As vozes do meu silêncio

VATICANO E O MUNDO

As vozes do meu silêncio

O sabor indescritível de uma tarde lenta, serena, ao pé do lago. Ou do mar, por cuja imensidão os meus olhos viajam. Uma suavíssima música ao longe, através das janelas entreabertas de uma casa, na orla da floresta… Um passeio pela praia, as ondas mansas a beijar-nos os pés, crianças brincando na distância, e a eternidade provisória dos montes, a fingir que estiveram aqui desde sempre. O que é afinal esse “sempre” que tão levianamente invocamos?

Uma lua cheia que faz de sol, na noite clara. Conto as estrelas mais, muito mais para além. Quantas serão? – pergunta a criança que dentro de mim teima em não se ir embora. Expulso-a em momentos de fingida racionalidade, em ruptura com os sonhos que tornam a vida possível. Expulso-a, mas ela regressa sempre.

Namorados passam enlaçados e de suas juras depende todo o universo. Suas palavras constroem futuros, suas mãos dadas confirmam pontes para as margens de todos os amanhãs que cantam.

Um romance antigo?

Mas o que estou para aqui a escrever? O início de um romance de há dois séculos? Ou estou pura e simplesmente a sonhar, numa outra época?

O silêncio já não é deste mundo… Recomeço pois o meu filme interior e chego quase à actualidade. À minha actualidade, em todo o caso. A civilização do ruído. Dos decibéis. Da intranquilidade. Do desassossego. E, no entanto, quem quiser falar com Deus terá que ter silêncio. Desde logo dentro de si…

Uma das novidades dos anos sessenta do século passado, década que culminou com o Maio de 68 em França, foi a vulgarização dos grandes espectáculos musicais, reunindo milhares e milhares de jovens, compactados num mesmo espaço, para ouvir e ver actuar os seus cantores preferidos, convertidos em heróis do momento. Os Beatles ficaram a ser, para sempre, como que o símbolo mesmo de uma nova era de emancipação da juventude.

Independentemente do juízo retrospectivo que, no plano estritamente musical, se possa fazer hoje dessa particular banda inglesa, convertida há muito em clássico do seu género, a verdade é que ao tipo de espectáculo que ela (e outras) inaugurou ficou associado o som estridente das guitarras eléctricas e o predomínio das baterias, cujas intervenções a solo (não destituídas, por vezes, de mestria) não raro dominavam inteiramente as composições.

Podendo ser injusto, com a generalização que vou fazer, para com peças musicais e criadores de indiscutível mérito, a musicalidade foi então ultrapassada pelo barulho ensurdecedor dos instrumentos musicais, abafando estes a voz humana – e toda essa carga ruidosa era deliberada e constituía a mensagem no seu todo, mensagem anti-regras, anti-convenções, anti-sistema.

Para longe ficavam a suavidade das grandes orquestras nas salas de concerto, a sonoridade inimitável do piano, o trinado do violino vergado às mãos do mestre, para não falar já do poderoso soprano ou da sua contra-parte feminina, esta de inspiração angélica, como se de voz descida do céu.

Duas galáxias…

Diferentes contextos sociais esses dois, dir-me-ão, e com razão. A música clássica nunca se desemburguesou, nunca ou raramente tirou a casaca, nunca ou quase nunca vestiu jeans. E nem se apercebeu desta última revolução, exactamente a dos jeans.

E enquanto a melodia das orquestras se fechava com pudor nos muitos Albert Hall das diversas metrópoles, guitarras, jeans e cabeleiras compridas invadiram as ruas, inaugurando a civilização dos altos decibéis. Claro que os monges nos mosteiros não alteraram as suas vozes, ao cantar as peças lindíssimas do gregoriano. Mas esse é o mundo fechado a sete chaves, cada uma delas protegendo os quase eremitas das absurdas tentações do século!

A vida é um espectáculo

Foi também na década de sessenta que entrou nas nossas vidas esse grande veículo do ruído, invasor e indiscreto: a televisão. A televisão não só recentrou a vida das famílias, para o que passou a ser o objecto exclusivo da sua atenção, como foi a grande janela, aberta em permanência, para todos os ruídos…

E a TV dos noticiários e alguns poucos programas musicais estendeu-se à TV do dia inteiro, para gáudio de reformados, em vidas de solidão, e outros rejeitados de um sistema que deita fora o que já não presta. Os tele-evangelistas americanos transformaram então o estúdio televisivo em púlpito das suas muitas igrejas. Depois a política “viu o furo” assenhoreou-se do pequeno ecrã. E transformou a TV numa permanente arena de comício. E como nos comícios se fala alto, entrou-nos pela casa dentro a gritaria das diversas convicções ideológicas.

Nunca mais nos vimos livres de tal gritaria. Hoje, como se sabe, a gritaria continua no Twitter, no Facebook, no Instagram, etc. etc… E perdido o hábito de conversar, de trocar ideias nas pachorrentas tardes de café, é por mensagens “estilo soluços” que vamos entremeando ideias e insultos, quando a ordem não é exactamente a oposta.

E o insulto é para mim, já o adivinharam, a mais deplorável forma de ruído.

Sinceramente não sei…

…o que é viver nas vizinhanças de um aeroporto internacional, com as vozes abafadas, dentro da nossa casa, em cada trinta segundos ou menos, pela descolagem, aterragem ou sobrevoo de aviões, indo ou regressando de todos os pontos do mundo.

Ou de uma fábrica que bolsa a berraria das suas máquinas, antes de bolsar o produto acabado. Ou das máquinas perfuradoras em intermináveis obras públicas que fazem pagar caro, em sossego perdido, as vantagens da obra concluída.

E estas são torturas legalizadas por conselhos de ministros, conselho municipal ou pelo voto de parlamentares, independentemente dos danos irreparáveis sobre a saúde física e psíquica das vítimas!

É a civilização do ruído. Raras pois as oportunidades para saborear uma tarde lenta, serena, ao pé do lago. Ou do mar, por cuja imensidão os meus olhos já quase viajam. A música ao longe, através das janelas entreabertas de uma casa de adolescente, talvez só a da bateria altíssimo da música mais radical…

Mas o que estou para aqui a escrever? Estou a recriar o início do meu texto, por ausência súbita de imaginação, mas agora com o pessimismo decadente de quem entrou no ocaso da vida?

Não, estou a regressar por instantes, uma vez mais, ao sonho original de uma civilização onde o respeito pela vida também passa pelo respeito do silêncio. O silêncio nosso e dos outros.

E a linguagem de Deus?

Deus fala-nos no silêncio do nosso ser mais íntimo. Daí temas como “Silêncio e espiritualidade” serem tão comuns, em qualquer encontro para reflexão sobre o modo de se viver a Fé entre cristãos. E sentimos o apelo a estar em silêncio perante Deus quando admiramos as maravilhas da sua obra que é toda a Criação.

Qual a nossa reacção natural quando, de súbito, vemos uma paisagem surpreendentemente bela? Não é olhar em silêncio, para absorver com os olhos o que, num primeiro momento pelo menos, não tem expressão através de palavras?

O silêncio como pão da alma, apetece-me dizer. O silêncio que permite que venham à superfície todas aquelas emoções boas de adesão à vida e de reconciliação connosco e com os outros.

Deus escolhe sempre, mas sempre, falar no silêncio – repito para mim mesmo. Por isso preparo-me e escuto.

Carlos Frota

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