Exposição da “Carta do Achamento” de Pêro Vaz de Caminha

António Dias Rocha

«Belmonte tem uma ligação afectiva e cultural com o Brasil».

A exposição da Carta a El-Rei Dom Manoel sobre o Achamento do Brasil, de Pêro Vaz de Caminha, já apresentada na Sala do Relógio da Torre do Tombo, em Lisboa, encontra-se patente até dia 26 de Outubro, na Sala Pedro Ávares Cabral, no Castelo de Belmonte, constituindo uma das apostas turísticas por parte da edilidade local. O Clarim foi ouvir António Dias Rocha, presidente da Câmara Municipal de Belmonte.

O CLARIMQual a razão para a escolha desta data? Tem a ver com a organização dos Jogos Olímpicos no Brasil?

António Dias Rocha – A promoção de Belmonte e da sua ligação afectiva e cultural ao Brasil é um acto contínuo, com uma agenda nossa, e em que incluímos eventos diversificados. Temos a Semana do Brasil, a Feira Medieval, exposições temáticas, colóquios, a visita regular de comitivas brasileiras provenientes de prefeituras com quem estamos geminados, nomeadamente Porto Seguro, de quem temos recebido representantes dos índios Pataxós. Temos igualmente uma excelente relação com a Embaixada do Brasil em Portugal, que muito nos facilita esta acção e que nos ofereceu um espólio importante, para termos no Solar dos Cabrais, actual biblioteca, o maior acervo de livros sobre a cultura e história do Brasil em toda a Europa.

CLO transporte de um documento tão precioso requere medidas de protecção, seguro e afins. Foi um processo difícil?

A.D.R. – Foi um processo custoso mas que se compreende. A Carta de Pêro Vaz Caminha é um documento de valor incalculável, inscrito no registo Memória do Mundo, em 29 de Julho de 2005, pelo director-geral da UNESCO, Koïchiro Matsuura. Foi preciso garantir a sua máxima segurança e preservação. Foi transportada numa mala com isolamento térmico, anti-choque, com duas camadas de um material que reduz as oscilações. É por isso que, mesmo agora, só é visitada por seis pessoas de cada vez…

CLÉ ponto aceite a atribuição da descoberta a Álvares Cabral, mas há quem defenda e hipótese de uma descoberta anterior, cabendo os louros, nesse caso, a Duarte Pacheco Pereira. De que forma a edilidade de Belmonte encara essa possibilidade?

A.D.R. – Naquele tempo vivia-se uma política de sigilo. É provável que outros tenham avistado aquelas terras e que D. João II tivesse essa informação aquando da assinatura do Tratado de Tordesilhas, não o saberemos ao certo… O que sabemos é que Cabral é uma figura relevante na história de Portugal, que combateu no Norte de África e nas Índias. Era um homem culto, a marcar o início do renascimento em Portugal. A ele se deve a oficialização das terras de Vera Cruz para a Coroa Portuguesa – é um dado histórico irrefutável e que muito nos orgulha.

CLQual a relevância para a Humanidade do Achamento do Brasil?

A.D.R. – Após a chegada ao Novo Mundo não se sabia ainda a extensão daquelas terras nem a sua riqueza. Creio que hoje podemos avaliar melhor a dimensão daquele continente, a sua importância sociocultural, a sua dimensão económica. É incontornável a posição do Brasil na história de Portugal, e mesmo após a independência houve sempre um relacionamento de proximidade, que é um exemplo para o mundo.

CLDe que forma Belmonte tira partido desse legado para dinamizar o turismo local?

A.D.R. – Dizemos com orgulho que “Em Belmonte nasceu o Brasil”. É claro que se trata de uma metáfora, mas serve para assinalar esta ligação umbilical que nos liga àquelas terras via Pedro Álvares Cabral, filho de Belmonte. Temos o Museu das Descobertas ligado à grande epopeia de Cabral e um sem número de actividades como já referi.

CLEste ano a viagem de instrução do navio-escola Sagres tem como destino o Brasil. No Rio de Janeiro funcionará como uma espécie de Casa de Portugal ao longo de todo o evento. Concorda com esta opção?

A.D.R. – Cabe-nos respeitar a decisão. Mas o navio-escola Sagres é um grande embaixador de Portugal, e tem uma carga simbólica da nossa história de conquista dos mares e da nossa política expansionista. Parece-me uma decisão acertada.

CLSabemos que a viagem de Cabral tinha como destino a Índia. De que forma a exposição aborda essa questão? Estará, de alguma forma, representado o Oriente?

A.D.R. – A Carta do Achamento tem uma importância, por si só, que merece todo o destaque. Para além da Carta, a exposição inclui um quadro do século XV da “Virgem com o Menino”, do Museu Nacional de Arte Antiga, e um outro do século XVI da “Nossa Senhora do Leite”, da Casa-Museu Medeiros e Almeida; um painel de azulejos de Sevilha, de 1508; e uma reprodução em papel de parede, de um mural de Carnovsky, representando o Novo Mundo, com a sua fauna, iluminada a várias luzes. Para ver e usufruir até Outubro.

CLQual a expressão do turismo brasileiro em Belmonte? Recebem muita gente? Qual a nacionalidade, além da portuguesa, mais presente?

A.D.R. – Todo o brasileiro sente uma emoção ao chegar à terra de Belmonte. Começa por encontrar a bandeira do Brasil no torreão do Castelo e depois há a ligação afectiva pelo facto de aqui ter nascido Cabral. Contudo, gostaríamos de ter um poder de atracção maior, pois o grande turismo do Brasil fica muito no litoral de Portugal. É preciso cativar mais ainda a sua atenção. Temos ainda muitas visitas, mas muitas mesmo, de grupos de Israel, pois Belmonte tem uma outra vertente muito rica – a sua comunidade judaica, que aqui tem permanecido durante séculos.

CLQuais as medidas tomadas para que o evento atinja um leque o mais variado possível de público? Tem tido a divulgação desejável da parte dos meios de comunicação em Portugal?

A.D.R. – Há uma campanha de promoção que inclui “out-doors”, publicidade, informação para escolas e universidades. Estamos até ao momento a ter uma boa resposta do público. Esperemos que este número siga em crescimento até finais de Outubro. É um momento único de cultura e ligação entre os dois povos, mas também um símbolo da história universal que ninguém deve perder.

Joaquim Magalhães de Castro

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