OLHANDO EM REDOR Religiões

Olhando em Redor

Religiões

Na manhã da passada quarta-feira saí de casa a digerir três acontecimentos que captaram a minha atenção: 1 – O compromisso da República Popular da China em fazer guerra à corrupção, sem olhar a nomes, incluindo os considerados intocáveis, sob pena de perigar a sustentabilidade política e territorial do País a médio/longo prazo (assim acredito!).

2 – A inabilidade do Governo da RAEM em resolver sérios problemas que têm afectado a vida da população, tais como a especulação imobiliária, a poluição, os transportes públicos, a subida do custo de vida, etc., não sendo por isso de estranhar o despertar de toda uma consciência cívica.

3 – Um norueguês, que viajava com a mulher pela Tailândia, perdeu os documentos de viagem e dinheiro (seis mil baht) num tuk-tuk de Hat Yai e entrou em desespero. Felizmente, conseguiu recuperar os seus haveres intactos, porque ao perceber que a bolsa continha documentos importantes, o taxista ficou preocupado e tentou restituir-lhe os pertences. O norueguês ficou lavado em lágrimas ao receber a bolsa num posto de polícia do turismo, por pensar que nunca mais iria ter de volta o que mais desejava. Quanto ao taxista, recusou a recompensa e foi alvo de notícia na Tailândia.

Não sei se o taxista é budista, muçulmano ou cristão, se professa outra ou nenhuma religião, mas esta situação fez-me pensar que Deus existe e as religiões devem seguir, cada vez mais, o diálogo ecuménico, porque, por vezes, até têm algo em comum.

 

Século XVI

O pensamento humano tem evoluído a caminho do conhecimento e do alargar de fronteiras que poderiam trazer maior disciplina em termos de comportamentos e de acções. Infelizmente, nem sempre assim acontece.

Acerca da morte de Rumecan, poderoso rei mouro de Cambaia, relata Diogo de Couto na Década Sexta da Ásia, Livro IV, Capítulo II: «(…) receoso de ir ter às mãos dos Portugueses, despiu os trajes que trazia e vestiu-se de uma pobre [vestimenta] para não ser conhecido e achando um cabouco com alguns corpos mortos se lançou entre eles para ver se por ali podia escapar: mas como não há [que] fugir da mão de Deus, ali lhe foi dar uma grande pedra na cabeça», que o matou.

Continuava o cronista Diogo de Couto: «Os nossos foram seguindo a vitória pelo campo [de batalha] adiante por espaço de meia légua até de todo desbaratarem os inimigos. Um (…) bom cavaleiro que ia por aquela parte para onde Rumecan se recolheu (que parece levava olho nele) e indo ter ao cabouco achou aqueles mouros mortos, e entre eles viu, e conheceu Rumecan (porque o conhecia muito bem) e cortando-lhe a cabeça a lançou às costas, e a levou ao Governador [português], que a estimou muito, e prometeu ao soldado de lhe fazer mercê, como depois lhe fez».

Barbaridades ainda mais horrendas foram cometidas pelos portugueses nas batalhas do século XVI travadas a Oriente com os mouros, e vice-versa. Naqueles tempos, o Homem era mais ignorante do que nos dias actuais, pois tinha pouco conhecimento e menor percepção de realidades que não passam hoje de meras banalidades.

Se o extremismo religioso dos portugueses era então considerado um acto louvável de fé, sempre numa luta incessante contra os infiéis (os mouros) que «honravam a seita de Mafamede», já a morte no campo de batalha contra os inimigos de Deus (outra vez os mouros) era considerado um acto de redenção e de salvação. Tal intolerância religiosa foi sendo abandonada com o passar dos tempos, havendo agora, na medida do possível, boa aceitação dos muçulmanos no mundo ocidental.

Considero os muçulmanos, na sua generalidade, pessoas honradas e dignas da sua fé. Respeito bastante o Alcorão, porém, não posso deixar de condenar certos grupos extremistas islâmicos, que em vez de evoluírem no tempo, continuam agarrados aos mesmos actos bárbaros que eram praticados há alguns séculos em nome do seu Deus e que pouco ou nada se diferenciavam dos que também eram cometidos por portugueses, agora em nome do nosso Deus.

 

Ligações

Incrivelmente, a maioria dos católicos desconhecerá que o nosso Livro Sagrado reparte muitos personagens bíblicos com o Alcorão, sendo Deus, Alá; enquanto o Diabo é Shaitan ou Iblis; Adão é Adam; Noé é Nuh; Abraão é Ibrahim; Moisés é Musa; Saul é Talut; David é Daud; Golias é Jalut; Salomão é Sulayman; Jonas é Yunus; João Baptista é Yahya; Jesus Cristo (Deus na forma humana, conforme o Novo Testamento), Isa, etc.

Embora seja católico, sou acima de tudo um cristão sincretista. Ou seja, estou aberto a conhecer os ensinamentos de todas as religiões, porque vejo nelas um fundo de verdade. Com efeito, nas religiões do arco cristão, mas também entre budistas, hinduístas, muçulmanos e por aí fora, já aconteceram manifestações sobrenaturais que recaem no âmbito daquilo a que chamamos milagres. Mas como as religiões são conduzidas pelo Homem, que não é perfeito, também é normal haver diferenças, por vezes bastante acentuadas. Haja diálogo e teremos um mundo melhor!

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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