Henrique Manhão, Presidente da Casa de Macau USA

Henrique Manhão

«O Natal foi sempre uma festa de família».

O Natal continua a ser motivo para reunião familiar no seio da comunidade macaense. Seja em Macau ou na diáspora. Este é o entendimento de Henrique Manhão, a residir nos Estados Unidos há 35 anos. A’O CLARIM, o presidente da Casa de Macau USA fala do território hollywoodesco dos dias de hoje e da queda de Hong Kong a 25 de Dezembro de 1941 na Guerra do Pacífico, para além dos desafios que atravessa a comunidade da qual faz parte e o modo de celebrar a quadra natalícia na Califórnia.

O CLARIMEstá de regresso a Macau, certamente para visitar familiares e amigos…

HENRIQUE MANHÃO – Vou-me embora dia 12 [terça-feira passada]. Tenho cá amigos e também vim por causa da família. Aproveitei para festejar o Natal antecipado. Ainda tenho cá muitos amigos. Têm alguma consideração por mim. Mais importante: ainda se lembram de mim. Os do meu tempo, é claro! E alguma malta mais nova…

CLQue comparação faz de Macau, entre o tempo em que era funcionário do BNU e o tudo o que observou desta vez?

H.M. – Macau parece agora com um filme das mil e uma noites. Parece que estamos num mundo de fantasia. Las Vegas ainda pode competir com Macau. Não no sector do Jogo, até porque Macau lidera as receitas brutas à escala mundial e não foi afectada com a abertura de casinos em Singapura.

CLEste desenvolvimento desenfreado associado à indústria do Jogo também tem sido prejudicial para a vida da população…

H.M. – É verdade, também afectou bastante, principalmente nas rendas do imobiliário. É impossível alguém viver em Macau sem ter uma casa. A não ser que os vencimentos sejam muito bons. Graças aos portugueses, muito antes da transferência de poderes os funcionários públicos tiveram a oportunidade de poder adquirir os apartamentos onde moravam, as chamadas “casas do Estado”, por um preço muito razoável. Foi realmente uma boa decisão.

CLQue recordações tem do Macau antigo?

H.M. – Era bastante diferente. Só havia um casino, no Hotel Lisboa. Havia lá um “coffee shop” onde a malta de encontrava. Nessa altura havia muito a prática do desporto, principalmente de futebol, bolinha e hóquei em campo.

CLE como era o Natal de então?

H.M. – Muito familiar! O Natal foi sempre uma festa de família, uma tradição muito interessante e respeitada.

CLHá algum episódio que queira recordar?

H.M. – Lembro-me tão bem da queda de Hong Kong às mãos dos japoneses durante a Guerra do Pacífico, no Dia de Natal de 1941. Eu era criança, tinha cinco anos de idade, e ainda não percebia o que se estava a passar. A maioria das famílias macaenses que vivia em Hong Kong começou a regressar a Macau e perguntei ao meu pai, Henrique Manhão de seu nome: «– O que Hong Kong tem de especial?».

CLEmigrou para os Estados Unidos há 35 anos. Como é que a comunidade macaense passa o Natal na Califórnia?

H.M. – É uma comunidade muito católica. Recorda as tradições. Não falta à missa, principalmente por ocasião do Natal. Os três clubes macaenses – União Macaense Americana, Lusitano Club Califórnia e Casa de Macau USA – têm o seu dia de festa. Todavia, o Natal na Califórnia é, regra geral, muito comercial. Em Agosto começa-se a vender cartões de Natal nas lojas. Já nesta altura se começa a fazer encomendas para o Natal. É muito cedo…

CLE a geração mais nova?

H.M. – É algo diferente da geração a que pertenço. Está um pouco afastada. Já não é tão religiosa.

CLComo é que as pessoas da nova geração celebram o Natal na Califórnia?

H.M. – Gostam de sair e vão aos bares. Pelo menos na minha casa e em muitas outras ainda há a tradição de passarem o Natal em família. Estão na consoada e vão à missa.

CLO que falta à nova geração para abraçar as tradições macaenses?

H.M. – É um grande problema. Estamos a tentar contrariar essa tendência. O Conselho das Comunidades Macaenses também está a tentar. É um fenómeno que afecta a comunidade macaense, não apenas na Califórnia, mas em toda a diáspora. Por exemplo, se houvesse gente nova que se comprometesse, eu até deixava isto [presidência da Casa de Macau USA]. Mas não há aquele interesse, nem aquele amor que tínhamos por Macau. No caso da minha geração até é diferente, pois nascemos em Macau e estamos sempre ligados a esta terra pela família e, em muitos casos, por laços de sangue. Estou um pouco cansado, mas como gosto muito do associativismo continuo a dedicar-me com seriedade, tendo sempre em mente encontrar uma forma de passar o testemunho. De facto, é uma pena porque temos a sede em Fremont, na Califórnia, com dinheiro de Macau.

CLO que destaca na preservação da cultura macaenses na diáspora?

H.M. – O mais importante foi o Governo português de Rocha Vieira e Salavessa da Costa, que iniciaram os Encontros das Comunidades Macaenses. E convém não esquecer o doutor Lourenço Conceição, que está agora em Toronto. Isto foi o primeiro passo! Já depois da transferência de poderes o doutor Edmund Ho e o doutor Chui Sai On deram continuidade, assim como o doutor José Manuel de Oliveira Rodrigues.

 

Celebração natalícia em Newark (Caixa)

A Casa de Macau USA celebra amanhã, em Newark (Califórnia), a Festa de Natal, num convívio aberto a sócios e amigos da edilidade. «Vão ser três gerações que se juntam nesta festa. Vamos cantar, falar de Macau e das festas. Também não vai faltar a comida tradicional macaense. Vamos ter à mesa a feijoada, a capela, o caril de galinha e o “cake”, entre outros», disse Henrique Manhão, acrescentando que a 24 de Dezembro as famílias macaenses assinalam a festividade conforme é sua tradição ou conveniência. «No caso da minha família, vamos normalmente à missa da tarde, pelas 17 horas. Na consoada não falta o bacalhau. Antes íamos à Missa do Galo, mas deixámos de ir por causa das crianças», referiu.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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