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UNICEF – FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA
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UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância

Mandato para salvar dois mil milhões de crianças.

Há 71 anos que a UNICEF protege e acode as crianças em perigo. Este trabalho continua a fazer sentido? Fomos conhecer melhor os números e falámos com um português que trabalha na organização e já esteve em mais de setenta países a salvar a vida de crianças.

A UNICEF foi criada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 1946 para apoiar as crianças europeias depois da II Guerra Mundial. Hoje, é um organismo permanente da ONU e actua em mais de 190 países, onde chega através de sete mil trabalhadores. As crianças estão em risco em muitos países do mundo, seja por conflitos, desastres naturais ou perseguições. Só na Síria, cerca de seis milhões de crianças precisam de assistência.

Nuno Crisóstomo é português e trabalha na UNICEF. Na manhã de 11 de Setembro de 2001 estava em Nova Iorque para uma entrevista de emprego no World Trade Center. Quando se preparava, soube que um avião tinha atingido uma das Torres Gémeas. A entrevista não se realizou nesse dia nem nessa empresa. No final do mês, começava a trabalhar na UNICEF, no «ano em que o mundo mudou». «Eu comecei no final de Setembro no centro de operações de emergência dedicado a respostas de emergência para o mundo da UNICEF, 193 países e territórios. Cobre o mundo inteiro». Um trabalho exigente, a cuidar de cerca de dois mil milhões de crianças. «Estive dezasseis anos nesse centro de operações, em Nova Iorque, em que, pelo facto de trabalhar 24 horas por dia, estive em contacto com todo o mundo da UNICEF», conta, numa conversa telefónica.

Em todo o mundo, segundo dados da UNICEF, cerca de 124 milhões de crianças e adolescentes não vão à escola e dois em cada cinco abandonam a escola primária sem aprender a ler, escrever ou fazer contas. Quase 250 milhões de crianças vivem em países e áreas afectados por conflitos armados e milhões sofrem por desastres naturais. A organização diz que, se nada for feito, até 2030, 69 milhões de crianças morrerão antes dos cinco anos, a maioria em países pobres.

Nuno já esteve em mais de setenta países e, por isso, conhece bem a realidade mundial. Começa por lembrar que «o mandato da UNICEF compreende o pré-natal até aos dezoito anos». Alguns problemas mantêm-se desde a fundação: «a saúde, a vacinação, a educação». Este especialista salienta que a demografia é que mudou. «Estamos com sete mil milhões de pessoas no planeta, dos quais dois mil milhões encaixam-se nesta definição de criança. É um problema demográfico. Há mais crianças no mundo do que nunca, o que é bom sinal, é sinal de que as crianças sobrevivem, continuam a desenvolver-se, e há avanços da medicina e dos direitos da criança…», afirma. Outra coisa que mudou foram os desafios a enfrentar. «Neste século XXI, tivemos três pandemias: em Maio de 2009, a gripe suína, que se iniciou no México, seguida pela febre hemorrágica ébola, em 2014, principalmente na África Ocidental. E depois a pandemia do zica, no final de 2015, que atingiu muito o Brasil com consequências graves para as crianças, como a microcefalia que não tem cura». As pandemias afectam especialmente as crianças e não escolhem fronteiras. Daí serem tão devastadoras.

O vírus ébola voltou a “atacar” este ano na República Democrática do Congo. «Tivemos meia dúzia de casos em Bas-Uélé, no distrito sanitário de Litaki, no Norte do País. Conseguiu controlar-se». O País enfrenta muitos problemas, tendo conflitos armados em algumas regiões que provocam milhares de deslocados. Este foi o destino de Nuno Crisóstomo no Verão. Trocou Nova Iorque por Kinshasa. «Desde Agosto que estou no Congo. Em vez dos 193 países que tinha quando estava na sede, neste momento só tenho um. Grande, muito complexo, com noventa milhões de pessoas. Aqui continuo a trabalhar ao nível das emergências, mas a nível nacional».

A República Democrática do Congo tem mais de dois milhões de quilómetros quadrados, e se tem havido grandes avanços na área da saúde que permitiram que o ébola deste ano se ficasse apenas por seis casos, há outras regiões com problemas muito graves. «Este é um país muito fértil, em que praticamente não há fome. Há é má nutrição em resultado de situações extremas», conta. Recentemente esteve no Noroeste do País, onde viu isso pessoalmente: «Foi o que vi: bebés órfãos de ambos os pais e que foram recolhidos pela Igreja Católica, pelas freiras e pelos farmacêuticos que trabalham nos hospitais distritais».

No Leste do País, o problema é a luta armada, com conflitos diários. A directora regional da UNICEF para a África Ocidental e Central, Marie-Pierre Poirier, deu conta, em Agosto, de «terríveis actos de abuso». «Muitas crianças foram recrutadas por forças armadas, drogadas e atingidas pela violência», afirmou. Pelo menos duas mil crianças terão sido recrutadas pela milícia. A UNICEF e as autoridades conseguiram resgatar 384 menores. Nuno Crisóstomo afirma que «continua a haver recrutamento de crianças por parte desses grupos armados». Mas já reconhece um avanço em relação ao passado: «O exército do Congo, pelo segundo ano consecutivo, tem certificação internacional em como não está a recrutar crianças».

Com um país tão grande, os desafios são muito diversificados. Em classes sociais com acesso à Internet surgem os perigos das novas tecnologias. Noutras regiões, como na central, é preciso actuar porque «o conflito étnico fechou escolas, estragou culturas». O conflito na região do Grande Kasai já vitimou mais de três mil pessoas. Em causa estão confrontos entre o exército e as forças rebeldes. A UNICEF dá conta de mais de 1,4 milhões de pessoas, entre as quais 850 mil crianças, deslocadas por causa disso. A má nutrição é resultado também dessa deslocação e de a população, maioritariamente dependente da agricultura, não poder cultivar. Nuno prevê que a situação possa melhorar no início de 2018, com o regresso às terras e às sementeiras.

A República Democrática do Congo é um país de maioria católica. Daí que um dos grandes parceiros seja a Cáritas. «É uma das maiores Cáritas do mundo católico, comparável à do Brasil. Acabei de fazer mil quilómetros por estrada, nas províncias da região do norte-oeste, que toca com a República Centro-Africana e a República do Congo-Brazzaville. Este é um dos maiores países católicos do mundo, juntamente com o Brasil e com as Filipinas. De maneira que nota-se perfeitamente esses números quando se trabalha com parceiros como a Cáritas».

A UNICEF defende os direitos da criança, direitos universais: valem o mesmo em todo o lado e para todas as crianças. Nuno Crisóstomo afirma que, «de um modo geral, a criança é respeitada em todo o lado, qualquer pai, qualquer mãe, tenta proteger as suas crianças». Os problemas surgem, diz, quando «a família não está presente ou porque está deslocada ou está refugiada, ou porque foi morta por crime, conflito ou causas naturais».

Nestes dezasseis anos de trabalho na UNICEF, passando por tantos países e com experiências tão diferentes, Nuno não hesita em dizer o que o tem marcado mais: «Tem sido as condições extremas em que, às vezes, os colegas têm de trabalhar, por vezes com o risco da própria vida. Às vezes, perdem a própria vida para tentarem chegar às crianças necessitadas». Este ano morreram dois colaboradores das Nações Unidas no Congo. Do ponto de vista positivo, salienta «literalmente os dois mil milhões de crianças que ajudamos a salvar. Se não se fizer nada, o risco é de as perdermos. São dois mil milhões de crianças que temos tido a oportunidade de manter vivas, de serem educadas e de se tornarem adultos válidos para a sociedade». Pessoalmente, o balanço de Nuno é muito positivo. «É muito, gratificante. Eu tenho duas filhas. Quando estava em Nova Iorque, eu dizia que tinha no escritório dois mil milhões de crianças e em casa duas. De maneira que isso é muito gratificante».

CLÁUDIA SEBASTIÃO 

Família Cristã

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