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O que é o Método Histórico-Crítico?
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Teologia, Uma dentada de cada vez (22)

O que é o Método Histórico-Crítico?

A 30 de Setembro de 1943, o Papa Pio XII publicou a encíclica “Divino Afflante Spiritu” (“Inspirado pelo Espírito Santo”), a qual aceita o uso da crítica textual para examinar não apenas os conteúdos da Bíblia, mas também a autoria, a sua cronologia e outros detalhes técnicos de cada um dos livros sagrados.

A 18 de Novembro de 1965, o Papa São Paulo VI promulga a constituição dogmática da Divina Revelação – “Dei Verbum” (“A Palavra de Deus”). Este documento confirma a necessidade do uso do Método Histórico-Crítico. E porquê? Porque quando Jesus Cristo se tornou homem (encarnou), Ele passou a fazer parte da História da Humanidade. Como disse o Papa Bento XVI, «a História da Salvação não é um mito, mas sim uma história real, e por isso deve ser estudada conjuntamente com métodos sérios de pesquisa histórica» (discurso aos Bispos, a 14 de Outubro de 2008).

Conforme vimos anteriormente, em TEOLOGIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ (nº 20), o Catecismo da Igreja Católica já reiterava a importância do Método Histórico-Crítico.

“A Palavra de Deus”, no entanto, veio enfatizar que a interpretação histórico-crítica não é suficiente. De novo, em TEOLOGIA, UMA DENTADA DE CADA VEZ (nº 20), já havíamos visto como o Catecismo da Igreja Católica também nos relembra este ponto: “A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada à luz do mesmo Espírito com que foi escrita (‘Dei Verbum’, 12)”. Por conseguinte isto explica a forma tripartida da interpretação correcta da Bíblia, igualmente referida no Catecismo da Igreja Católica.

O primeiro destes critérios – ter em conta a unidade da Escritura (a Bíblia não se contradiz a si mesma) – é denominado de “exegese canónica”. O Papa Bento XVI salientou em “Jesus de Nazaré. Do Baptismo à Transfiguração”, que a exegese canónica foi desenvolvida por estudiosos americanos, para lerem textos isolados, no seio do conjunto da Escritura, a qual por si lança uma nova luz sobre todos os textos isolados. Este método surge da Fé, e não da Ciência Humana. Podemos chamar a isto de “método teológico”, sendo importante que seja usado em conjunto com o Método Histórico-Crítico.

O Papa Bento XVI afirmou no mesmo discurso aos bispos que «apenas quando dois níveis metodológicos, o histórico-crítico e o teológico, são observados, é que alguém pode falar de exegese teológica; de uma exegese adequada a este Livro [Bíblia]».

E qual é o presente estado da exegese bíblica? O Papa Bento XVI explicou também na ocasião: «Enquanto que no primeiro nível o trabalho exegético académico está a ser feito num padrão extremamente elevado e proporciona-nos apoio real, o mesmo não se pode dizer do outro nível. Muitas vezes, este segundo nível, que consiste nos três elementos teológicos mencionados em “Dei Verbum”, parece estar quase ausente. E isto tem consequências bastante graves». E continuou: «A primeira consequência da ausência deste segundo nível metodológico é que a Bíblia se transforma num simples livro de histórias. Consequências morais podem ser retiradas desse facto. A história pode ser por ele aprendida, mas um livro como este fala apenas de factos históricos e a exegese deixa de ser realmente teológica – antes se transforma num livro puramente historiográfico, literalmente histórico. Esta é a primeira consequência. A Bíblia fica no passado; fala-nos apenas do passado».

A segunda consequência é ainda mais grave. Onde os hermenêuticos da fé no “Dei Verbum” desaparecem, surge outro tipo de hermeneuta, por necessidade secularista ou positivista. Estes estão convictos que o Divino não aparece na História da Humanidade. De acordo com estes hermeneutas, quando parece existir um elemento divino, a origem dessa “impressão” deve ser explicada, reduzindo assim tudo ao elemento humano. O resultado é haver espaço para interpretações que neguem a verdade histórica dos elementos divinos. Hoje em dia a tendência principal, na Alemanha, por exemplo, é negar que o Senhor tenha instituído a Sagrada Eucaristia, e afirma que o Corpo de Cristo continua na sepultura. A Ressurreição, neste ponto de vista, não foi um acontecimento histórico, mas apenas uma visão teológica. Isto acontece porque os hermeneutas da fé estão em queda. Por outro lado, os hermeneutas filosóficos profanos afirmam-se, o que reduz a possibilidade da entrada e da presença do Divino na História.

Pe. José Mario Mandía

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