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Saltando as “muralhas” da China
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Saltando as “muralhas” da China

Saltando as “muralhas” da China

Antecipando o Ano da China em Portugal e o Ano de Portugal na China, que em Fevereiro de 2019 assinalam os quarenta anos de relações diplomáticas entre os dois países e o vigésimo aniversário da transferência de soberania de Macau para a China, Portugal reforça as suas relações com este país amigo.

Na passada semana o Presidente chinês, Xi Jinping, acompanhado pela sua mulher, Peng Liyuan, e por uma comitiva comercial, visitou Portugal durante dois dias, tendo assinado um conjunto de acordos que multiplicam as relações comerciais já existentes. Neste âmbito, é bom lembrar que entre 2010 e 2016 Portugal foi o sétimo país europeu em que se registou mais investimento chinês.

Os encontros entre as duas partes resultaram na assinatura conjunta de dezassete normas legais, visando um conjunto de investimentos e transacções mútuas em várias áreas: economia, comércio, cultura, educação, turismo, ciência, tecnologia e media.

Na perspectiva mais vasta do comércio mundial e tendo em consideração os objectivos do Presidente Xi com o seu projecto “One Belt One Road” (Uma Faixa, Uma Rota), destinado a estabelecer uma interligação comercial marítima entre a Europa e a Ásia, com avultados investimentos em infra-estruturas, o Primeiro-Ministro António Costa salientou o grande interesse «na afirmação estratégica de Portugal na articulação desta iniciativa», apresentando o Porto de Sines como o lugar ideal para o estabelecimento de parte dessa rede de comunicação comercial. Para sinalizar a boa vontade entre as partes, a propósito desta iniciativa, foi assinado um memorando de entendimento pelos dirigentes dos dois países.

No âmbito empresarial destacam-se ainda vários acordos, entre os quais, a implementação em Portugal do STARLAB (laboratório de pesquisa avançada do mar e do espaço), alargando a cooperação nos domínios da visão 4D, plataformas de satélite, monotorização e protecção dos oceanos; negócios agro-alimentares; centro de serviços em Matosinhos; investigação em energia; programas de estágio internacionais, projectos de interconexão entre Portugal e Marrocos; desenvolvimento da tecnologia 5D, para além de outros acordos de carácter financeiro, educativo e cultural.

A visita de Xi Jinping a Portugal, para além da simpatia amistosa do seu Presidente e comitiva (a contrastar com a arrogância e prepotência de alguns outros líderes mundiais…), foi um excelente encontro diplomático entre as duas delegações, que projectam as relações entre os dois países para além da antiga e simbólica presença portuguesa na China desde o século XVI, que proporcionou o intercâmbio entre as culturas ocidentais e orientais, para a modernidade dos nossos dias, robustecendo o novo patamar das relações cordiais entre Portugal e a China, que se vem construindo desde há alguns anos.

Naturalmente que esta visita gerou algumas críticas nos meios mais elitistas da sociedade portuguesa pró-americana, e entre os defensores do “Tio Trump” e da sua guerra comercial na tentativa de se manter o DDT (o Dono Disto Tudo), já para não falar de alguns políticos que há poucos anos saíram do berço da “ditadura do proletariado”, para se tornarem paulatinos defensores da “democracia burguesa”. A estes apenas tenho a dizer que a presença chinesa em Portugal (mau grado algumas privatizações de sectores chave da economia portuguesa, realizadas ao abrigo da Troika por governantes que agora se atiçam contra o “perigo amarelo”…) é hoje uma presença económica de vulto, que não altera a forma de viver dos portugueses e os pressupostos e alianças da actual política externa, que indicia benefícios para ambas as partes.

Em Portugal, onde a chinesa é a maior comunidade asiática, encontrando-se maioritariamente integrada nos sectores de serviços e restauração, para além da residência não habitual (Vistos Gold) de uma componente economicamente mais abastada, não há problemas sociais com a sua integração, à excepcão da natural incompreensão da língua portuguesa por parte das gerações mais velhas, uma vez que as mais novas, ao frequentarem as escolas e as universidades, já não têm esse obstáculo.

A presença em Portugal do Presidente Xi e o tipo de acordos realizados alteram a imagem tradicional das lojas chinesas, inicialmente vocacionadas para a sua comunidade residente e hoje visitadas por toda a gente (à semelhança de muitos negócios dos emigrantes portugueses nos países de acolhimento), para adquirirem uma notável qualidade intrínseca.

Com a economia chinesa a desenvolver-se mundialmente, atingindo níveis altíssimos em toda a diversidade de sectores, talvez não seja má ideia começarmos a aprender Chinês. Assim, e pelo menos quando voltar a Macau, já não terei de usar a linguagem gestual para comprar uma aspirina na farmácia “Manuel Antunes”, da Avenida Vasco da Gama, uma vez que a gentileza chinesa manteve em Macau os nomes tradicionais portugueses em muitos estabelecimentos e ruas, embora – compreensivelmente – muito poucos falem Português.

Até lá, Ni Hao (Olá)!

LUIS BARREIRA

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