Católicos de Singapura dão testemunho de “unidade e esperança”
A visita do Papa Francisco a Singapura, entre 11 e 13 de Setembro, foi sentida com especial emoção pelos católicos da cidade-Estado. O CLARIM falou com quatro leigos, tendo todos eles manifestado surpresa pela deslocação do Santo Padre a um dos países mais pequenos do mundo, com a particularidade da maioria da população não professar a religião católica.
Theodore Yzelman, representante da paróquia de São Miguel, era o exemplo da alegria que os católicos de Singapura foram manifestando nos três dias da visita do Papa à cidade-Estado. «Fiquei surpreendido com a vinda do Papa Francisco a Singapura. Afinal, somos um país pequeno e no Sudeste Asiático a fé católica não é dominante. É algo raro sermos visitados por um Papa. Represento uma paróquia, a de São Miguel, que é uma das mais pequenas do País, com pouco mais de dois mil paroquianos. Tanto quanto sei, muitos jovens locais (de um modo geral), incluindo muitos não paroquianos, embora não possam assistir a todos os eventos ao vivo, estão muito interessados na visita do Papa. Vi-os partilhar muita informação nas redes sociais, o que mostra que estão empenhados no evento, o que é uma espécie de evangelização», disse na ocasião.
No entender de Jenny Joan Lee, uma das voluntárias da organização da visita do Papa, a presença de Francisco revestiu-se de especial significado: «Como todos sabemos, Singapura é um país muito diversificado. Para além da diversidade cultural, há também a diversidade religiosa que está no centro da nossa unidade nacional. Pessoalmente, fiquei muito sensibilizada porque a sua presença foi como uma afirmação para os católicos e para o Governo de Singapura; foi como se nos dissesse: “Estamos todos no caminho certo”. Especialmente num mundo caótico como o de hoje, estou convencida de que nós [Singapura] podemos ser um modelo para todas as nações viverem juntas em harmonia e unidade».
Questionada de que forma Singapura pode ser um modelo para o mundo na esfera religiosa, Jenny respondeu: «Penso que começa com o indivíduo, connosco próprios. Nasci numa família católica, mas também tenho familiares que são muçulmanos. Contudo, respeitamo-nos mutuamente e abraçamos a fé uns dos outros».
No que respeita à acção evangelizadora que também assiste aos leigos, foi peremptória: «Estou convencida de que a conversão não passa pelo nosso “dizer Jesus” (palavras), mas pelo nosso “ser Jesus” (acções). Eu nem sequer uso uma cruz junto do meu corpo, não porque não ame Cristo, mas porque penso que não preciso de usar uma cruz para dizer às pessoas que sou católica e que acredito em Jesus. É por meio das minhas palavras e acções que as pessoas precisam de ver Jesus, sendo que as acções falam mais alto do que as palavras».
Jenny está encarregada pela educação de doze crianças, às quais se refere como os seus «filhos adoptivos». A todos espera transmitir «espírito de unidade»: «Recebi estas ideias dos meus avós. Estou na casa dos cinquenta anos de idade e tenho doze “filhos adoptivos”. Espero transmitir-lhes espírito de unidade. Metade está na casa dos vinte e poucos anos de idade e está a iniciar-se na sociedade, enfrentando todo o tipo de desafios (grandes e pequenos). A visita do Papa dá-lhes esperança, uma oportunidade para pararem e pensarem no que é mais importante nas suas vidas, e para recuperarem a verdadeira esperança no meio dos desafios e das dificuldades».
Gabriel parece querer ser acólito. Desde sempre que não consegue tirar os olhos da batina dos acólitos. Aos pais, perguntámos como conseguiram fomentar tal paixão pela fé. «Apesar de ser criança, já parece querer ser acólito. Pensamos que o mais importante é deixá-lo crescer na comunidade certa. Esperamos que possa estabelecer primeiro uma relação com Deus, e que Deus o conduza na direcção correcta. Todos os dias participa na Santa Missa e passa algum tempo em oração diante do Santíssimo Sacramento. O Gabriel tem apenas três anos de idade, mas tomou a iniciativa de nos pedir para participar na missa diária no último ano; foi ele que nos aproximou de Deus enquanto casal. Costumávamos participar na Missa durante a semana, mas com a chegada da epidemia deixámos de o fazer. Podemos afirmar que foi o nosso filho que nos fez retomar a missa diária. A sua perseverança deu-nos, indirectamente, mais motivação, porque sabemos que a Fé é o mais importante e queremos continuar a transmiti-la ao Gabriel».
Confrontados com o facto de 2024 ser o Ano Vocacional da Diocese de Macau e da discussão sobre a melhor forma de educar as crianças na fé ser um dos tópicos sempre discutido por sacerdotes, catequistas, pais e encarregados de educação, os pais de Gabriel revelaram que rezam para que o seu filho «possa responder com alegria, se vier a sentir o chamamento de Deus»: «Só podemos estar ao seu lado para o apoiar e educar, e esperamos que ele aprenda realmente a discernir seriamente ao longo do caminho. Não queremos que fique confuso ou tenha quaisquer ideias erradas. Daí não perguntarmos nem ditarmos o que ele deverá fazer; pelo contrário, damos-lhe conselhos e acompanhamo-lo em todas as escolhas que faz. Ao mesmo tempo, rezamos sempre por ele».
Médico psiquiatria, Lee Sze Ho aceitou responder acerca do significado que atribui à visita do Papa Francisco a Singapura: «Senti-me honrado por tido a oportunidade de ver o Papa Francisco pessoalmente; também acompanhei a minha mãe, o que teve um significado mais profundo. Tem 86 anos – é um ano mais nova do que o Papa –, pelo que a presença do Papa tem um significado especial. Agradeço à Igreja por a minha mãe ter tido a oportunidade de ver pessoalmente o sucessor de Pedro, que nos trouxe a mensagem de Jesus e uma mensagem de paz. Foi um acontecimento raro. A presença do Papa fez-nos lembrar que o homem é feito de corpo e alma, e que a vida não passa de uma peregrinação na terra».
Lee Sze Ho sublinhou que tem como vocação «salvar os doentes do sofrimento mental e dos desertos espirituais. A minha fé em Jesus ajuda-me a compreender que sou um instrumento da Sua cura e que o diabo tudo fará para destruir esta obra e esta paz. Como médico, sigo a ética profissional, não sou curandeiro espiritual. No caso dos doentes cuja fé é uma fonte de conforto quando se encontram em sofrimento, encorajo-os a procurar acolhimento na sua respectiva fé. Estou convencido de que Deus fala a toda a gente de forma diferente. Só preciso de fazer a minha parte e Deus fará tudo o que for necessário».
A concluir, o psiquiatra reflectiu sobre o tema da visita do Papa “Unidade e Esperança”: «Todos nós precisamos de esperança para sobreviver, para nos mantermos positivos, para nos mantermos optimistas e para nos lembrarmos de que, quando eu, a minha mãe e a minha família deixarmos este mundo, haverá ainda uma vida eterna à nossa espera. A esperança, mais do que qualquer outra coisa, é o que nos torna humanos e, na minha perspectiva de psiquiatra, a esperança é o que mantém as pessoas vivas e as impede de desistir. Por isso, agradeço e louvo a Deus pelo dom da fé e da esperança».
Jasmin Yiu em Singapura