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Paz Suprema
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Rota dos 500 Anos

No céu estrelado encontro a Paz Suprema

Quando me perguntam por que escrevo, nunca sei bem o que responder. Por vezes, penso que escrevo porque foi esse o caminho que escolhi a nível profissional. Daí ter estudado jornalismo. E tal leva-me a pensar que escrevo porque é o meu trabalho. Assim foi durante alguns anos, mas agora – pensando melhor – concluo que a razão é outra. Talvez escreva, não por obrigação ou trabalho, mas porque simplesmente preciso de escrever para que os meus leitores fiquem a saber, pelas minhas palavras, aquilo que estou a viver.

Esta ideia, de vos transmitir emoções, não me sai da cabeça durante a passagem nocturna entre Long Island e Cat Island, nas Bahamas. Está a ser das viagens mais calmas realizadas até hoje [espero não me arrepender destas palavras, visto que esta crónica está a ser escrita a meio do trajecto e a altas horas da noite]. Velejamos a uma velocidade constante de apenas dois nós, rumo ao destino que ainda está a mais de trinta milhas. O mar nem se sente; com o brilho do luar parece um lago eterno, bordejado de pequenas luzes na periferia de Long Island. Mas o que realmente me cativa é olhar para cima, para o céu, onde encontro a paz suprema.

É difícil tentar explicar-vos o que se vê. São milhões e milhões de pontinhos brilhantes num fundo negro. Hoje, particularmente, com uma lua que surgiu à meia-noite alaranjada, emprestando um tom ainda mais místico a toda esta paisagem nocturna. Se me conseguisse abstrair da NaE e da Maria, que dormem o sono dos justos – há muito merecido –, facilmente conseguiria entrar em transe, ouvindo apenas os barulhos das adriças a esticar e a encolher com os pequenos sopros de vento, que gentilmente vão esticando as velas e empurrando o Dee para o destino. O murmurar das ondas, tão baixinho que quase não se ouve, e ocasionalmente o barulho das madeiras vindo do interior do veleiro, num ranger que acompanha o movimento do casco de fibra, são os únicos ruídos que me mantêm acordado e lúcido.

É certo que desta vez não vos escrevo a falar de locais ou de gentes. Escrevo a falar daquilo que estou a viver neste momento e que sinto necessidade de convosco partilhar.

Desde a nossa saída de Aruba que velejamos quase de forma tradicional, apenas recorrendo a ajuda electrónica de navegação. O piloto automático há muito que não trabalha (estava a consumir bateria a mais), pelo que temos de estar sempre ao leme. Tal obriga a um esforço extra, especialmente em dias de mais vento ou de mau tempo. Nos restantes dias e noites quase não é preciso tocar no leme. Com as velas balanceadas, o Dee desliza no mar chão.

Estamos em direcção à costa da Flórida, nos Estados Unidos. Já percorremos quase meio caminho. Em breve deveremos chegar ao destino. Se demorar mais do que o previsto, também não há qualquer problema. Segundo a nossa filosofia de vida, a viagem é para desfrutar, sem pressa de a concluir.

A foto de hoje em nada transcreve ou se relaciona com o que estou a viver neste momento. Por isso, peço-vos que pensem numa noite estrelada, numa qualquer aldeia ou vila de Portugal, e com os olhos fechados imaginem o leve murmúrio do mar e o suave sabor a maresia nos lábios.

A nossa viagem, que muitos acompanham desde Janeiro de 2014, já teve muitos altos e baixos, muitas alterações de rotas e de objectivos. Aliás, esta viagem, assim como a nossa vida, vai-se adaptando ao que nos vai surgindo na frente.

Se inicialmente planeámos uma volta ao mundo, com a língua portuguesa e Macau na bagagem, acontecimentos houve que nos levaram a colocar o plano inicial de parte. Hoje, na essência, a iniciativa continua a ser a mesma, apenas muda a forma de chegarmos ao destino.

Até ao momento o acontecimento mais marcante foi o problema de saúde da NaE, que em 2016 nos obrigou a repensar a viagem e a nossa vida. Se inicialmente nos abalou e nos fez pensar em desistir de tudo, depois de enfrentarmos o problema com os pés no chão surgimos ainda com mais certezas de que a nossa viagem é para continuar. Se não podemos dar a volta do mundo – pelo menos por agora – por todas as condicionantes já aqui referidas noutras crónicas, iremos até outras paragens sempre com o objectivo de levar a nossa cultura aos mais variados locais. E, claro está, sempre com o intuito de encontrar raízes lusas e laços a Macau e à Igreja Católica.

De facto, tem sido uma viagem e tanto. E muito mais está para acontecer. Temos ainda muitas milhas náuticas pela frente, em busca de histórias para vos relatar.

Gostaria de ter mais noites como esta para vos tentar explicar o que se sente quando se está rodeado de água, no meio do nada, sem uma alma a milhares de milhas da terra. Sob um céu estrelado, mas tão estrelado, que quase não se consegue distinguir onde começa e acaba o mar.

João Santos Gomes

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