A Chamada para a Grandiosidade (10)

Sobre as coisas que gostamos demais

Sobre as coisas que gostamos demais

Em 1994 a revista Time escolheu o Papa João Paulo II para “A Personalidade o Ano”. No dia em que a revista chegou aos pontos de venda, o seu porta-voz rapidamente conseguiu arranjar um exemplar e levou-o ao Papa. Assim que chegou ao gabinete de trabalho do Sumo Pontífice, entregou a revista ao Santo Padre com um sorriso de satisfação. João Paulo II olhou brevemente para a revista e colocou-a sobre a sua secretária, com a capa virada para baixo.

«– Está alguma coisa errada, Santo Padre? Não gostou disso?», perguntou-lhe, preocupado, o porta-voz.

«– Não. O problema é que gostei demais!», respondeu o Papa.

Na semana passada falámos sobre prudência. A Prudência é chamada de “auriga virtutum”, a “carroça das virtudes” (no sentido de transportar, conduzir ou regular as virtudes). A razão de ser chamada desta forma é que a Prudência controla as outras virtudes, definindo as medidas exactas que devemos seguir, porque pecamos tanto por excesso, como por defeito.

Hoje vamos falar de Temperança (do Grego σωφροσύνη, “sōphrosynē”; e do Latim “temperantia”). É a virtude que nos ajuda a dominar as coisas que nos agradam, as coisas de que gostamos, as coisas de que “gostamos demasiado”. Necessitamos desta virtude porque há o perigo de gostarmos demais das coisas que nos agradam, de não seguirmos o que seria razoável, ou deixarmos que os nossos sentidos nos controlem, tornando-nos escravos das nossas paixões, e não obedecermos à voz da Prudência. Quando isto acontece, caímos em excessos como a gula, bebedeira e promiscuidade.

O beato D. Álvaro del Portillo, ao comentar a criação dos nossos pais (bíblicos), disse que Deus proibiu Adão e Eva de comerem o fruto da «árvore do conhecimento do Bem e do Mal (Génese2:17)», não porque a árvore, em si, fosse má. De facto, sabemos que tudo o que Deus criou é bom. Mas Ele proibiu-os de comerem o seu fruto, como forma de testar a sua obediência.

O beato D. Álvaro também acrescentava que é bom para nós abstermo-nos de algumas coisas boas – a nossa própria “árvore do conhecimento do Bem e do Mal”, aquela coisa de “que gostamos demais”– para darmos maior glória a Deus. São Josemaría sugeria um pequeno exercício de temperança: comermos menos do que gostamos e mais do que não gostamos.

Além disso, quando praticamos a Temperança e oferecemos esse sacrifício a Deus estamos a mortificar-nos. A mortificação não significa apenas jejuarmos. Sempre que praticamos auto-controlo estamos a mortificar-nos.

Há outras virtudes que se encontram ligadas à Temperança. Entre elas estão: a Continência, que modera o nosso sentido do tacto; a Passividade, que modera a fúria; a Clemência, que leva a nossa autoridade a reduzir ou mesmo a cancelar castigos merecidos, até onde for razoável; Modéstia, que regula os nossos exageros nos movimentos e na apresentação; Moderação no uso das coisas materiais; e a Humildade, que modera o desejo para a auto-apreciação.

A Humildade é o fundamento de todas as outras virtudes, apenas porque é contrária ao vício, orgulho, onde se enraízam todos os pecados. Julgando por esta lista, podemos ver porque é que a Temperança é tão importante para que uma pessoa possa viver uma vida moral correcta.

Ainda há uma razão mais importante. A Temperança prepara-nos para saborearmos coisas muito superiores na vida, os bens espirituais, que duram muitíssimo mais e são mais gratificantes que os prazeres terrenos.

Os santos parecem loucos porque não prestam muita atenção aos prazeres da terra. Mas no Juízo Final verificaremos que eles foram os mais espertos, porque descobriram que a Felicidade se encontra “para além deste mundo”.

Santa Teresa de Ávila exclamou: «Oh cuán poco lo de acá, oh cuán mucho lo de allá!» – “Oh quão pouco temos aqui (na Terra), e tanto temos lá (no Paraíso)”.

De facto, temos muitas coisas para desfrutarmos na terra. Mas todas essas coisas são apenas “pequenas amostras” do que está para vir.

Desfrutamos de coisas criadas, mas nós fomos criados para desfrutar de muitas maiores alegrias.

Pe. José Mario Mandía

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