500 anos da chegada dos Portugueses a Timor

500 ANOS DA CHEGADA DOS PORTUGUESES A TIMOR

Macau e a Ilha do Sândalo.

Após a conquista de Malaca, em 1511, o caminho para as ilhas Molucas e outras áreas de produção das tão apetecidas especiarias torna-se acessível ao empreendimento português. A primeira expedição comercial rumo às Índias Orientais data de 1512 e tem como destino as Molucas, sendo pouco provável que tivesse havido uma paragem em Timor, onde havia abundância de sândalo. A chegada oficial dos portugueses a esta ilha ocorreu em 1515. Além do sândalo, o mel e a cera eram outros produtos locais bastante apetecíveis. Produtos – transaccionados por objectos em algodão e metal, facas, espadas e machados – que tinham Malaca como destino.

Pode-se dizer que o período histórico de Timor começou nessa altura. Pois só então seria introduzida a escrita naquela que era antes uma sociedade animista de tradição oral.

A ilha passou a ser regularmente visitada por navios portugueses, embora, durante várias décadas, não fosse considerada como um mercado abastecedor de Malaca. O panorama alterar-se-á após a segunda metade do século XVI, com a fundação do novo entreposto português de Macau. A China, via Macau, passou a ser o principal consumidor de madeira de sândalo. Curiosamente, todo esse trato decorreu sem que houvesse qualquer estabelecimento estável de portugueses na ilha. Ademais, a residência dos europeus em Timor foi sempre residual ao longo dos séculos e o enraizamento da presença lusitana aconteceu, não pela via do comércio mas sim pela da religião. Graças à acção dos missionários dominicanos, de onde se destaca o pioneiro frei António Taveira, que em 1556 logrou baptizar numerosos nativos. Em 1561, quatro outros dominicanos instalar-se-iam na ilha vizinha de Solor, a mando do bispo de Malaca. O processo de missionação irradiou para as ilhas vizinhas de Adonara, Flores e Savu. Contudo, a soberania portuguesa sobre todas essas ilhas – como aconteceu, de resto, em tantos outros lugares do Oriente – foi posta à prova a partir de 1595 com a chegada dos holandeses. Ameaçados em Solor, os dominicanos transferiram em 1637 o seu convento (protegida por um forte) para Larantuca, nas Flores.

Em Timor, a actividade dos religiosos levou à conversão ao cristianismo dos liurais – chefes locais – que desde o princípio se posicionaram ao lado da Coroa Portuguesa. Esta lealdade seria demonstrada, no futuro, com o sacrifício da própria vida por parte de alguns desses liurais.

Em 1646, os portugueses construíram uma fortaleza em Cupão, no extremo noroeste da ilha, mas que em 1652 acabaria por cair em mãos holandesas. Face ao novo contexto político-militar, o poder luso foi definitivamente transferido da ilha das Flores para Timor, mais propriamente para Lifau, no enclave de Oecussi, doravante a primeira capital de Timor Leste.

Os dois primeiros governadores de Solor e Timor, nomeados no final do século XVII, viram-se, por circunstâncias várias, incapacitados de desempenhar as suas funções. O terceiro, António Coelho Guerreiro, assumiu as rédeas do poder em 1702. A ele devemos as tentativas de entendimento com os holandeses, o início da organização civil, militar e judicial de Timor e, ainda, a integração dos chefes na estrutura administrativa granjeando-lhes patentes de oficiais. Os vários reinos da ilha passariam a pagar um imposto à Coroa, medida que prevaleceria até ao final do século XIX.

Durante a primeira metade do século XVIII a história de Timor foi agitada por sucessivas guerras e revoltas, em grande parte desencadeados pelos holandeses – embora fossem protestantes, moviam-nos sobretudo os interesses económicos, que naturalmente traziam implicações de natureza religiosa. Outros conflitos resultaram da falta de aptidão e uma ambição desmesurada por parte de algumas autoridades locais. Outros ainda eram motivados pelas discussões contínuas entre os governadores e os bispos de Malaca.

Timor vivia essencialmente do comércio do sândalo, quase inteiramente destinado a Macau. Após a queda de Malaca (1641) essa ilha começa cada vez mais a gravitar em torno da órbita da Cidade do Nome de Deus. No Livro de Monções da Índia estão compilados uma série de cartas que nos elucidam acerca dessa íntima relação.

Numa missiva datada de 12 de Setembro de 1672, enviada ao vice-rei da Índia, o Príncipe Regente Dom Pedro menciona “navios de André Pereira Reis indo para Macau”, mostrando satisfação com a nomeação para “do mestre de campo Manuel de Melo como Capitão Geral das ilhas de Timor e Solor”.

Num decreto de 3 de Maio de 1672 o vice-rei Luís de Mendonça Furtado e Albuquerque “nomeia António Barbosa Lobo para capitão-general da cidade de Macau” lembrando que todo o procedimento “deve ter em conta o perigo holandês” e a importância das “viagens para Manila, Timor e ilhas associadas”.

Enviada a 10 de Dezembro de 1695 uma carta do vice-rei da Índia ao rei de Portugal explica “por que razão não se devem entregar as viagens a Solor e Timor aos residentes de Macau”, e numa outra, datada de 15 de Dezembro de 1698, coloca a possibilidade de “deixar o comércio de Macau, Timor e Solor” para a Coroa Portuguesa, que assim teria exclusividade nesse trato.

Joaquim Magalhães de Castro

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