A Encíclica Verde de Francisco

Urgente desafio de proteger a nossa casa comum

A Encíclica Verde de Francisco

«Louvado sejas, ó meu Senhor, com todas as tuas criaturas». «Louvado sejas, ó meu Senhor, pela nossa irmã a mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz variados frutos, com flores coloridas, e verduras». Assim Francisco, o Santo de Assis, louvava o Senhor e a Criação, as criaturas, em 1224.

A 18 de Junho de 2015, outro Francisco, um Papa, lançava um texto, em forma de encíclica (em seis línguas), em louvor da Criação. Chama-se “Laudato Si” (“Louvado Sejas”). É a primeira encíclica integralmente concebida pelo Papa Francisco. A sua segunda, pois a primeira foi a “Lumen fidei”, em 2013, em boa parte ainda elaborada por Bento XVI. Agora não: a Encíclica Verde é toda ela de Francisco.

Antes de tudo mais, vale porque é o primeiro grande texto papal focado sobre Ecologia, Natureza. E logo uma encíclica. A coragem e o objectivo de a escrever e publicar valem por si, já são um expoente desta encíclica. Esta, todavia, vale por muito mais. Mas sejamos justos. Recordemos que também João Paulo II e Bento XVI abordaram o tema, embora não desta forma ou por este meio: uma encíclica.

Por exemplo, no início da década de 1990, João Paulo II não se cansou de alertar para a degradação da camada do ozono, entre outros inúmeros alertas. Bento XVI até foi apelidado de “Papa verde”, pelo seu papel de avivar consciências para as alterações climáticas e os seus constantes apelos à sustentabilidade do desenvolvimento humano. Em “Pensamentos sobre o Ambiente”, publicado em 2013, Bento XVI defendeu, em suma, o «direito de todos os seres humanos à alimentação e aos recursos naturais».

Contudo, “Laudato Si” vai mais longe, em focagem, objecto, especificidade e praxis. Em tese, ou em síntese, é consagrada ao ambiente, às alterações climáticas do planeta, mas abordando a Terra como «uma casa comum». O texto não é mais um manifesto científico ou dramático sobre o ambiente. É um texto preocupado com o Homem e a sua relação com a Natureza. Um apelo ao desenvolvimento sustentado. Mas a tónica especial é a equação da pobreza. A libertação da Pobreza pelo Homem, na Natureza. Tudo escrito num rigor científico assinalável, tal como tem sido sublinhado pela comunidade científica. Planeamento urbano, economia agrícola e biodiversidade, desenvolvimento, combate à pobreza, vários são os tópicos desenvolvidos por Francisco, que não deixa também de criticar o desenvolvimento irresponsável e selvagem, desumano, apelando «à mudança e à unificação global das acções para combater a degradação ambiental e as alterações climáticas». Trata-se de um texto notável, no ano da Conferência do Clima, que terá lugar em Novembro próximo, em Paris, num encontro internacional que trabalhará sobre as por demais apregoadas alterações climáticas e a análise do fracasso do designado “Protocolo de Quioto”. Deus criou o Mundo e os Homens: a Igreja tem que estar atenta e interventiva, fazer ouvir a sua posição. Neste caso, fá-lo de forma clara e rigorosa.

Mas ecologia hoje não é apenas natureza de forma estrita. É o lugar e acção do Homem e das criaturas no meio, no mundo. É responsabilidade, é uma ética ecológica, sustentada e consciente. O Papa neste sentido, como notaram os serviços de Imprensa do Vaticano, endereça, na encíclica, duras críticas ao «capitalismo selvagem» e às empresas multinacionais. Designa-as até de «predadoras» do planeta, acusa-as de enriquecem «à custa do aumento do fosso entre ricos e pobres». Recorda, de forma veemente, as «injustiças» na distribuição de recursos, a fome, o desperdício de alimentos, a exploração de recursos naturais (em África, por exemplo), o aquecimento global, a desflorestação ou a poluição. Sacode consciências, também Governos – apela a estes para que se lembre da Natureza e do Homem – dando um grito de alerta para a «degradação ambiental e a recuperação dos territórios». Com o Homem sempre em destaque.

Mas porque a natureza “não perdoa”, o Papa Francisco não se cansa de apelar a este tema, parafraseando o que um velho agricultor lhe dissera um dia: «Deus perdoa sempre e os homens às vezes, mas a natureza nunca perdoa». A Terra, relembra Francisco, de forma original, «não é um legado dos nossos pais, mas um empréstimo dos nossos filhos». Responsabilidade, ética, consciência. Além disso, defende, como os seus preclaros antecessores, que a «crise não é apenas económica, mas sobretudo ética»: a vida humana, defende o Papa, deixou de ser o centro das sociedades, dando lugar ao dinheiro. E essa crise estende-se também à relação com a natureza, numa «sociedade que tende, cada vez mais, a descartar bens que ainda podem ser utilizados e entregues a quem passa necessidades». Daí referirmos que esta encíclica vai para lá da ecologia restrita, o que já em si seria excelente: mas notabiliza-se pela sua relação com o Homem e deste com a Natureza.

Esta encíclica ecuménica, apresentada pelo Papa e pelo cardeal D. Peter Turkson, presidente do Conselho Pontifício Justiça e Paz, que ajudou o Papa na construção do texto, contou também com o apoio de um leigo, o cientista John Schellnhuber, fundador e director do Instituto Potsdam, que investiga o impacto das alterações climáticas. Sabe-se já também que Francisco irá falar sobre a encíclica numa cimeira especial da Assembleia Geral da ONU, a 25 de Setembro, quando visitar os Estados Unidos. Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas, num encontro sobre alterações climáticas organizado pela Santa Sé e pelas Nações Unidas (inícios de Junho passado), anunciou mesmo que Francisco será o primeiro Papa a discursar num encontro do género. Depois, será a Conferência do Clima 2015, em Novembro, Paris. Até Dezembro de 2015 prevê-se, com optimismo, que haja novo acordo climático global pós-2020, centrado na redução de emissões para limitar o aumento médio da temperatura em dois graus.

«Com que finalidade passamos por este mundo? Para que viemos a esta vida? Para que trabalhamos e lutamos? Que necessidade tem de nós esta Terra?», interroga-se Francisco. Que atira, visionário: «Que tipo de mundo queremos deixar a quem vai suceder-nos, às crianças que estão a crescer?». O ambiente não pode ser aí visto apenas de forma isolada, fragmentária, mas tendo em conta a sua orientação geral, o seu sentido e os seus valores. Numa encíclica dirigida a todos, não apenas aos católicos, a todos que habitam «a casa comum que Deus nos confiou» e que temos que cuidar. A natureza, com os seus danos, são um indicador, entre outros, da crise ética, cultural e espiritual da modernidade, pelo que se exigem sacrifícios nas soluções, uma «audaz revolução cultural», proclama Francisco.

Em 190 páginas, cinco grandes linhas de força, em resumo, exalam desta encíclica: o aquecimento global é real e consensual; é resultado principalmente da actividade humana; os países ricos têm uma “dívida ecológica” para com os países pobres; urge criar instituições internacionais fortes e credíveis para protecção ambiental; é preciso pressionar os líderes políticos e valorizar o sacrifício individual. Porque a Natureza não perdoa!

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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