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O alerta de Salama
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O alerta de Salama

Dakhla pareceu-me uma cidade demasiado ordenada e limpa para poder encaixar nos padrões marroquinos. Sentia que algo ali não batia certo, antes mesmo de ser confrontado com o seu excessivo contingente militar. A uns oito quilómetros do centro, um posto da polícia, e mesmo ao lado um parque de campismo. Ali se instalavam muitos dos viajantes, em tendas ou quartos disponíveis, dispensando assim a visita à cidade, pois, para eles, Dakhla era sinónimo de transporte para a Mauritânia, até porque no “camping” havia a possibilidade (se bem que remota) de arranjar boleia num jipe ou auto-caravana dos aficionados da pesca e do deserto puro e duro.

Para todos os destinos a sul de Dakhla não existia qualquer tipo de transporte público, passando esse serviço a ser feito por furgonetas e automóveis de negociantes mauritanos. E como estes precisavam de uma licença especial (e custosa) para entrar na cidade, optavam por estacionar ali as suas viaturas, seguindo de táxi até às imediações do Hotel Sahara e similares, onde ficavam alojados e tratavam de encontrar passageiros que os acompanhassem na viagem de regresso ao seu país. Isto em troca, é claro, de uma boa maquia. Normalmente trinta euros. Uma enormidade, tendo em conta a distância percorrida: pouco mais de quatrocentos quilómetros.

Não existe um centro histórico em Dakhla e menos ainda uma almedina, embora haja notícia dos portugueses ali terem construído uma fortificação. Tradição bem expressa nas muralhas de um enorme aquartelamento militar. As janelas dos torreões são de um manuelino kitsch que não deixa margem para dúvidas.

Deparei também com traços da época colonial espanhola, quando Dakhla se chamava Villa Cisneros, como é exemplo a Pension Manuel, que além de alugar quartos servia tapas e “otros platos españoles”. As mulheres sarauís, de vestes coloridas, destacavam-se pela sua beleza e pareciam mais emancipadas do que as mulheres das regiões rurais marroquinas.

Essa noite voltei a encontrar Rafael, o motociclista brasileiro de Rabat (já o tinha visto em Bojador, cuja relevância histórica desconhecia) e foi na sua companhia que fui ter com o sarauí Salama, cumprindo assim o que ficara prometido.

Salama convidou-nos para comer um tagine, mas como já tínhamos jantado sugeriu então que a nossa conversa decorresse num espaço discreto. A esplanada do Restaurante Samarcanda, junto ao mar, pareceu-lhe um bom local. E se no nosso primeiro encontro ele se mostrara reservado – ao contrário do velho de turbante, seu companheiro de viagem – ali, em Dakhla, sua terra natal, a enorme vontade que tinha de falar da questão do Saara Ocidental levou-o directo ao assunto.

«– Somos uma minoria no nosso próprio país, mas sei que não estamos esquecidos», dizia ele, olhando em todas as direcções, visivelmente nervoso. Salama começou por mencionar as aldeias de pescadores vazias. «– A vocês, estrangeiros, dizem-lhes que estão em período de reserva biológica, mas a verdade é que os habitantes jamais voltarão, pois, se o fizerem, serão discriminados, mal pagos e considerados cidadãos de segunda na sua própria terra».

Salama tremia das mãos e não deixava de olhar em redor, quando, a seguir, apontava como exemplo a aldeia onde nascera, hoje inteiramente habitada por militares. Lembrava ainda que, em 1975, o exército marroquino recorreu ao napalm para fazer desaparecer algumas delas, disparando de aviões sobre civis que corriam em pânico num cenário que lembrava as tristemente célebres imagens do Vietname. Também ali foi atirada gente ao mar a partir de helicópteros, «ao bom estilo de Pinochet e Videla», especificava Salama, dando a entender que estava a par da história da América Latina.

Funcionário público de profissão, o sarauí queixava-se de ter sido outrora obrigado a deixar os estudos, e agora, «como se não bastasse», queriam que rescindisse o seu contrato de trabalho. A ideia era, aparentemente, substituírem-no por um marroquino.

«– Tentam a todo o custo que nos desmotivemos e abandonemos o País, para que assim eles se possam instalar à vontade», dizia.

«– O Governo envia para aqui muita gente só para fazer número e até há quem seja pago para isso».

O ambiente entre uma e outra comunidade era, sem surpresa, de desconfiança mútua. Não se estabeleciam laços de amizade com marroquinos, pois «qualquer um deles pode ser um informador da polícia». Por isso mesmo «estão fora de questão os casamentos mistos».

A conversa decorria em Francês, mas cada vez que alguém passava, ou o empregado trazia algo à mesa, Salama expressava-se em Castelhano, receando ouvidos indiscretos capazes de entender os seus desabafos.

Muito embora os independentistas gostem de citar uma frase proferida por um certo espanhol que em Villa Cisneros viveu durante a época colonial – «como querem que eu compare um sarauí a um marroquino, se diferem um do outro como o ovo difere da castanha» – a verdade é que, à primeira vista, o forasteiro dificilmente os distinguirá. São, fisicamente, muito parecidos.

Joaquim Magalhães de Castro

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