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Padrishibpur, a “cidade dos padres”
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MEMÓRIA PORTUGUESA NO NORDESTE DA ÍNDIA E NO BANGLADESH – 7

Padrishibpur, a “cidade dos padres”

Muitos dos vocábulos portugueses presentes no idioma do Bangladesh identifico-os no decorrer das conversas que vou tendo, e a que travei com o padre Francis Gomes não é excepção. Fico a saber, por exemplo, que “caldo” é utilizado no sentido de caldeirada de peixe, ou seja, para eles, o “caldo curry”. Pergunto-lhe depois se conhece pessoas que sejam o resultado de casamentos inter-raciais, ao que ele responde abanando negativamente a cabeça, embora vá dizendo que quando os ingleses chegaram muitos deles casaram com mulheres locais e o resultado dessas uniões são conhecidos como “anglos”.

Como se sabe, bem diferente da nossa era a postura do pessoal que compunha o Raj britânico no que concerne aos nativos. Com certeza que houve excepções, gente que pensava fora do quadro oficial, mas a verdade é que muitos dos que são hoje designados como “anglos” não passam, na realidade, de gente de estirpe lusitana, tal como acontece com grande parte dos a si mesmo designados “eurasiáticos” da Insulíndia. «Seja como for, para os muçulmanos locais todos nós, os católicos, somos “firingis”», refere o meu interlocutor. O padre Gomes admite que as actividades piráticas, mesmo que esporádicas, trouxeram «alguns favorecimentos», dos quais «ficariam também a ganhar os missionários, que assim tiveram acesso a terras onde se estabeleceriam com relativo conforto».

O clérigo bangladeshi desconhece a existência do aventureiro Sebastião Gonçalves Tibau, senhor da ilha de Sandwip, embora confirme que «o apelido Gonçalves é comum na região de Noakhali», que abrange, no fundo, todo o lado leste do delta e ilhas adjacentes, embora juridicamente pertença a Chittagong. De Portugal, sabe que foi a nação que lhe lhes legou o Catolicismo e pouco mais. E admite: «A verdade é que não nos interessa muito os temas de História, embora reconheçamos o pioneirismo dos missionários portugueses nestas terras e, por isso, nos sentimos abençoados por eles. Tudo isso aprendemos nos bancos das escolas paroquiais, desde tenra idade. Só que hoje estamos empenhados e atentos ao que se passa na actualidade». Francis Gomes recorda as dificuldades sentidas pelos novos conversos, pois as famílias sistematicamente os rejeitavam, devido à opção feita. Não esqueçamos que o Hinduísmo tem raízes muito profundas nestas paragens. «Tratou-se de um gigantesco desafio que custaria caro a muitos deles», diz. Alguns pagariam com a vida essa tomada de decisão. Mais tarde, e depois de um período sem a presença dos nossos padres, chegariam os missionários ingleses que retomaram a missão. Apesar do hiato, comenta o religioso: «Sentimo-nos orgulhosos desse nosso elo com os portugueses, só é pena que não haja grande contacto entre as autoridades eclesiásticas dos nossos países». Mas o sacerdote acredita que a situação pode vir a ser alterada, sendo sinal promissor os trabalhos de renovação na igreja de Nossa Senhora do Rosário levados a cabo «pelo Governo português», ou melhor dizendo, pela Fundação Calouste Gulbenkian.

O padre Gomes conduz-nos de seguida a uma sala de reuniões onde pouco tempo depois nos encontramos com o arcebispo Patrick D’Rozario, sucessor de Paulinus Costa, e agora na pré-reforma, que mostra grande satisfação em falar connosco, embora seja de início parco nas palavras. Digamos que a conversa que se seguiu foi um pouco tirada a saca-rolhas. Logo que transpôs a porta de entrada, apercebi-me de imediato das suas feições europeias. Também lhe pergunto se conhece pessoas que reivindicam origem portuguesa. O monsenhor Rozario, tal como fizera Francis Gomes, alega que «tais apelidos foram atribuídos pelos missionários», embora admita a existência de famílias cristãs cuja origem remonta à época da chegada dos primeiros portugueses ao Porto Grande, ou seja, a Chatigão, «e também a Dianga». Isto, em 1537. «Parece que por lá subsistem cristãos originais, muito antigos, que têm algumas conexões com os portugueses», diz, como quem não se quer comprometer. Menciona, a título de exemplo, «a família Pinheiro», e alguns outros que «se afirmam como “anglos”, embora estes tenham chegado muito mais tarde». Em Nagori, «creio eu, região missionada inicialmente pelos dominicanos», o prelado conhece uma família original de portugueses: «os Da Rosa». E vai apontando outros exemplos. Na sua paróquia nativa, «perto de Bakla-Chandrawip e Gird-e-Bandar, conhecida também como Barisal» – para uns a “Veneza do Oriente”, para outros a “Veneza de Bengala” –, nos bancos do rio Kitankhola, o rei local recrutaria, em 1764, quatro portugueses para que desempenhassem o papel de cobradores de impostos. «Consta que o monarca estava com dificuldades de implantar o sistema de taxas nessa região e teria chegado à conclusão que o recrutamento de uns estrangeiros iria resolver o problema, presumindo que estes seriam mais eficientes na tarefa», comenta D. Patrick, esboçando um sorriso. Com os quatro cobradores de impostos chegariam alguns missionários – “os padris”. O local exacto onde tudo isso se passou chamava-se inicialmente Shibpur, mas após o estabelecimento dos clérigos, que ali fundaram uma missão, passou a denominar-se Padrishibpur, ou seja, “a cidade dos padres”. Ora, no decorrer do cumprimento do seu dever, os quatro cobradores portugueses trataram de constituir família, casando-se com mulheres muçulmanas locais que, de imediato, trataram de converter. Na sequência de tão aplicado labor missionário, em breve toda a aldeia se converteria ao Cristianismo.

«Os mais importantes entrepostos portugueses da altura no Golfo de Bengala situavam-se em Chatigão, Dianga e Bakla, a sul de Barisal. E as lutas territoriais tinham como protagonistas quatro grupos: os mogóis, os arracaneses, a gente do reino de Tipura e os portugueses», acrescenta, em jeito de resumo, o nosso bispo, agora com muito mais vontade de falar.

Em 1598, numa altura em que eram senhores de Chatigão e arredores, os arracaneses autorizariam os portugueses a missionar nessas paragens. É nesse contexto que chega à região o padre jesuíta Francisco Fernandes, «um nativo de Espanha ao serviço do Padroado Português do Oriente», que, vítima de terríveis sessões de tortura, cegou totalmente, tendo morrido em cativeiro, em 1614. É, por isso, considerado o primeiro mártir de Bengala. Com ele viajava Andre Boves, também ele martirizado. Seria esse funesto facto que levaria o arcebispo Rozario, em 1998, aos arquivos da Diocese com o intuito de começar a investigar a história dos missionários em Bengala, tendo no processo, é claro, ouvido falar de Sebastião Manrique, «um grande viajante que deixou muitos relatos e cartas», exclama, com um riso de cumplicidade.

«Os missionários eram associados ao colonizador, e tinham, por isso mesmo, alguma má-fama», diz Rozario. «Em 1602 houve até, em Chittagong, uma grande perseguição aos cristãos e como resultado dela pereceriam mais de seiscentas pessoas». Não obstante, o ímpeto evangelizador prosseguiu. Em 1611 chega nova leva de jesuítas. Floresce a Cristandade graças ao esforços dos homens da Companhia. «Eles eram bastante agressivos e com um sentido prático único. Inácio de Loyola esteve no exército e, por isso, todos os seus seguidores têm esse espírito combativo», comenta o arcebispo de Daca, prosseguindo depois com mais algumas das suas memórias – «na minha terra natal, os padres agostinhos portugueses estiveram presentes até 1903» –, e quanto mais o ouço mais me parece familiar aquele rosto. Poderia perfeitamente passar por português. Digo-lhe isso mesmo e ele e ri-se, acabando por confessar: «Investiguei a minha árvore genealógica até à nona geração e descobri mil e 200 nomes. O meu trisavô, por exemplo, chamava-se Paulo e o seu segundo casamento foi com uma mulher muçulmana. Assim, a nossa família é uma mistura de portugueses e muçulmanos, não temos ninguém de origem hindu».

Ao despedir-se, o monsenhor Rozario diz-me que gostava de ir a Lisboa «para continuar a investigar» e aproveita o ensejo para lançar um apelo para que seja recuperada a igreja de Nagori, «duas das suas secções para adoração perpétua e a outra para servir um museu». Sobre a dita, aqui falaremos mais adiante.

Joaquim Magalhães de Castro

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