Rota dos 500 Anos-Vamos sair da água

Vamos sair da água

Em pouco mais de meio dia fomos capazes de gastar o equivalente a seis meses de alimentos e combustível para o nosso veleiro. São os custos de preparar um barco para fazer face a mais alguns anos sem sair da água.

Temos agendado para o início de Agosto a entrada do Dee na doca seca para serem realizados trabalhos no casco e efectuadas verificações de todo o tipo, agora que se aproxima a travessia do Pacífico. Serão dez dias, na melhor das hipóteses, a trabalhar debaixo de um Sol abrasador, com químicos que não fazem nada bem à saúde – tarefas que deviam ser feitas por outras pessoas, mas como o orçamento é curto serei eu a fazê-lo. Irei meter mãos à obra, protegido da cabeça aos pés.

Passámos uma manhã a comprar materiais nas lojas de náutica aqui em Grenada: tintas, pincéis, lixas, rolos de pintura, tabuleiros, etc. No final quase não havia dinheiro na conta bancária. Felizmente temos o barco cheio de comida e bebida. Com certeza, não passaremos fome.

Os materiais serão enviados, pelos próprios estabelecimentos, para a marina em Carriacou. Quando lá chegarmos, no dia 1 ou 2 de Agosto, deveremos já ter tudo à nossa espera para começar o trabalho no dia 4. A decisão de comprar em Grenada deve-se ao facto da escolha ser muito reduzida em Carriacou, pelo que teríamos sempre de vir a Grenada.

Se tudo correr conforme o planeado, primeiro o casco será limpo com uma lavagem a alta pressão, e seco apoiado em escoras de metal. No dia seguinte é retirada a pintura existente e lixada toda a superfície do casco. Como temos um pequeno problema de osmosis na popa do barco (duas ou três bolhas que se conseguem identificar quando limpamos o casco na água), irei proceder à abertura das bolhas e à limpeza do seu interior, para que também possam secar antes de aplicar o preenchimento em epoxy. Quando tudo estiver devidamente seco e lixado será aplicada a pintura de barreira à prova de água, que deverá demorar um a dois dias a secar, ficando pronta para receber duas camadas de pintura antifouling, que irão proteger o casco nos próximos dois anos contra cracas e outras pestes que gostam de se alojar nos cascos. Após esta operação o veleiro estará pronto para voltar à água, dando-nos guarida e protecção.

Durante o tempo que o Dee estiver na doca seca será retirado o leme para verificar e substituir as partes metálicas danificadas, e um mecânico da marina fará uma pequena revisão ao motor para que possamos andar mais descansados. Não que o motor tenha dado muitos problemas, mas nunca é demais prevenir.

Uma vez que teremos energia eléctrica todo o dia, iremos aproveitar para deixar os carregadores de bateria a funcionar de dia e de noite para que fiquem cheias o mais possível. Ainda a nível técnico, parece que finalmente resolvi o problema do leme de vento. O dito equipamento – comprado aquando da aquisição do veleiro em 2013 – foi instalado antes de sairmos da República Dominicana, mas nunca tinha sido usado na perfeição. Várias peças partiram e havia problemas de instalação e de afinamento, entre muitos outros detalhes. O maior desafio era controlar o ângulo do vento sem termos que sair do poço, o que ficou resolvido com apenas alguns metros de cabo e umas pequenas roldanas. Agora podemos mudar o ângulo para estibordo ou bombordo sentados ao leme, puxando apenas dois pequenos cabos instalados na parte traseira do assento. Vamos testar o novo sistema no regresso a Carriacou. Esperamos que funcione porque será uma grande ajuda na travessia do Pacífico, pois não teremos de usar o piloto automático e poupamos as baterias.

No final da manhã de compras e depois de muito debatermos os prós e os contras das últimas semanas, decidimos encomendar um bote rígido, da marca Walker Bay, com oito pés de comprimento – os botes insufláveis só nos têm dado problemas. Para já adquirimos apenas o bote; mais tarde planeamos comprar o kit de vela, podendo ser utilizado como escola para a nossa filhota. Será também uma forma diferente de desfrutar as tardes, ziguezagueando pelas águas dos ancoradouros por onde vamos passando.

A finalizar, resta dizer que tem estado bastante calor, há Sol e pouca chuva, o que não é comum, pois, regra geral, em Grenada chove duas a três vezes por dia. O calor é uma constante – não estivéssemos nós nas Caraíbas – mas esta semana tem-se feito sentir mais intensamente, pelo que tivemos de encontrar formas para atenuar os seus efeitos. Estando nós rodeados de água cristalina, o mais lógico é saltar para a água e nadar até que a temperatura desça.

Os nossos amigos brasileiros têm-nos vindo visitar quase todos os dias, aumentando consideravelmente o grupo de “patos” na água. É um prazer ver as crianças a saltarem do barco para a água e a brincarem com a canoa ou com os tubos de “esparguete”. A Maria, com apenas dois anos e meio, já salta do barco para a água sem qualquer problema.

João Santos Gomes

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