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Crónica de um fim anunciado
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Crónica de um fim anunciado

Foi sem surpresa que recebi a notícia da exclusão do Circuito da Guia do calendário do próximo ano do Campeonato do Mundo de Carros de Turismo (WTCC, na sigla inglesa).

Pelo menos, desde Outubro último, já vários sítios internacionais especializados em desporto automóvel avançavam com a possibilidade que apenas foi confirmada na semana passada pelo Conselho Mundial da FIA.

Apesar de haver disponibilidade por parte da Comissão Organizadora do Grande Prémio de Macau em voltar a ter mais uma etapa final – seria a décima primeira consecutiva – da terceira competição mais importante da FIA, subentende-se que a intenção esbarrou na pouca abertura e falta de interesse por parte dos responsáveis do WTCC.

«Por mais que o Grande Prémio de Macau tenha ajudado o WTCC a ter um primeiro sabor das corridas na Ásia, agora temos uma base sólida de transmissões na região e uma presença na China, no Japão e agora na Tailândia», disse François Ribeiro, responsável máximo dos desportos motorizados do Eurosport Events, a empresa promotora do campeonato.

«O WTCC amadureceu durante os seus dez últimos anos», salientou Ribeiro, acrescentando que a organização decidiu procurar novas alternativas, onde «seja possível abrir novos mercados, ter melhores horários televisivos e estar mais próximo da base, permitindo o regresso mais rápido à Europa».

Entendo perfeitamente que se tente encontrar uma saída airosa para Macau, até porque o que esteve na génese para a sua ausência do calendário de 2015 teve a ver com algo mais profundo.

Ao olhar para as novidades do próximo ano, verifico que ficaram de fora dois circuitos emblemáticos – Suzuka (Japão) e Spa-Francorchamps (Bélgica) – e que a corrida de Macau será substituída pelo evento nocturno do autódromo de Losail (Qatar), o primeiro do género no WTCC. A única reserva para a corrida de Losail é que ainda está sujeita ao contrato de promoção de eventos (o mesmo poderia acontecer a Macau, caso houvesse interesse na continuidade).

No entanto, ao depararmo-nos com a inclusão do Circuito Internacional de Chang, em Buriram (Tailândia), percebemos que parte da argumentação de François Ribeiro carece de fundamentação. Entre Macau e a Tailândia há uma hora de diferença, por isso não faz muito sentido que se fale em «ter melhores horários televisivos», porque se houvesse vontade dos promotores do WTCC, mediante conversações com a Comissão do Grande Prémio de Macau, também poderiam encontrar o melhor horário possível para a jornada dupla do Circuito da Guia.

Já quanto ao facto de «estar mais próximo da base, permitindo o regresso mais rápido à Europa» apraz-me dizer que Buriram é uma cidade situada no Nordeste da Tailândia, na região de Isaan, e o seu aeroporto não tem a magnitude, nem a dimensão, o tráfego aéreo ou a logística das duas infra-estruturas aeroportuárias que servem Banguecoque.

Contudo, é compreensível a entrada de Buriram no WTCC. Em primeiro lugar, porque a Tailândia é um país emergente no panorama asiático: apesar das convulsões políticas dos últimos anos, o País tem recebido inúmero investimento estrangeiro, tornando-se num mercado bastante apetecível, fruto de uma consolidada diversificação do tecido económico, com preponderância para o turismo cultural, religioso, de saúde, de lazer e de entretenimento, sem esquecer a gastronomia, o desporto, o mercado imobiliário sustentável e o sector terciário.

Em segundo lugar, porque Banguecoque organizou em 2012, com bastante sucesso, a “Race of Champions”, na qual participaram grandes nomes do desporto automóvel, tais como Romain Grosjean, Tom Kristensen, Michael Schumacher ou Sebastian Vettel.

Há depois a possibilidade da Tailândia (Phuket, Pattaya ou Cha-Am) receber uma prova de Fórmula 1, coisa a que Macau não se pode dar ao luxo, entre outras razões, porque vários sectores do Circuito da Guia são bastante estreitos para as ultrapassagens. A única alternativa era ter um circuito não permanente no COTAI, tendo como pano de fundo o “glamour” dos hóteis-casino aí instalados. Há outro factor de peso a favor do “País dos Sorrisos”: o petróleo no Golfo da Tailândia!

O WTCC também representa uma montra para as marcas de fábrica, ou carros das equipas semi-oficiais que participam no campeonato – Citroën, Honda, Lada, BMW, Chevrolet e Seat – porque se o mercado automóvel tem grande potencial na Tailândia, em Macau é muito pobre.

Há outra ilação a tirar: quando a indústria do Jogo for autorizada ou ganhar maior visibilidade noutros mercados asiáticos – Japão, Taiwan, Filipinas, Singapura, Laos, Vietname… – e Macau deixar de ser tão atractiva, as operadoras com “mão” norte-americana não terão pejo em deslocar o foco dos seus investimentos para outras jurisdições, porque se o território constituiu a porta de entrada na Ásia, depois de servidos os interesses capitalistas, há que continuar a delapidar por outras paragens.

O futuro de Macau joga-se na renegociação dos contratos de concessão e subconcessão com as seis operadoras e na diversificação económica. No primeiro caso, o Governo da RAEM deve acautelar muito bem os interesses do território. No segundo caso, impõe-se a questão: haverá vida para além do Jogo e do turismo a ele associado?

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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