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Fórmula 1 – Época De 2016

Filhos e enteados

Aparentemente o desporto automóvel, incluindo a Fórmula 1, corre desordenado para um colapso que se advinha. Steve O’Donnell, da NASCAR (corridas de “Stock Cars” dos Estados Unidos), gostaria de ver mais pessoas nas bancadas do santuário do automobilismo, o Indianapolis Motor Speedway. No passado fim de semana, para duas corridas desta categoria, estiveram nas bancadas cerca de cinquenta mil pessoas. O estádio alberga mais de 250 mil lugares…

Se olharmos apenas para as imagens das três últimas corridas de Fórmula 1, especialmente para as imagens colhidas pelo helicóptero, poderemos ver as bancadas mais do que semi-vazias, e mesmo os lugares indiferenciados – nas colinas que rodeiam as pistas – apresentam espaços vazios que aumentam de ano para ano. As audiências da televisão e mesmo as vendas de revistas especializadas estão em queda livre. E porquê, poder-se-á perguntar.

Podemos tentar encontrar respostas nas afirmações de alguns pilotos, no final de corridas recentes. No passado fim de semana, na Hungria, na última volta da Q3 (terceiro período das provas de qualificação para a grelha de largada), Fernando Alonso fez um meio pião e o carro ficou quase totalmente fora da pista. As bandeiras amarelas foram mostradas e os carros desaceleraram, perdendo a oportunidade de alcançar um bom tempo qualificativo. No entanto, cinco ou seis carros que vinham mais atrasados e que encontraram a pista já desimpedida, embora as bandeiras amarelas continuassem desfraldadas, não diminuíram a velocidade, conseguindo melhores tempos. Kimi Raikkonen e Lewis Hamilton foram dos que mais falaram contra as reacções dos comissários. Raikkonen chegou mesmo a perguntar: «Para que temos regras, se os comissários podem decidir “aqui tudo bem” e “ali tudo mal”? Os comissários – ou as pessoas que decidem como as coisas se passam – têm reacções diferentes. É uma piada, sabem?».

Hamilton reclamou do facto dos comissários não terem desqualificado os tempos da meia dúzia de pilotos, entre eles Nico Rosberg, que estabeleceu a “pole position” nessa mesma volta.

Durante a corrida, a andar muito mais depressa do que o “garoto maravilha”, Max Verstappen, o campeão do mundo Raikkonen não conseguiu ultrapassar o piloto holandês, que andou com o carro de um lado para o outro da pista, em duas ou três manobras sucessivas, o que viola as regras de defesa de posição, no que é conhecida pela regra “de um movimento”. Por duas vezes o piloto finlandês da Ferrari esteve muito próximo do acidente, em resultado de Verstappen lhe ter “fechado a porta” de forma incorrecta. Numa das ocasiões Raikkonen saiu da pista, já depois de ter perdido parte da asa dianteira num toque com o Red Bull de Verstappen. Para surpresa de todos, acabou Raikkonen admoestado pelos comissários, por ter saído da pista por três vezes.

Outro piloto a criticar as novas regras, desta vez em relação às comunicações via rádio – já fizeram Rosberg perder uma posição no final da corrida de Inglaterra – foi Jenson Button, sendo que muito mais se espera nas próximas corridas.

O facto dos pilotos serem umas vezes penalizados e outras desculpados pela mesma infracção está deixar marcas na relação entre os pilotos, e entre estes e os comissários. Os que passam incólumes são “filhos”, os que sofrem castigos são “enteados”.

Muitos comentadores já brincam a fazer apostas para ver quem acerta nas novas regras a serem introduzidas na corrida seguinte. O espectador não gosta, o telespectador não gosta, o leitor das revistas especializadas não gosta. As cadeias de televisão, por sua vez, tentam atrair os telespectadores mais ou menos desiludidos, oferecendo-lhes novidades, como a transmissão de corridas de GP2, que fazem parte dos programas de apoio das corridas de Fórmula 1, corridas locais ou outro tipo de desportos motorizados. A Fórmula 1, essa, nada ganha com isso.

O próximo Grande Prémio disputa-se este fim-de-semana na Alemanha, no Circuito de Hockenheim, construído em 1933 como pista de testes da Mercedes Benz. Depois da guerra, embora não fosse muito usado, ficou famoso pela pior razão. Em 1968, Jim Clark, piloto britânico da Lótus, campeão do mundo de pilotos, morreu num acidente – ainda hoje envolto em polémica e em algum mistério – numa corrida de Fórmula 2. Dois anos mais tarde o traçado foi melhorado com as especificações para a categoria maior do automobilismo. Viria a ser totalmente redesenhado em 2002, desaparecendo as longas curvas no meio da floresta. É terreno predilecto da Mercedes, mas pode ser lugar propício ao renascimento da Ferrari, com a Red Bull, e mesmo a Force India, a tentar dar um ar da sua graça.

Segue-se o Grande Prémio da Bélgica, a 28 de Agosto. Situado nas Ardenas, o Circuito de Spa-Francorchamps é o mais longo da actual Fórmula 1. Inaugurado em 1924, com quase quinze quilómetros por volta, é considerado um dos mais perigosos circuitos citadinos de sempre, se bem que parte que abrange a cidade seja muito pequena. Hoje tem pouco mais de sete quilómetros. Com um estranho microclima, não é raro que numa parte do circuito chova e no resto esteja um dia lindo de Sol. É propício aos carros mais rápidos. Aqui a velocidade manda.

A 4 de Setembro será a vez de Monza. Um circuito tradicional, usado desde o início das corridas de carros de Grande Prémio, em 1922. A pista passou por muitas transformações até ao formato actual, que dura desde 1994. Foi alterado para reduzir a velocidade máxima, naquele que era até este ano o circuito mais veloz da Fórmula 1. A aerodinâmica é mais importante do que o “efeito solo”. Qualquer uma das quatro grandes – Mercedes, Ferrari, Red Bull e Force India – pode ganhar.

Manuel dos Santos

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