A sombra dos salafitas

Costa da Memória

A sombra dos salafitas

«– Não tenho dúvidas de que o cancelamento do Lisboa-Dakar teve a mão do Sarkozy», afirmava semanas depois do atentado mencionado na crónica da semana passada (estava eu já no Senegal) Rene, um marselhês que, depois de reformado, decidira viajar e escrever livros. Outras razões, que não a simples segurança de cidadãos europeus, teriam justificado a anulação de tão relevante acontecimento desportivo (também por aqui se falava em negócios de petróleo). O certo é que, a haver jogada, o Presidente francês arriscava-se a ver descer ainda mais a sua popularidade entre os africanos, que não lhe perdoavam a sua política anti-imigração. Isto, apesar da postura de Sarkozy ao lado dos líderes africanos (mormente de Wade, chefe do Estado senegalês) na recusa dos acordos de parceria económica propostos pela União Europeia na Cimeira de África recentemente ocorrida em Lisboa.

«– Chirac, pelo contrário, era um líder bastante popular», recordava Rene. «– Na fronteira, durante as minhas primeiras visitas à região, quando mostrava o passaporte, polícias e militares até me batiam a continência».

Nesse mês de Dezembro, a escalada de violência na Mauritânia agravar-se-ia com um novo atentado, desta feita no norte do País, contra instalações militares, do qual resultaria a morte de três soldados. Nove pessoas acabariam por ser detidas, já em Janeiro, precisamente em Aleg, suspeitas de terem ajudado os atacantes que assassinaram os turistas franceses. Entre elas encontrava-se Mohamed el Moustapha Ould Abdel Kader, apontado como “um extremista ligado às redes salafitas”. Alegadamente teria vendido o automóvel utilizado pelos operacionais e organizado a sua fuga de táxi e canoa pela fronteira fluvial até ao Senegal. Este país fora, aliás, a pista seguida pelos agentes secretos gauleses que culminara com a detenção, no aeroporto de Bissau, a 11 de Janeiro do ano seguinte, de dois dos autores do crime quando estes se preparavam para embarcar para a Guiné-Conacri e dali para a Argélia. Um primeiro interrogatório confirmou o que se temia: não mostraram o mínimo remorso, pois “limitaram-se a matar infiéis”. Ou seja, gente sem santidade. Um ponto de vista tipicamente salafita.

Após o atentado de Aleg, as autoridades mauritanas vieram a terreno garantir o reforço das medidas de segurança nos locais turísticos, classificando o incidente como “uma anomalia”. Em causa estava um decréscimo radical no número de visitantes devido ao cancelamento de grande parte dos voos charter que na época alta (de Novembro a Maio) levam semanalmente ao planalto de Adrar centenas de europeus em busca do exotismo do deserto. Esses grupos organizados constituem uma fonte de receitas bem mais relevante do que a produzida pelos “independentes” que percorrem as estradas e as pistas com furgões adaptados ou jipes topo de gama.

O ataque aos turistas franceses, que inicialmente se pensava ser de bandidos, foi atribuído a um suposto ramo da Al-Qaeda, o Magrebe Islâmico, ex-Grupo Salafita para a Prédica e Combate que iniciou a sua actividade em Janeiro de 2006 e foi responsável pelo atentado que atingiu as instalações em Argel do Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, e, antes disso, pelo rapto de um grupo de turistas alemães no sul da Argélia. Este movimento radical opõe-se a um Estado secular e é particularmente hostil para com o Estado francês devido ao seu passado colonial na região.

Nada indicava que os seguidores do pensamento salafita se tornassem militantes fundamentalistas, mas a possibilidade estava lá. Pois, na perspectiva de um salafita radical a vida de um descrente não tem qualquer valor uma vez que está “desprovida de santidade”. Os salafitas-jihadistas, que após os atentados às torres gémeas de Nova Iorque tinham iniciado um novo calendário, cumpriam, contudo, um pacto de segurança que os impedia de se envolverem em ataques terroristas no País onde residiam legalmente. Existia ainda um fenómeno novo: nunca houvera tantas conversões como depois do 11 de Setembro.

Apesar dos trágicos acontecimentos, no Thorn Tree, fórum de discussão da conhecida editora de guias de viagem “Lonely Planet”, continuavam a chover pedidos de informações acerca da Mauritânia por parte de viajantes independentes, havendo quem aconselhasse a colocar um turbante na cabeça e a não falar Francês “para não encaixar no perfil dos estrangeiros assassinados”. Os visitantes motorizados atravessavam agora o País em comboios de cinco e seis veículos. Em Portugal, os jornais anunciavam que um biólogo da Universidade do Porto iria investigar os crocodilos nas montanhas de Taganat, no sul do País, pois o deserto foi outrora terra fértil e, muito antes disso, um imenso mar. E para maioria dos estrangeiros na Mauritânia, como no mar, havia ir e voltar.

No dia seguinte, Alain Jaspard e companhia partiram para o Burkina Faso. E eu fiquei mais uns dias, pois queria visitar o Adrar, região habitada desde o Paleolítico, ou seja, há seiscentos mil anos.

Felizmente era para lá que se dirigiam outros dois franceses, o Fabien e o Auguste, com um Saab alugado. Sem quaisquer reservas, aceitaram de imediato o meu pedido de boleia, recusando liminarmente qualquer tipo de contribuição monetária para aligeirar as questões financeiras da viagem. Ambos eram engenheiros numa central atómica no centro de França. As sempre polémicas questões acerca dos benefícios e malefícios do uso da energia nuclear foram, inevitavelmente, tema predominante na nossa conversa.

Lá fora, a costumeira paisagem. Cáfilas de camelos, raros e rasteiros arbustos e as ocasionais colinas que, de tão inesperadas, pareciam artificiais. E ainda carros espatifados nos sítios mais estapafúrdios, barracas de lona (como as da praia) e metal onde se acomodavam os arreliadores agentes da polícia.

Joaquim Magalhães de Castro

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