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ROTA DOS 500 ANOS

Colombo Português nas Bahamas

E se Cristóvão Colombo tivesse trabalhado como agente duplo ao serviço do Rei de Portugal? E se a sua chegada às Américas não tivesse sido no local onde todos aprendemos e ainda hoje ensinam nos manuais escolares?

São estas e outras certezas que Walter Gameiro tem e fundamenta em diversas dissertações com base em dezenas de anos de pesquisa e recolha de elementos. Um passatempo que tem, agora que está reformado, passando os dias com a esposa, Fátima, no seu catamaram, entre a costa da América, as Bahamas e as Caraíbas.

Tivemos o prazer de com eles privar em Eleuthera, mais concretamente em Spanish Wells, onde acredita que – realmente – o almirante Colombo tenha chegado. De acordo com as suas pesquisas, a primeira ilha foi a dos ovos (Egg Island, em Inglês), tendo depois aportado em Spanish Wells para abastecer de água (o único local onde há água potável num raio de centenas de milhas náuticas). Daí o nome que ainda hoje identifica a ilha, “Poços Espanhóis”, que fora dado mais tarde por um outro navegador espanhol.

Segundo a versão ensinada, Cristóvão Colombo (Cristóvão Colon)pisou terra, pela primeira vez nas Américas, na ilha de São Salvador (há quem defenda que foi em La Isabella, na ilha de Hispanhola, mal tal terá isso mais tarde quando exploravam as ilhas nesta área, a acreditar em diversas fontes actuais). O engenheiro Walter Gameiro desconfia desta versão, recorrendo a dados recolhidos e posteriormente confrontados com o diário de bordo do próprio Cristóvão, em que este diz que os seus homens, em barcos a remos, deram a volta à ilha em oito horas. Ora, mesmo com a tecnologia actual, é um feito completamente impossível de realizar, uma vez que a ilha de São Salvador tem uma dimensão que não permite a sua circum-navegação a remos em apenas oito horas. Já a Egg Island permite-o, por ser mais pequena.

Outro dos dados que fundamentam a sua teoria é que em São Salvador não há água potável (pelo menos em quantidade suficiente para em 24 horas encher os barcos, como afirma o almirante no seu diário de bordo), logo os barcos espanhóis nunca teriam tido a oportunidade de se abastecerem de água nesta ilha em pouco mais de 24 horas. E era um bem que muito precisavam, depois de concluída a atribulada travessia do Atlântico Norte. E, daí em diante, especialmente com Ponce de León (almirante espanhol que descobriu a Flórida), Spanish Wells (nome dado por este almirante à localidade da ilha de Eleuthera) passou a paragem obrigatória para o abastecimento de água potável.Neste âmbito, Walter Gameiro referiu que Eleuthera e Spanish Wells estão bem distantes de São Salvador e a vários dias de barco à vela.

Esta tese, que o investigador português defende e estuda há vários anos, foi apresentada em duas universidades de Portugal, em 2016, e publicada na revista da Associação Cristóvão Colon. Walter Gameiro é um entusiasta das Descobertas e do legado português nesta parte do mundo, mas também em África e na Ásia. Nascido no Ribatejo, cedo foi para Moçambique com a família, onde viveu, estudou Engenharia, casou e fez a tropa (em Nampula). Mais tarde, trabalhou na África do Sul, em Portugal e terminou a carreira profissional nos Estados Unidos. Tem dois filhos. Fixou residência no Texas, mas passa a maior parte do ano com a mulher, a bordo do seu catamaram, nas águas calmas das Bahamas.

Nas duas semanas que passámos com a família Gameiro aprendemos muito sobre a versão que altera sobremaneira os factos históricos – até aqui inquestionáveis – e travámos uma amizade que irá perdurar por muitos anos. O nosso foco sempre foi, por razões da vida pessoal, a Ásia e as desventuras dos portugueses por essas paragens. No entanto, como este encontro o comprovou, há vestígios dos nossos antepassados nos quatro cantos do mundo, como nos explicou Walter Gameiro com vários factos que desconhecíamos.

Quanto à versão de Cristóvão Colombo ser português, há também outras teorias que apontam para a possibilidade de ser espanhol, italiano (a oficial) e francês. Mas como Walter nos fez saber, como pode ele ser italiano se nunca escreveu nesta língua, assim como em Francês? Todos os escritos do almirante são em Latim, Espanhol e Português, arcaicos.

O investigador abordou igualmente a sua tese de que Colombo, sendo português, trabalhava para a Coroa Espanhola, mas a mando do Rei de Portugal, sendo portanto um agente duplo. Neste contexto, falou sobre a premeditada perda da sua embarcação na ilha de Hispanhola, que supostamente terá sido afundada para evitar que a restante tripulação tivesse a oportunidade de fazer chegar a novidade ao Rei de Espanha. A novidade era que afinal não tinha chegado à Índia, tal como prometido, protegendo assim os interesses de Portugal em relação à Índia.

Foram dias e dias de conversas soltas. Um pormenor aqui, outro ali, que juntos deram corpo a todo um enredo que facilmente daria origem a um filme. Sinceramente ficámos fascinados pelo envolvimento da história e pela dedicação de Walter Gameiro a esta causa, usando o seu tempo livre para explorar todas estas teorias no terreno.

Lendo o diário de bordo de Cristóvão Colombo, escrito originalmente em Espanhol – oficialmente estava ao serviço da Coroa Espanhola – o engenheiro Gameiro vai calcorreando os passos e as rotas que o almirante fez há quinhentos anos, tentando assim desvendar alguns dos mistérios que envolvem toda a história da chegada dos espanhóis às Américas, enquanto os portugueses, do outro lado do mundo, iam desbravando mar rumo a Calcutá.

Esperamos que este nosso amigo, quando tiver tempo entre viagens, se dedique a escrever um ou mais livros sobre esta temática. Serão de leitura muito interessante e poderão vir a contribuir para clarificar alguns dados históricos que se encontram distorcidos nos manuais escolares.

João Santos Gomes

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