O Silêncio

O Bem contra o Mal, edificando…

O Silêncio

«A maior necessidade que o ser humano tem é a de estar calado diante de Deus na mente e no coração, porque a linguagem que ele melhor ouve é a do amor silencioso»

São João da Cruz

É sabido que todos os autores de tratados ou textos sobre a vida espiritual unanimemente recomendam, sob risco de total fracasso em caso contrário, a prática do silêncio. Viver o silêncio, senti-lo. Mas muitos se levantam contra o silêncio, quando criticam a vida espiritual, ou todos que a exercitam através do silêncio. Desde os tempos judaicos, a Lei antiga, que o silêncio se ensina e pratica, se valoriza. «A vida e a morte estão à mercê da língua», adverte-se nos Provérbios (18,21), no Antigo Testamento bíblico. O que é depois reforçado no Novo Testamento, em Tiago 3,2 ss: «Se alguém não ofender por palavras, é então um varão perfeito», ensinamento repetido tantas vezes nos escritos dos autores antigos do Cristianismo. A quebra do silêncio ou o vociferar em excesso eram condenados também pelos pagãos, algo que se acreditava suscitar perigos. O próprio Pitágoras, na Grécia Antiga, por exemplo, impunha uma estrita regra de silêncio aos seus discípulos. Preceito idêntico era seguido pelas Vestais em Roma, virgens consagradas obrigadas a velar pelo fogo de Vesta em profundo e rigoroso silêncio, inquebrável.

Mas porque é o silêncio tão reverenciado em termos religiosos, principalmente entre os cristãos? O silêncio ajuda à prática do Bem, pois por ele se fala melhor com Deus, não se dissipando a alma, o espírito, por via do ruído e do falatório. A mente, pelo silêncio, está mais preparada para a oração, para a ascese, a contemplação, a meditação. Mas o silêncio deve ser activo, como advoga Santo Ambrósio, doutor da Igreja latina. O silêncio, por outro lado, ou em complemento, previne o mal, segundo Tomás de Kempis, autor espiritual da Idade Média, citando Séneca. «Sempre que estive no meio dos homens, voltei menos homem», recorda Kempis na sua Imitação de Cristo (Lv. 1, cap. 20).

Numa terceira forma de valorizar o silêncio, dir-se-ia que este é como que uma penitência edificante, pois a sua vivência, prática enfim, implicam moderação, abnegação, sentido de abstenção. O silêncio purifica. Por isso, os fundadores de ordens religiosas, autores de regras e constituições das mesmas, até dos institutos de vida consagrada de assistência aos pobres e enfermos, de obras pias ou educação, todos valorizaram o silêncio como vector fundamental da sua existência, cenobítica ou eremítica, não apenas na vida contemplativa mas também na activa.

A estrita observância do silêncio é fundamental nas ordens monásticas, como impõe São Bento de Núrsia nos mosteiros da ordem que fundou, mesmo nos refeitórios, dormitórios, não apenas na igreja ou nas celas. Se não for silêncio absoluto, que haja contenção e moderação na língua. Os Cistercienses (entre eles os Trapistas) foram ainda mais longe que os Beneditinos, nos ramos masculino como feminino, neste caso também prolongado depois nas comunidades de monjas das ordens mendicantes (Clarissas, Dominicanas, Carmelitas…). Mas foi entre os Camaldulenses (de inspiração beneditina) e principalmente os Cartuxos de São Bruno que o silêncio se tornou uma marca fulcral e referencial. Mesmo no trabalho o silêncio é fundamental, limitando a comunicação ao mínimo. Somente no louvor a Deus na liturgia das horas é que o silêncio se transforma em comunicação ascética e elevatória com Ele.

O sentido da marcha de vida destes homens que no seu projecto de fuga mundi procuram uma ascese, uma elevação espiritual a partir da contemplação absoluta, que só a completa ausência de ruído permite! Como dizíamos atrás, apenas as celebrações comunitárias, o ofício litúrgico, o tanger das campanas, o passeio comunitário de Domingo à tarde, quando se pode conversar dois a dois ou de forma pacata e moderada, ou numa qualquer reunião ou actividade monástica, quebram, subtilmente, o silêncio, ritmado pela solidão, o isolamento, a interioridade e a oração perpétua. Até a única refeição comunitária, ao Domingo e em dias santos, é pautada pelo silêncio, apenas quebrado por um regular leitura de um monge, para ouvir em silêncio quando se come, em silêncio, junto dos demais… em tudo mais, a solidão, o silêncio…

Será o silêncio uma recusa, negação do mundo? É antes uma opção? Melhor seria dizer o silêncio como forma de vida, como procura, como entrega, como única maneira de ouvir Deus, de ouvir o mundo, de cada um se ouvir a si mesmo… Tudo se faz no silêncio, em silêncio, o tempo, o espaço, as repetições, os ritmos, o decurso das estações, dos dias, numa escala diferente da do mundo. Como um outro tempo no tempo mundano, uma outra forma de viver o tempo. Sem tempo, sem pressas, apenas em silêncio… Como se vê no filme “O Grande Silêncio” (2005, Philip Gröning), filmado na Grande Cartuxa (Grenoble, França), que permanece actual, intemporal, porque ali não há tempo também. Poderíamos perguntar, interrogar, inquietar, como André Bazin, quando vemos o filme, sobre o que se passa, o que está a acontecer, gerando até alguma ambiguidade, numa obra que coloca o espectador como um desambiguador, um formulador, ele próprio interrogando-se sobre a construção fílmica, o espaço e principalmente o tempo, a dinâmica do tudo que é simplesmente silêncio e interioridade, ascese e contemplação… Há uma reinvenção do tempo neste filme, da sua escala, um realismo ontológico fortemente marcado pela forma de vida, por essa escala intemporal, fora do mundo que é a vida cartusiana. Há um tempo que absorve todos os outros tempos, intuído nesta ausência do mundo, ou o mundo vertido em cada um dos monges solitários, como se fossem Atlas que levam o mundo, em silêncio…

A História do Homem é marcada pela temporalidade contínua, numa marcha inexorável do tempo: será que a história não continua na Cartuxa, ou o tempo está noutra dimensão? Que nós cá fora não entendemos, mas que o realizador, de forma natural, subtil, discreta, como se fosse um monge, nos convida a ver e ouvir, o silêncio. O tempo longo do silêncio infinito, talvez a natureza maior para ouvirmos o mundo, a nós, ou algo mais… Sem relativismos, fora do túnel do tempo da vida mundana, do imediato, do factual, do efémero, o silêncio eleva-nos, guinda-nos à superior dimensão da nossa realidade ontológica enquanto seres humanos, que nem sempre perscrutamos ou sentimos, submersos num tempo que já não tem tempo sequer… para se ter tempo!

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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