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NATAL ANTIGO DOS MACAENSES DA DIÁSPORA
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Natal antigo dos Macaenses da Diáspora

União familiar.

Os macaenses que agora estão na diáspora tinham várias formas de celebrar a quadra natalícia durante a infância, quer vivessem em Macau ou em Hong Kong. O CLARIM falou com Cíntia do Serro, Alice da Luz, Mickey da Roza, Alberto Noronha, Arthur Achiam e Francis Xavier. E percebeu que a união familiar era o mais importante.

Mesa farta e presentes sem o Pai Natal em casa da avó são algumas recordações de infância de Cíntia do Serro, que reparte agora o seu tempo entre o Canadá, onde vive há quinze anos, Portugal e Macau.

«No Natal ia sempre à Missa do Galo. Depois de regressarmos a casa [da avó], tínhamos uma mesa grande com muita comida – peru, leitão, galinha assada e outras iguarias macaenses, tais como o tacho, a empada, o “cake”, a alua, o bolo menino», disse Cíntia do Serro, que tem obra publicada sobre a gastronomia macaense.

Os presentes também entravam na festividade, mas o Pai Natal, embora fosse lembrado, primava pela ausência. «Havia sempre presentes. Os miúdos recebiam brinquedos e os mais crescidos tinham caixas com chocolate ou vestuário escolhido a gosto. Embrulhávamos tudo com bonitos laços e púnhamos as prendas junto ao presépio e à árvore de Natal», explicou.

«Depois da Missa do Galo fazíamos a troca de prendas com os nomes escritos nos embrulhos. Não havia Pai Natal. A minha avó só dizia que o Pai Natal tinha vindo pela chaminé e pusera as prendas junto ao presépio», frisou Cíntia do Serro, em alusão às décadas de 40 e 50, quando morava na Rua Central em casa da avó.

Alice da Luz, a residir em Newark, Estados Unidos, lembrou as quadras natalícias na década de 60: «Na minha infância havia a tradição de me juntar com os meus irmãos – somos seis – na véspera de Natal, dia 24, e irmos todos a pé para a igreja de Nossa Senhora de Fátima, onde assistíamos à Missa do Galo. Depois, juntávamo-nos em casa e a minha mãe tinha umas “coisinhas”, a alua e outros doces tipicamente macaenses, que comíamos após a Missa do Galo», descreveu a tesoureira da Casa de Macau USA, que emigrou para a Califórnia há mais de trinta anos.

«No dia seguinte, 25, íamos a casa dos meus tios e da minha avó para desejar-lhes Boas Festas. Uma tia minha estava casada com o [Leonel] Borralho, jornalista [e director da Gazeta Macaense]. Vivia na Rua Afonso de Albuquerque, tal como a minha avó. Depois, mais em baixo, vivia a Dona Aida [de Jesus], a minha tia-avó», referiu, acrescentando que o seu «pai Luiz Leandro da Luz lia O CLARIM», pois «era assinante», fazendo com que também ela tivesse o hábito de ler o jornal católico, aos doze ou treze anos de idade.

 

Hong Kong

O antigo presidente da Casa de Macau Club Vancouver, Mickey da Roza, lembra-se que na década de 50, após o jantar – comia algo simples – e depois de tudo limpo, a mãe «queimava incenso pela casa»; preparava-se a mesa e faziam «todos juntos uma oração» antes de assistirem à Missa do Galo. Vivia então na zona de Kowloon, em Hong Kong.

«Quando voltávamos, ela sentava-nos à mesa e tínhamos o que comer: rosbife, chouriço, doçaria… A casa cheirava a incenso. Os presentes ficavam para o dia seguinte [25 de Dezembro], caso tivéssemos alguns. Naquele tempo o melhor que poderíamos ter era um brinquedo», disse Mickey da Roza.

Alberto Noronha ainda hoje não esquece o que tinha de fazer para poder receber as prendas. «Tinha que cantar (risos)», revelou o membro da Casa de Macau Inc. Austrália, então a viver em Hong Kong.

«Somos uma família grande. O meu pai teve três irmãos e sete irmãs. Costumávamos encontrar-nos na casa de um dos irmãos dele e as crianças, antes de terem os presentes, tinham que cantar, ou actuar ou dançar. Não podíamos tê-los de mão beijada», sublinhou.

«Lembro-me de ter que fazer isso quando era criança. Era algo embaraçoso, mas também levava a nos conhecermos melhor uns aos outros. Era assim que passávamos o Natal. Os meus primos eram calorosos e ainda hoje somos amigos», frisou, recordando que «em 2004 a família Noronha organizou um encontro em Las Vegas», comparecendo «420 pessoas, de quatro gerações».

 

Reencontro

Alberto Noronha frequentou a Escola Camões, em Hong Kong. Já não estava com Arthur Achiam e Francis Xavier há cerca de sessenta anos. O reencontro aconteceu durante o último Encontro das Comunidades Macaenses, que decorreu este ano na RAEM entre 26 de Novembro e 2 de Dezembro.

«As famílias portuguesas eram sempre grandes e durante a época natalícia tínhamos que ir de casa em casa visitar todos os parentes. Recebíamos muitas prendas e tínhamos boa comida. Não embrulhávamos os presentes, dado que os recebíamos dos nossos tios e tias», lembrou Arthur Achiam, que vive e trabalha em Hong Kong.

Francis Xavier morava com a tia, mãe e primos na antiga colónia britânica. Estava-se então entre finais da década de 50 e anos sessenta. «No Natal, vínhamos a Macau visitar todos ou nossos parentes ou íamos ao “Little Flower Club”, um clube português em Kowloon. Havia lá o Pai Natal, tínhamos jogos e recebíamos prendas. Era sempre divertido», testemunhou, durante a sessão inaugural do último Encontro das Comunidades Macaenses.

PEDRO DANIEL OLIVEIRA

pedrodanielhk@hotmail.com

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