunas e em frente ao mar gritando frases e insultos onde entravam palavras como “senhor juiz”, “gatunos”, “mafiosos” e afins. Pois é. Imagino-lhe a revolta. Certamente alguém injustiçado que em vez de se atirar para a frente do comboio na ferrovia que corre paralela à praia – e aqui permitam-me um aparte: o belo troço de areal e rochedos entre Espinho e a Granja é o único momento em que se avista o mar na linha Norte-Sul – optou por barafustar, dia após dia e com clamor, enquanto corre. Geralmente, quem fala ou grita sozinho, caminha, não corre. Mas esta parece ser uma modalidade nova e ninguém pode dizer que está livre de um dia vir a ser dela praticante.

Joaquim Magalhães de Castro

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