Luís Cunha, Jornalista e Investigador

LUÍS CUNHA

«A China almeja ser a maior potência do mundo».

Com a chancela do Instituto Internacional de Macau, e resultado de um trabalho investigação para o Instituto dos Estudos Europeus de Macau, o mais recente livro do jornalista Luís Cunha, “China’s Techno-Nationalism in the Global Era”, foi apresentado no território a semana passada. A respeito do mesmo, O CLARIM conversou com o autor.

O CLARIMFale um pouco do seu mais recente livro, como é que nasceu a ideia?

LUÍS CUNHA – Vem na sequência dos outros livros que escrevi anteriormente. Tentam todos, de algum modo, dar destaque a esse aspecto, que considero significativo, e já é longo, da ascenção geopolítica da China. Curiosamente, penso que há aqui um fio condutor entre este livro e o que publiquei o ano passado, versando um episódio relativamente desconhecido, mas extremamente interessante, e que é a participação da China na Primeira Guerra Mundial. Desde essa época para cá há um fio condutor que é o nacionalismo; a tentativa da China se impor no panorama internacional. Esse nacionalismo, nos dias de hoje, surge de braço dado com a tecnologia.

CLO que é isso do tecno-nacionalismo?

L.C. – É o instrumento usado pelas potências para se afirmarem no campo da tecnologia através de processos, umas vezes mais claros, outras nem por isso. Na Ásia temos o exemplo típico do Japão, pioneiro no uso do tecno-nacionalismo, mas também a Coreia e outros. Durante a Segunda Guerra os nipónicos demonstraram bem a suprema capacidade da tecnologia ao vencer, de maneira surpreendente, a armada russa na célebre batalha de 1904-05. Terá sido a primeira vez, no século XX, que uma potência asiática demonstrou ser possível utilizar a tecnologia de inspiração ocidental para derrotar um dos grandes impérios da época, por sinal, ironia das ironias, de matriz ocidental. Isso, numa perspectiva histórica. O que me importa apurar é esta nova fase de afirmação chinesa via inovação, via ciência, via tecnologia. Porque, se nas últimas quatro décadas a China se tem afirmado, e bem, no plano da globalização, através da economia, e também no plano militar, a verdade é que pautou sempre por manifestar uma falha grande: ou seja, não teve indústrias próprias, não teve uma ciência própria, não teve uma tecnologia própria. Mas isso está mudar e radicalmente. Nos últimos anos temos assistido a uma aposta fortíssima na inovação, na tecnologia. E há programas concretos em marcha. Um deles, referente à inovação, vai até 2020, e um outro, que diz respeito à ciência e tecnologia, vai até 2050. A China será, com toda a certeza, num futuro próximo uma potência tecnológica de primeira água.

CLNão será esse tecno-nacionalismo uma forma de expansionismo?

L.C. – Depende o que se entende por expansionismo. Por natureza, é. Qualquer país que se queira afirmar tem de se expandir, tem de mostrar os seus predicados de alguma maneira. Todas as potências o fizeram, seja no plano económico, militar ou, neste caso, no plano técnico-científico.

CLA China está actualmente em todas as frentes e em todos os continentes. Prevê-se um crescimento desse predomínio de uma forma exponencial. Concorda com a afirmação?

L.C. – Com certeza. Existe uma grande estratégia com várias componentes e diferentes variáveis. Aquela que considero mais relevante, e designada já de “negócio do século”, é a reactivação da Rota da Seda. Esse mega plano chinês implica, numa primeira fase, parcerias com mais de sessenta países. E só este número diz tudo. Implica a travessia, quer por via terrestre quer por via marítima, de países que vão ficar, de algum modo, dependentes do autor da ideia. Ou seja, estamos a falar de vasos comunicantes nos dois sentidos mas cujo centro está em Pequim. É uma iniciativa que claramente acarreta interesses de outra natureza, para além da óbvia razão económica. Falo de interesses geopolíticos, geo-estratégicos. E é esse aspecto que procuro realçar no meu livro: precisamos de ultrapassar esse deslumbramento em que todos, de certa forma, caímos, quando falamos do processo de afirmação da China, que claramente se quer transformar numa nação muito forte capaz de fazer frente aos Estados Unidos. A China almeja ser a maior potência do mundo.

CLE será, algum dia?

L.C. – Isso já é difícil de vaticinar, pois as relações internacionais e a ciência política por vezes reservam-nos grandes surpresas. A pergunta é: tem ou não tem as necessárias condições para cumprir esse desiderato? Quanto a isso, não há qualquer dúvida. Efectivamente tem todas as condições.

CLO que pode minar o processo?

LC – O plano interno, as questões de âmbito interno. Embora a China seja pródiga em paradoxos, há um, em particular, que contém o germe de um potencial caos futuro no País. Estou falar não só das conhecidas dissensões internas no Partido, mas também o estarmos a assistir, nestes últimos anos, a um aumento drástico de medidas de controlo de carácter autoritário. Isso faz que internamente o País se feche mais, nomeadamente à influência do Ocidente. Paradoxalmente, ao mesmo tempo tem que lidar, e ao que parece cada vez mais, com o processo de modernização. E não só. Pois estamos a assistir a situações aparentemente estranhas, como por exemplo, o facto de a China, na opinião de alguns observadores, estar a preparar-se para liderar o processo de combate às alterações climáticas, sendo ela a maior poluidora a nível mundial.

Joaquim Magalhães de Castro

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