“Cu-cu”, surpresa!

Papa no Báltico, Sínodo dos Bispos e Vocações

“Cu-cu”, surpresa!

Entre sábado e terça-feira, o Papa Francisco esteve nos países bálticos para reforçar a fé daqueles povos duramente provados pela perseguição nazi, seguida de meio-século de perseguição soviética. Entretanto, de 3 a 28 de Outubro, arranca em Roma o sínodo dos bispos, sobre os jovens e a vocação, que inclui no programa (14 de Outubro) a canonização do Papa Paulo VI e do arcebispo D. Óscar Romero.

A primeira etapa da viagem aos países bálticos foi igual à de todas as viagens anteriores. Poucas horas antes de apanhar o avião, Francisco deslocou-se à basílica romana de Santa Maria Maior para confiar a Nossa Senhora estes dias apostólicos. A população aguardava-o com grande emoção, mas a vida religiosa e social daquelas nações ainda está pouco consolidada. Esta viagem coincidiu com os cem anos da independência destes países, dos quais só uma pequena parte foi vivida em liberdade: «tempos obscuros, de violência e perseguição, em que a chama da liberdade não se extinguiu…», disse-lhes o Papa numa mensagem-vídeo, pouco antes de partir.

Entretanto, o sínodo dos bispos vai tratar do projecto de Deus para cada ser humano e do momento em que cada um se encontra a sós com Deus e conhece esse sonho divino. Nalguns casos, o aturdimento é tão grande que o próprio não se apercebe de nada. Também há encontros felizes, em que a surpresa maiúscula do primeiro momento se prolonga até ao fim da vida com a alegria de ter sido olhado por Deus. É normal que o próprio se dê conta do erro que Deus comete ao chamá-lo para uma vocação que ultrapassa completamente a capacidade própria. Nessa altura, são possíveis duas atitudes. A mais inteligente é compreender que o facto de Deus ser omnipotente Lhe permite ultrapassar os impossíveis e que, de qualquer maneira, não temos de Lhe dar lições. A outra atitude é saber mais que Deus: “Muito obrigado, meu Deus; eu tenho uma ideia melhor, mas fico agradecido na mesma, por vos terdes lembrado de mim!”.

Hoje, no dia em que escrevo, a Igreja celebra o Apóstolo São Mateus, um homem que, antes de ser chamado por Jesus, tinha uma função mais desprezível que a de um funcionário da EMEL. Não deveria ter sido escolhido para nada. No entanto, reagiu de forma verdadeiramente inteligente àquele erro de “casting”: aceitou e condecorou-se a si mesmo por essa decisão, dando um grande banquete a todos os seus amigos. O lema papal de Francisco (miserando atque eligendo) é uma alusão à vocação de São Mateus, uma referência ao Deus que “perdoa e escolhe”.

A vocação é sempre uma surpresa. Em primeiro lugar, porque implica um erro de “casting”, ou (o que vem a dar ao mesmo) um “amor cego” por parte de Deus. Em segundo lugar, porque o caminho empreendido ultrapassa tudo o que a imaginação alcança e o final é uma fecundidade inesgotável e um prémio sem fim.

A canonização simultânea de Paulo VI e do arcebispo D. Óscar Romero apresenta-nos dois modelos de grande fidelidade à Igreja, um particularmente conhecido pela defesa da família e da vida humana e o outro mais conhecido pelo respeito da justiça, sobretudo em relação aos mais vulneráveis. Francisco explicou que a canonização simultânea destes dois santos mostra que as várias dimensões da mensagem cristã são indissociáveis.

Há dias, o New York Times publicou duas cartas escritas por Bento XVI em 2017 a um cardeal conhecido pelas críticas ao Papa Francisco. Embora fossem cartas privadas, tornaram-se do domínio público. Dá pena também que o destinatário não tenha compreendido a mensagem.

Também se comemorou no parlamento italiano o encontro, ocorrido há cinquenta anos naquele mesmo edifício, entre Chiara Lubich e o político Igino Giordani. O próprio Giordani escreveu num livro de memórias: “Estava convencido de que ia ouvir uma entusiasta sentimental de qualquer utopia de beneficência. Foi completamente diferente. (…) De repente, a minha curiosidade despertava-se e deflagrava um fogo galopante. Quando, ao cabo de meia hora, acabou de falar, eu vivia numa atmosfera encantada, num limbo de luz e de felicidade; e teria gostado que aquela voz continuasse. Era a voz que, sem eu me dar conta, esperava. Era a santidade ao alcance…”. Este deslumbramento de Giordani foi o princípio de uma vocação que havia de marcar o movimento dos Focolares… Uma vocação é sempre um deslumbramento e uma surpresa.

José Maria C.S. André 

Professor no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa

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