Jornal O Clarim

Semanário Católico de Macau

JAVA MENOR – 7
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Java Menor – 7

Pimenta e o soldado Pinto

Banten era uma cidade portuária conhecida pela excelência da pimenta ali transacionada, chegando até a rivalizar com Malaca e Macaçar. O trato da apetecida especiaria redobraria de intensidade após a conquista desse porto, e de toda a área circundante, por Sunan Gunung Jati, em 1527, pouco antes das tropas do “wali” guerreiro terem desbaratado os homens de Francisco de Sá em Sunda Kelapa. Contudo, e apesar da derrota aí sofrida, aos portugueses seria permitido uma feitoria onde doravante “invernariam”. Ora, garantem os habitantes de Banten ter sido o entreposto transformado posteriormente numa fortaleza, indicando até o local onde terá existido: junto ao Benteng Speelwijk, o “forte das cinco pontas”. Não há qualquer documento oficial que ateste esta informação, mas a ser verdade não admira que coincida com o forte erigido muito mais tarde pelos holandeses, pois estes sempre aproveitaram as fundações das nossas fortificações para ergueram as deles.

Useira e vezeira passaria a ser a presença de comerciantes lusitanos nos portos de Java. Algures por ali o aventureiro Fernão Mendes Pinto, autor do clássico “Peregrinação”, num desses “invernos”, Janeiro de 1546, seria recrutado pelos capitães do sultão de Sunda, juntamente com outros quarenta portugueses. Mendes Pinto chegara a Malaca após um longo período de peripécias na Birmânia e no Calaminhã, precisamente no dia em que morria o recém-empossado capitão Rui Vaz Pereira. O seu persistente desejo de fazer fortuna, acrescido certamente do vício da aventura, levá-lo-ia a embarcar de novo, dessa feita rumo a Java, pois surgira um novo e promissor negócio: comprar pimenta no porto de Banten, “cabeça do reino de Sunda”, para depois a ir vender nos portos chineses.

Ao saber da presença dos portugueses no seu predilecto embarcadouro, o senhor de Sunda, Maulana Hasanudin, (filho de Sunan Gunung Jati), que era muçulmano e queria impor aos habitantes daquela ilha, maioritariamente hindus-budistas, o novel credo que em breve se alastraria por todo o arquipélago, aliciou-os com avultada soma para que o acompanhassem na sua campanha militar; e eles acederam, juntando-se assim a um numerosíssimo exército. No decorrer dessa campanha, Mendes Pinto percorreu toda a costa norte de Java, de Sunda a Jepara e daí até Pasaruan, na costa leste; na época, um dos últimos redutos hindus do arquipélago. Mendes Pinto, apesar do seu envolvimento directo, condenava essa guerra, lembrando que o rei hindu-budista (de Pasaruan) era “muito benquisto e amado dos seus, porque segundo se dizia dele, era muito liberal e nada tirano”. O motivo da sua participação nessa campanha é bastante claro. Aliás, ele próprio o admite: “porque por isso nos fez muitas vantagens em nossas fazendas”.

Localizada em frente a uma baía e com um diâmetro de cerca de três quilómetros Banten era atravessada por um rio navegável para naus e juncos. Disto nos informa João de Barros, referindo ainda a existência de uma fortaleza com paredes de tijolos de sete palmos de largura, sendo de madeira as restantes estruturas defensivas – aquilo que os portugueses designavam de tranqueira. Diz ainda o cronista português que à principal praça da cidade utilizavam-na para actividades militares e como mercado logo pela manhã. A sul, situava-se o palácio do rei – no topo de uma estrutura elevada, o Srimanganti, tinha Maulana as suas audiências com os súbditos –; e a oeste, a grande mesquita. Na altura em que a visitou Fernão Mendes Pinto a cidade vivia o auge do seu esplendor. Normal era que despertasse a cobiça dos holandeses. Liderados por Cornelis Houtman eles ali desembarcaram em 1596 sob o olhar desconfiado dos portugueses residentes que, como é natural, desejavam evitar a concorrência. Não obstante, houve um casado de Malaca chamado Pero de Ataíde que acolheu o homem forte da Companhia das Índias Orientais, prevenindo-o acerca dos riscos que corria, tanto da parte dos javaneses como das autoridades portuguesas de Malaca.

Houtman passara dois anos em Portugal (basicamente a fazer espionagem) e ao regressar aos Países Baixos levara com ele preciosa informação sobre os mares e as terras do Oriente: a orla costeira, os rochedos e ilhéus, as correntes, os ventos, a época das tempestades, os pássaros que ali voavam, quais os aliados e quais os inimigos com quem contar, enfim, as forças e as fraquezas dos portugueses. Inábil na arte da diplomacia e arrogante de carácter, Houtman foi prontamente rechaçado pelo sultão e viu-se obrigado a levantar âncora sem levar com ele a desejada especiaria.

Joaquim Magalhães de Castro

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