Jornal O Clarim

Semanário Católico de Macau

A culpa é das estrelas
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VATICANO E O MUNDO

A culpa é das estrelas

Dentro de alguns dias publicarei em Macau o meu terceiro livro de poesia que tem como título o mesmo desta crónica: “A culpa é das estrelas”.

A Fundação Rui Cunha acolhe o evento, na quinta-feira, dia 28, pelas 18 horas e 30. Todos são muito bem vindos!

Procurarei na altura, com a prestimosa colaboração de três amigos, recordar etapas de um percurso pessoal onde a poesia se inscreve como dimensão natural de uma personalidade multifacetada… e todos temos, sem excepção, e cada um à sua maneira, personalidades poliédricas… Porque são muitos os caminhos da vida, e todos temos de os palmilhar, desde as avenidas largas às ruelas estreitas, com atalhos imprevistos e paragens súbitas. Com estradas impedidas e recuos não programados.

A POESIA ANTECIPA DEUS

Perguntar-se-á o que tem a ver eles, o título e o livro, com o tema geral desta minha rubrica habitual d’O CLARIM(VATICANO E O MUNDO), e espero que tal conexão fique clara no final deste texto.

Mas irresistivelmente antecipo: na relação de Deus com o mundo há uma história de amor a ser narrada em permanência. E no Vaticano, como naturalmente noutros lugares da terra, há memórias e testemunhas dessa belíssima história contada desde há dois mil anos.

Deus é o grande mistério. E a poesia sempre foi para mim uma antecâmara dos universos infinitos que nunca compreendi mas intui. E neles habita Deus.

Uma ideia final, nestas primeiras frases à guisa de intróito. O caminho do homem para Deus é sempre uma jornada pessoal e única. Íntima, por definição. Como a poesia. Criatura de Deus, a poesia habita ao lado de Deus.

Mas primeiro falarei do mundo nos antípodas do da poesia, onde impera a ditadura da racionalidade… ou do seu oposto, a irracionalidade.

É um mundo da lógica e do óbvio, mundo geométrico, de figuras rígidas, de formas conhecidas, de ideias pré-concebidas, de regras fixas.

Com tal armadura mental se construíram cidades, se deram passos largos na Ciência, se aperfeiçoou a técnica, se inventaram remédios para curar e as bombas… para o que sabemos.

E sempre que o homem construiu as cidades comprovou que tinha dominado a terra, mas lhe escapava o céu. E sempre que caminhou na senda da Ciência e da técnica percebeu que eram passos balbuciantes os que dava, porque a cada pequenina lanterna que inventava para iluminar o seu caminho se sobrepunha sempre a imensidão do desconhecido.

Foi nesses momentos que o homem mais invejou os pássaros. Não só por terem asas, mas por lhes ter sido dado todo o espaço para conquistar. Aceitando a emulação, pôs-se a inventar dirigíveis, depois aviões e mais tarde naves espaciais. E sobrevoando a terra, os primeiros astronautas viram que era uma pequenina noz, perdida nas infinitas lonjuras do universo. E cobiçou o universo, sabendo que nunca poderia atingir os seus limites.

Perante a temível incógnita da sua origem e do seu fim, o ser humano fez entretanto uma descoberta decisiva no seu percurso. Pois verificou que o mesmo infinito que buscava ansiosamente fora de si, também lhe tinha sido implantado no seu íntimo.

Foi uma revelação… e foi um embaraço! Pois o desafio era duplo, o de conquistar dois espaços infindáveis, o de fora, imensamente fora, e o de dentro, profundamente dentro.

Como proceder?

E de cima lhe veio a inspiração para continuar a marcha. A culpa foi das estrelas! E começou a fixar em símbolos o que julgava entender do infinito, o de fora e o de dentro de si. Sempre olhando para as estrelas.

Sim, ao princípio era a palavra. E a palavra vestiu as ideias. E os sentimentos. E com a palavra o homem viu que não estava só. Porque a palavra é ponte. É cântico. É comunhão.

Mas tudo isto porque o homem sempre olhou para cima. Sempre perseguiu as estrelas. E a culpa é das estrelas, porque nunca se deixaram apanhar.

A pátria dos homens-pássaros? Perco-me no arrazoado das palavras, na enganadora fluidez do texto? Do que queria eu falar, afinal?

Pois queria falar da poesia e dos poetas, e do firmamento que é a pátria definitiva para onde os conduz a sua dupla natureza de homens-pássaros!

Queria falar do modo como os poetas fintam o quotidiano e suas servidões. Como reinventam o mundo e constroem mesmo mundos novos. E com as suas janelas abertas iluminam a terra inteira.

Deus é o criador dos poetas. É amigo dos poetas. Mesmo dos que o ultrajam. Dos que o desafiam. Dos que o negam. É mais um mistério a juntar ao da Sua existência, o da Sua infinita bondade. Porque se há alguém que percebe a solidão do Homem, e portanto dos poetas, e o seu grito de angústia no meio da solidão, esse alguém é Deus.

É Ele que lhes segreda as palavras que eles juntam em versos, com que moldam as suas utopias, os seus exílios interiores, as suas pátrias provisórias de provisórias libertações, e a pátria definitiva, terra enfim do Amor que nunca acaba, e em que se exprime afinal a grande aventura-de-Deus-com-os-homens.

Do Vaticano se vê o mundo? Sim, o mundo e as suas esperanças, o mundo e as suas misérias. O mundo completo que a Igreja abarca. O mesmo que os Poetas cantam, celebram, exaltam, ou assumem como peso injusto e insuportável com que vivem a sua condição humana.

UMA JORNADA MUITO PESSOAL

No meu primeiro livro de poesia, “O Chão e as Raízes”, quis pôr os pés na terra que me viu nascer e procurar nela as ligações mais profundas ao solo e ao mar.

No segundo livro, “Dos rios e suas margens”, tentei apreender as pontes que me têm ligado à vida, muito tocado, nomeadamente, pela minha singularíssima experiência de Macau.

Mas olhei sempre para as estrelas. Como guias na escuridão dos dias ou musas inspiradoras nas noites de celebração e êxtase. Pelo que posso dizer com verdade, a propósito deste meu caminhar: – A culpa é das estrelas!

Carlos Frota

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