Patipat Pumpongpaet, antigo Director do Parque Histórico de Ayutthaya

Patipat Pumpongpaet

Portugal na Tailândia através de Macau.

Ociosos, festivos, especialistas em variadíssimas artes e com lugar preferencial na corte siamesa, é assim que o arqueólogo e historiador Patipat Pumpongpaet descreve os portugueses do período de Ayutthaya. A’O CLARIM, o antigo director do Parque Histórico da ancestral capital do Reino do Sião, actual Tailândia, fala sobre a experiência que teve ao supervisionar as escavações da igreja dominicana no bairro português, as rivalidades com outras potências europeias e a razão para o alheamento generalizado dos tailandeses sobre Portugal. Quanto a Macau, pode funcionar como plataforma para que os portugueses voltem a ser lembrados no País dos Sorrisos.

O CLARIMEntre 1984 e 1985 supervisionou as escavações arqueologias da igreja dominicana de “San Petro” no bairro português de Ayutthaya. O que relembra dessa experiência?

PATIPAT PUMPONGPAET – O que de mais impressionante me lembro do local é o esqueleto de um padre e a sua história. A escavação na zona coincidia bastante com os registos antigos, porque tudo podia ser apoiado pelas Crónicas Reais Siamesas e pelos documentos estrangeiros da altura. Muitos objectos descobertos – cachimbos, medalhas, cruz de ouro, ossadas, rosários, porcelana chinesa, etc. – puderam ser datados e facilmente identificados pelos arqueólogos.

CLHavia mais bairros fora dos muros da cidade de Ayutthaya, tais como o japonês, o holandês, o inglês e o francês. Tendo em conta a grande rivalidade entre muitos desses nacionais, de que forma estas comunidades lidavam umas com as outras?

P.P. – Os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegar a Ayutthaya [em 1511]. Assim sendo, tiveram a maior parcela de terra para se estabelecerem. E quando os holandeses, os ingleses e os franceses chegaram tiveram direito a terrenos mais pequenos. Durante o reinado de Narai [entre 1656 e 1688] os franceses possivelmente tentaram obter mais terrenos. Contudo, a revolução de Phetracha acabou com essa pretensão.

CLE a rivalidade entre os portugueses e os holandeses?

P.P. – Os holandeses que vieram eram maioritariamente mercadores, sendo por isso especialistas em comércio. Já os portugueses tinham um lugar especial na corte real, pois havia tradutores ou interpretes que estabeleciam a comunicação entre os europeus e a corte real. É preciso lembrar que o Português foi língua franca no Sião entre o século XVI e meados do século XIX.

CLHavia o ensino da língua portuguesa?

P.P. – Havia no bairro português, até porque se encontrou alguns fragmentos de ardósia com inscrições portuguesas que era usada como uma espécie de caderno educativo.

CLDurante o reinado de Narai, o Grande, e depois no período do rei Phetracha, houve uma mulher notável chamada Thao Thong Kip Ma, ou Maria Guiomar de Pina. Era esposa de Constantine Phaulkon, que foi conselheiro preferencial de Narai…

P.P. – Tinha ascendência em várias raças [japonesa, portuguesa e bengali]…

CLFoi também responsável pela introdução na cozinha real siamesa do “foi thong”, originalmente chamado fios de ovos em Portugal…

P.P. – Os tailandeses estão divididos sobre quem inventou o “foi thong”, porque há quem diga que é uma sobremesa tailandesa e não portuguesa.

CLComo define o legado cultural português na Tailândia?

P.P. – Parece que os siameses preferiam associar-se aos portugueses. Encontravam-se no final do dia e bebiam em conjunto, algo que os siameses não faziam com outros europeus.

CLComo sabe?

P.P. – Os holandeses escreveram sobre isso. Além de que encontrei pedaços de garrafas de vinho no local das escavações. Faziam festas. E segundo alguns registos reais também percebi que os portugueses do tempo de Ayutthaya eram bastante ociosos, pois gostavam de passar os dias a cantar e a dançar com os amigos. Contudo, o historiador Bidya Sriwattanasarn conseguiu provar que os portugueses tinham variadíssimas ocupações, visto fazerem parte da guarda real e ensinarem os soldados siameses a utilizar as armas de fogo e os canhões. Alguns portugueses chegaram a ser dos mais famosos joalheiros no mercado de Ayutthaya, enquanto outros eram os pilotos dos juncos da corte siamesa e do sector privado que navegavam na costa do Sudeste Asiático, e por aí adiante.

CLVoltando ao legado português…

P.P. – Sobre o período de Ayutthaya há uma pintura de um barco chamado “Rua Pra-too-gan”, que fazia parte do Cortejo de Barcaças Reais. Acredito verdadeiramente que o significado desta expressão é “Barco Português”, dado que nos nossos registos antigos os portugueses, ou Portugal, eram chamados Patugan, Pastugan. Protuget, Poot-ta-get, etc.

CLO que conhecem os tailandeses em geral sobre o legado português?

P.P. – Diria que muito pouco.

CLParece que os tailandeses estão cientes da existência dos Estados Unidos, da França, de Itália, da Inglaterra, da Austrália e até mesmo de Espanha, mas não de Portugal. Por que razão isto acontece se antes os portugueses até eram bastante conhecidos?

P.P. – Os portugueses tornaram-se cada vez menos poderosos, enquanto outros países, tais como a França, a Holanda e o Reino Unido, fortaleceram o seu o poder e o papel dos portugueses decaiu cada vez mais. E também não houve apoio de Portugal para fazer muito mais. Mais tarde os portugueses tornaram-se numa minoria, tal como em Malaca! E quando a Grã-Bretanha se tornou poderosa, mudámos do Português para o Inglês [como língua franca].

CLMacau pode desempenhar um importante papel como plataforma para Portugal voltar a ser conhecido na Tailândia?

P.P. – Os tailandeses conhecerão melhor os casinos do que a cultura portuguesa de Macau. Mesmo assim penso que é possível. Por exemplo, quando estava nas escavações em Ayutthaya não tive a oportunidade de observar as igrejas de qualquer outra parte do mundo. Mais tarde, a minha mulher presenteou-me com a oportunidade de visitar Macau e descobri que o planeamento das igrejas era semelhante ao que encontrei em Ayutthaya.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

em Banguecoque

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