O olhar de Zurara e Barros

Costa da Memória

O olhar de Zurara e Barros

Há uma forte probabilidade de Chtoukane ser a Angra dos Ruivos de que nos fala Zurara e outros cronistas, pois fica “a 30 léguas do Bojador”. Normalmente, identifica-se a Angra dos Ruivos com uma tal Garnet Bay, que não consegui encontrar nos mapas consultados, nem ninguém por ali se mostrou familiarizado com o nome.

Em 1435, um ano após a passagem do Bojador, Gil Eanes e Afonso Gonçalves de Baldaia seriam os primeiros europeus a atingir este ponto na costa. Aqui desembarcaram e logo trataram de explorar o terreno, tendo encontrado traços de caravanas de árabes. “Àquele local”, escreve João de Barros, “chamaram a Angra dos Ruivos, por ali terem feito grande pescaria deles”.

Só entrando no domínio da especulação se pode supor que, “doze léguas mais sul”, a angra que presenciava fosse a Angra dos Cavalos, onde os dois navegadores – numa outra viagem, em 1436 – encostaram os navios “onde a terra lhes pareceu chã e descoberta” e desembarcaram os dois cavalos que um jovem de quinze e outro de dezassete anos utilizariam para fazer uma incursão no “sertão branco”, como lhe chamavam alguns. Deu-se, então, o primeiro encontro com os naturais da terra. Os quase adolescentes travaram escaramuças com “dezanove berberes de azagaias em punho” e regressaram ao barco “onde foram recebidos com grande festa e honra, de que eles eram merecedores”. Em sua memória, o local seria baptizado Angra dos Cavalos.

Os portugueses estabeleceram povoados nos locais mais improváveis, que não tive oportunidade de confirmar porque a estrada ora se aproximava, ora se afastava da costa, raramente permitindo que se pudesse apreciar o areal.

Faltavam ainda 175 quilómetros para Dakhla quando deparámos com uma magnífica paisagem inteiramente composta por desfiladeiros, resultado do serpenteado dos rios de outrora, hoje leitos secos referenciados nos mapas a tracejado azul. Também ali a vida se concentrava nos pequenos tufos de erva. Depois dessas angusturas o deserto passava a ser um imenso campo de futebol pelado. Até que, como num passe de magia, surgiam novos blocos de apartamentos em cimento de construção recente. Um bairro inteiro – pode dizer-se – se bem que não se vislumbrasse vivalma. Esse, um outro tipo de aldeia-fantasma, destinada aos colonos que ali se instalariam, efectuado o devido recenseamento. Marrocos acautelava-se assim para o dia em que houvesse um referendo sobre o território, algo de pouco provável.

Eis-nos de novo junto à costa em mais um promontório onde pedaços de falésias cor-de-rosa se desmoronavam lentamente, quais placas de cimento de uma cidade após um terramoto. O mar, ao fundo, era um enorme espelho, reflectindo a luz do Sol em todas as direcções. Antes de entrarmos na lingueta-península de 45 quilómetros que nos conduziria a Dakhla, avistei mais uma aldeia-fantasma com dezenas de barcos de pesca alinhados na praia. Logo a seguir, novo aglomerado habitacional de aspecto moderno, esse aí exclusivamente destinado aos militares e às suas famílias.

Imaginei as caravelas, ao largo, em busca de angras que lhe permitissem desembarcar para fazer aguada. Ou melhor ainda, para transpor a tão desejada porta de entrada do caminho marítimo para a Índia. Ignorava-se ainda a distância e as décadas que os separavam desse desejo colectivo.

Gonçalves Baldaia veio até à foz de um rio que acreditava ser o mítico Rio do Ouro mencionado pelos árabes e cuja localização geográfica foi variando ao longo dos séculos, mas que na realidade correspondia ao actual rio Senegal, algumas centenas de quilómetros a sul.

Rio do Ouro passou a ser, pois, o nome do local onde se ergue a cidade de Dakhla, embora fosse pouco significativa a quantidade do precioso metal aí transaccionado. Escrevia, a esse respeito, João de Barros: “E uma quantidade de ouro em pó que foi o primeiro que nestas paragens se resgatou, donde ficou a este lugar por nome Rio do Ouro, sendo somente um esteiro de água salgada que entra pela terra dentro obra de seis léguas”.

O cronista chamava ainda a atenção para os lobos-marinhos, garantindo que havia ali “cerca de cinco mil”, dos quais “mataram boa soma de que trouxeram as peles, por naquele tempo ser coisa muito estimada”. Iniciava-se, assim, a primeira de várias actividades comerciais – no caso do mamífero citado, levaria à sua quase extinção, já no século XX. Seguir-se-ia a caça ao ouro e aos escravos.

Após a pescaria, Baldaia e os seus homens continuaram a subir a enseada, que na altura se acreditava ser um rio, até depararem com uma ilha interior que ao longe se assemelhava a uma barca. Chamaram-lhe, por isso, Pedra da Galé. Ainda hoje assim é conhecida. Juntamente com as peles de focas, Baldaia levou para o reino pequenas redes de pesca feitas de casca de vidoeiro, comprovativo de que os homens do deserto buscavam também sustento no mar.

Hoje em dia, a extremamente ventosa baía que “fecha” o Rio do Ouro é um dos destinos favoritos dos praticantes de “windsurf” e “kitesurf” de todo o mundo. Chamam-lhe, simplesmente, quilometro 45, e não há aí qualquer povoação, tão-só um “camping” permanente e muitas auto-caravanas e jipes. E deslizando sobre as águas, dezenas de velas triangulares comandadas por homens e mulheres equilibrados em cima de pranchas. Não deixava de ser estranho vê-los praticar tal desporto em pleno deserto.

Joaquim Magalhães de Castro

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