Coliseu, a via dolorosa

O Nosso Tempo

Coliseu, a via dolorosa

Noite de via sacra, em Sexta-feira da Paixão, na Roma Eterna, neste ano da graça de 2018. Que segui, minuto a minuto, impregnado da atmosfera tão especial daqueles momentos.

Gente estranha aquela, a que mais uma vez ali se reunia, numa noite escura, à luz das velas, nas ruínas de um velho circo romano. Novos e velhos, crianças e adolescentes, religiosos e leigos, em encontro bizarro, na escuridão da hora.

Em torno a cidade, com seus sons e suas luzes, apelando à rotina de todos os dias. Uma cidade que, como todas as outras, tem as suas exigências de conformismo, segundo a ditadura do previsível. Ali era diferente.

Não muito longe, pois, a escravidão dos gestos habituais, dos pequenos e grandes sonhos não realizados, dos afectos que generosamente se dão ou friamente se compram.

Mas ali, entre cânticos e orações e silêncios, no decurso da caminhada lenta, estava-se numa outra dimensão, num universo à parte, onde o que acontecia… acontecia de modo diferente.

Parecia haver um propósito comum, naquele estar ali em multidão silenciosa, gente revezando-se para empunhar uma cruz nua, em torno do octogenário vestido de branco.

A vida da cidade habitual era, psicologicamente, muito para além daquela fronteira de recolhimento e fé, simbolizando uma outra vivência do tempo, numa outra galáxia.

E gradualmente tudo fazia sentido. Era sobre a vida e da morte que ali se reflectia, sobre o último sentido das coisas, sobre isto de se ser pessoa e depois já não se ser nada. Sobre como olhar os outros ou ignorá-los. Como andar só pelos caminhos da existência – ou fazer parte da procissão interminável que liga o passado ao futuro, desde o princípio dos tempos.

 

O diálogo com o invisível

Primeira estação, segunda estação, Jesus condenado à morte, Jesus carrega a cruz às costas, Jesus, Jesus… E a narrativa prosseguia, até ao final do décimo quarto capítulo. A história é conhecida, estão identificados os protagonistas, sabe-se como acaba a tragédia.

Mas é uma história sempre nova, na repetição dos seus horrores, da permanente injustiça que a rodeia, e no silêncio absoluto, eloquente, do condenado.

Este ano foi a vez dos jovens falarem, interrogando-se a si próprios e ao mundo sobre o sentido do viver no nosso tempo, neste cotovelo da civilização universal de que ninguém vê o outro lado. E o desconhecido receia-se.

Fiquei emocionado pela profundidade da reflexão desses jovens romanos perante a Cruz, como que a acusarem-nos a nós, mais velhos, de não lhes deixarmos, quando partirmos, um mundo melhor.

Eles terão que tentar redescobrir o sentido da Cruz por entre as nonatas de resíduos dos nossos excessos, desde os excessos do urbanismo que nos concentra em cidades sem Deus, até aos excessos da tecnologia que nos aprisionam de muitas e pérfidas maneiras.

 

O drama em catorze estações

Jesus condenado à morte. Por que é que foi julgado como o foi Aquele inocente? E por que é que os inocentes continuam a ser condenados e a morrer, na História que vamos escrevendo, com tanto sangue e dor, desde o fratricídio de Abel por Caim… até às histórias mais recentes que lemos nos jornais ou na Internet? Recordo lentamente, pausadamente:

Jesus carrega a cruz às costas. A simbologia inevitável do sofrimento humano de todos os dias. Que sentido, para além da lógica da esperada eternidade?

Jesus cai pela primeira vez. Cair e erguer-se, cair enfraquecido mas erguer-se mais fortalecido. Onde reside a motivação para esse movimento ascendente, por entre a banalidade dos nossos desafios?

Jesus encontra a sua Mãe. O sofrimento humano levado ao rubro, unindo indissoluvelmente aqueles dois que o projecto de Deus ligou, desde o princípio dos tempos. O reenvio ao amor materno, fonte de inspiração ou motivo de decepção, para todos os que dele ficaram privados.

Simão Cirineu ajuda a Jesus. Auxiliar os outros a levar a sua cruz. Dimensão essencial dessa relação com o próximo, sem o qual não há relação com Deus.

Verónica limpa o rosto de Jesus. Quem limpa hoje a face do irmão ferido, quem é?

Jesus cai pela segunda vez. Quem dá a quem cai uma segunda, uma terceira oportunidade? Ou lhe dá uma mão para o erguer da queda?

Jesus encontra as mulheres de Jerusalém. Quem chora por nós, por quem choramos nós, na solidariedade que a dor humana exige?

Terceira queda de Jesus. Quando Deus, feito Homem, cai – com quanta facilidade não cai cada um de nós?

Jesus é despojado de suas vestes. O que é afinal o ser despojado de tudo? E que mais tem a perder, quem deu tudo?

Jesus é pregado na cruz. Retrato de um Deus impotente? Aposta errada em quem não foi capaz de se salvar a si próprio?

Jesus morre na cruz. Está finda a aventura do Bom Pastor?

Jesus morto nos braços de sua Mãe. É o regresso simbólico ao ventre onde tudo começa.

Jesus é enterrado. A via dolorosa acabou. Agora é só o vazio?

Os cristãos sabem que não. Por isso existem há dois mil anos, como comunidade de Fé.

 

Que leituras para o mundo?

Um mundo preocupante, aquele em que vivemos. Tensão perigosa entre países, ódio inter-religioso, rivalidade entre nações para o domínio do mundo, disparidades económicas gritantes… lado a lado com a pobreza mais abjecta, manifestações de riqueza que desafiam a imaginação dos comuns mortais.

Dos líderes políticos mundiais destacam-se o Presidente americano pela insensatez, pela incoerência, pela imprevisão; e o Presidente russo, pelo seu jogo perigoso em direcção a objectivos que só ele conhece.

As sociedades estão mais instáveis, os países menos seguros. E no interior deles, de todos eles, uma civilização consumista e materialista corrói o tecido social, dando origem a pessoas cada vez mais egocêntricas.

Deus é um embaraço e a religião uma incomodidade. O “produto” JC (Jesus Cristo… Deus me perdoe!) não se vende bem, nem nas livrarias, nem nas vídeo ou discotecas, nem forçosamente como adorno de t-shirts.

Mas alguns revoltam-se contra o estado de coisas e gritam para que as janelas e portas do mundo permaneçam abertas para o universo. Quem são esses filósofos iluminados ou, pura e simplesmente, “loucos” extravagantes?

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Sim, gradualmente tudo faz sentido. Na via dolorosa de cada um, a vida e a morte misturam-se num quotidiano onde somos interpelados sobre o último sentido das coisas. Sobre isto de se ser pessoa e depois já não se ser nada. Sobre como olhar os outros ou ignorá-los.

Como andar só pelos caminhos da existência – ou fazer parte da procissão interminável que liga o passado ao futuro, desde o princípio dos tempos.

Poderemos ver, na via sacra do Cristo, a nossa própria vida dolorosa?

Carlos Frota 

Universidade de São José

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