A experiência de leccionar no Japão

oaquim Magalhães de Castro/LUMEWORLD

Da espontaneidade e da educação

Depois do CR7, Wenceslau de Moraes é seguramente o português mais conhecido no Japão, porém, ao contrário do futebolista, só o é no meio académico e estudantil. Moraes tem um pequeno museu em Tokushima, onde morreu. Lá está o túmulo e um pequeno templo com a fotografia do escritor no altar. Em tempos falei com Jorge Cavalheiro, professor de Português com vasta experiência em terras do Sol Nascente, e disse-me que nas suas aulas sempre tivera a preocupação de falar dele e de nomes ilustres como Fernão Mendes Pinto, Luís de Almeida e outros jesuítas menos conhecidos. «Tudo o que é português eles preservam», garantia. Infelizmente, devido à inércia de Portugal há uma certa confusão cultural, com os holandeses a apropriarem-se de um legado que é nosso. E se é certo que se tomaram iniciativas através do centro cultural da embaixada em Tóquio, com o apoio do IPOR, como no caso de algumas exposições e conferências de divulgação da cultura portuguesa aquando dos 500 anos do Achamento do Brasil, acerca da vida e obra de Eça de Queiroz e de José Saramago, ou ainda sobre a arte do azulejo, etc., o certo é que, no cômpito geral, está tudo muito aquém do que seria minimamente exigido, tendo em conta os profundos laços históricos que unem Portugal e o Japão.

Cavalheiro recorda que na altura da morte da Amália houve um evento cultural com a exibição de um filme e uma conferência. «O anfiteatro estava cheio, não só com pessoas de universidade, mas sobretudo com gente de fora. É verdade que podemos fazer sempre melhor».

Viver o Japão como residente ou como turista é uma experiência completamente diferente, falo com conhecimento própria. No caso de Jorge Cavalheiro, a proximidade com os japoneses permitiu-lhe ter «uma percepção da sua cultura, da sua história, da sua mentalidade» e desse modo percebeu porque razão levam eles até ao extremo toda a estética. Seja no arranjo floral, na cerimónia do chá ou nos jardins zen. «Para se entender uma cultura, sobretudo uma cultura oriental, é fundamental vivê-la. Estar envolvido na cerimónia do chá é realmente um universo fundamental para se perceber a sociedade japonesa. Não propriamente a cerimónia em si, mas tudo o que está por detrás dela. A carga filosófica que lhe é implícita dá-nos uma percepção nítida de todo o comportamento do japonês em sociedade, na medida em que o processo da cerimónia do chá é muito lento, muito hierarquizado, de relação entre mestre e discípulo. Todos os gestos são pensados», afirma.

Na verdade, olha-se para a arte japonesa e tem-se a impressão que a própria natureza das coisas é espontânea, mas não é. É tudo estudado, preparado ao pormenor. «Não há espontaneidade, antes um processo de formação e de educação. A própria mentalidade é fruto desse processo e dessa educação», acrescenta Jorge Cavalheiro.

É apenas natural que um estrangeiro sinta dificuldades em adaptar-se a um novo país e a uma nova cultura. Não foi o caso de Jorge Cavalheiro no Japão. «Quando me confronto com uma cultura diferente mergulho nela sem medo. Vou até ao fim. Sem medo. No Japão fiz isso. Senti-me em casa. O Japão era um puzzle fundamental para o meu entendimento da cultura oriental. Foi uma experiência riquíssima que gostaria de ter continuado, mas por vontade institucional não me foi permitido, senão ainda hoje lá estaria. E provavelmente for lá ficaria. Não tinha a menor ideia de abandonar o Japão».

Wenceslau de Moraes, ao contrário de outros orientalistas, tinha a percepção de que nunca seria verdadeiramente um japonês. É evidente que um estrangeiro nunca pode ser considerado japonês. Nem o estrangeiro pode ter essa pretensão. Tem de haver um equilíbrio entre o ser-se estrangeiro e o sentir, apreciar e gostar da cultura japonesa. Cavalheiro acredita que conseguiu esse equilíbrio, pois tem uma vivência bastante grande das culturas orientais. E assim sendo, «o Japão não foi choque nenhum. O Confucionismo, o Taoísmo, o Budismo são coisas que fazem parte da minha vida há muito anos, praticamente desde a adolescência. E isso ajudou-me muito no meu processo de integração. Devo dizer, uma integração total».

Os japoneses, contrariamente ao que se afirma, aceitam os estrangeiros. Têm mesmo uma grande deferência por eles. Os estrangeiros é que muitas vezes não aceitam os japoneses e mantêm discursos negativos a seu respeito, pois quando chegam ao Japão não conseguem libertar-se da sua mentalidade ocidental. Acham que os japoneses têm de actuar de acordo com os parâmetros ocidentais. Ouçamos o que tem a dizer sobre esta matéria Jorge Cavalheiro: «Muitos professores ocidentais, inclusive, chegam ao ponto de quererem impôr os métodos de ensino praticados na Inglaterra, nos Estados Unidos ou em Portugal. Talvez seja por isso que não conseguem adaptar-se. É fundamental entender como funciona o japonês e adaptar-se a ele. Se isso acontecer, aceitam-nos com naturalidade. Nunca tive qualquer problema, fosse com estudantes, fosse com colegas. Infelizmente, pessoas são colocadas como docentes, ou mesmo como embaixadores, em culturas sobre as quais não têm a menor ideia. Vivem completamente de costas viradas para a comunidade local. Isso é desastroso. Para além de demonstrar uma enorme pobreza de espírito, pois é uma oportunidade única de conhecer o outro que se perde. A cultura é um produto humano. Ora se somos humanos, a cultura do outro também nos diz respeito. Sempre que somos inseridos num novo contexto temos a obrigação de conhecer, de nos integrarmos e de tentar perceber mesmo aquilo que nos parece contraditório ou até negativo. Há uma razão histórico-cultural que explica tudo. Quando percebemos que esse comportamento, que aos nossos olhos parece ser negativo, é resultado de todo um processo histórico-cultural, passamos a entendê-lo, a aceitá-lo e a integrá-lo no nosso dia à dia».

Joaquim Magalhães de Castro

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