Natal em Saint-Louis

Costa da Memória

Natal em Saint-Louis

Que mais posso dizer sobre Saint-Louis? Que ali passei as passas do Algarve, ardendo em febre e cuspindo parte da finíssima areia do deserto acumulada nos pulmões a ponto de provocar sangue, tentando tudo para a debelar, desde inúteis xaropes a um bizarro tratamento natural à base de manteiga de amendoim recomendado pelo guarda da pensão onde fiquei alojado mas que se revelou, tal como suspeitava, ineficaz. Contra uma rinite nada como um bom anti-histamínico. Teria de esperar por Dakar, e um médico decente, para chegar a essa conclusão.

É claro que durante o dia a tosse amainava e permitia-me uma existência quase normal, podendo, por isso, apreciar as mais representativas amostras de arquitectura colonial ali existentes, fossem elas as câmaras do burgo – a municipal e a do comércio – a antiga residência do governador, o Hôtel de la Poste ou a Igreja Matriz, datada de 1828, a mais antiga do Senegal. Nas paredes dos edifícios predominavam o amarelo-torrado e o ocre, aqui a ali manchados com grafites e cartazes políticos, pois vivia-se o período eleitoral, embora houvesse quem apelasse ao «boicote para salvar a democracia». O Partido Socialista Senegalês, com idêntica sigla à do congénere português, era, sem grandes surpresas, a força política mais visível e actuante. Discretos, apesar do significativo número de residentes muçulmanos, os minaretes das mesquitas pareciam espreitar a medo por entre esquinas do casario. Afinal, foi devido à sua arquitectura singular, e quiçá por ter sido capital do Senegal, que Saint-Louis consegue hoje arvorar o título de Património Mundial.

As placas toponímicas azul-escuras com os nomes das ruas, como em França, o aviso na porta “atenção cão muito mau”, e uns quantos canhões avulsos (por vezes cimentados ao chão) eram sinais da presença europeia, deste e de outros tempos. Já a Rua Flamenga, as informações em Hebreu – sinal de mochileiros israelitas – e o restaurante vietnamita La Saigonese, com terraço com vista para o rio e preços europeus, reclamavam algum tipo de cosmopolitismo. Empresarial, entenda-se, pois também sobejava para a cooperação internacional, com a França e o Luxemburgo a liderar a anunciada campanha de vacinação contra a febre-amarela, por vezes mortífera naquela região.

Autóctones, sem margem para dúvidas, os seguintes quadros: os bolos caseiros na montra da Padaria Mama Ngone; um par de cabras atadas a um poste junto às peles ainda ensanguentadas de outros tantos mais desafortunados animais da sua espécie; marabouts gravados no tronco das árvores ou simplesmente pintados nos muros. Dotados de poderes divinatórios e curativos, os marabouts, os “morada aberta” lá do burgo, misto de feiticeiros e sufis, são imensamente respeitados (e temidos) pela comunidade, que, a troco de bênçãos e evocação dos temidos espíritos, os jins, os cobre com todo o tipo de benesses.

Mas falemos de outro tipo de ofertas, dessas para excursionista se entreter. Pesca desportiva, baladas em catamaran e, claro, piscina e esplanada do Bar Flamingo, onde, embalado por toadas jazz, apanhei um valente resfriado que agravou consideravelmente o meu estado de saúde. Esquecera-me que as noites de Dezembro são frias naquela latitude. Curioso. Saint-Louis emprestou o nome à cidade americana que viria a transformar-se numa das capitais do jazz do Novo Mundo, e esta, como contrapartida, transferiu para África esse imortal género musical. Vultos como Mac Coy Tyner e Jack De Johnette, em destaque num folheto da edição de 1995 afixado na parede, foram já figuras de cartaz do festival que ali se realiza anualmente. Falando de outras músicas e de outros restaurantes, escutemos, por favor, os talentosos executantes de kora fazendo pela vida junto às mesas dos turistas mais aventureiros e menos comodistas. A qualidade das suas interpretações impressionava o mais duro dos duros de ouvido.

Durante as minhas deambulações pelas ruas paralelas e perpendiculares que dão à ilha de Saint-Louis o aspecto de uma raquete quadrangular, fiquei surpreendido com a quantidade de angolanos, guineenses e cabo-verdianos convivendo entre os senegaleses, alguns deles mestres na arte da burla. Relato-vos apenas um dos múltiplos estratagemas utilizados. Certa ocasião, estando eu a fotografar umas crianças, divertidíssimas com o facto, fui interpelado por um indivíduo com ar de caso que me veio com a conversa de que não as podia fotografar pois eram seus filhos. No entanto, se lhe passasse para as mãos uns quantos francos CFA, a autorização era imediatamente concedida. Os miúdos em questão, coitados, limitaram-se a permanecer calados, decerto intimidados pela presença do meliante.

Atravessada a Mustapha Malick Gaye, pequena ponte que liga a ilha ao istmo da Barbaria, uma outra realidade se materializou. Nessa finíssima península, a aldeia de pescadores Guet N. Dar partilhava o espaço com um dos areais mais sujos do planeta. Tive de caminhar pelo menos um quilómetro em direcção a sul para encontrar, aí sim, belas praias.

Farta a pescaria nessas águas, tal como as da Mauritânia. Todas as manhãs, duas centenas de pirogas faziam-se ao mar, regressando ao fim da tarde com a presa pronta a ser enfiada em camiões-frigoríficos rumo a Dakar e a outros destinos mais ou menos distantes na Europa. Talvez por isso não me surpreendeu o seguinte dístico incrustado num contentor: “Dibáscula, carroçarias e contentores metálicos, Braga”.

Joaquim Magalhães de Castro

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