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Massa e Santa Cruz

Despedi-me de Mogador com um último olhar às duas “torres de Belém”, sem deixar de reparar numa sinalética metalizada que propunha passeios e aventuras em “quad” – aborto de veículo, destruidor de dunas e ameaçador da tranquilidade das aves marinhas.

Até descermos por completo o planalto, antes de reencontramos o oceano, progredimos numa paisagem dominada por uma árvore autóctone: a argânia. Consta que só existe em Marrocos e na Argentina. Planta agreste, espinhosa, resistente às secas mais temíveis, a sua origem remonta aos tempos pré-históricos. Da sua noz, que é comestível, extrai-se um óleo com o qual se faz creme para a pele. Eram quilómetros e quilómetros quadrados de terrenos pejados com essa árvore, de tal forma popular que os locais dão frequentemente o seu nome a restaurantes e hotéis. Cabras empoleiradas nessas árvores de baixo porte, seguramente a cena mais característica, e engraçada, dessa paisagem.

«– No fundo, poupam trabalho ao agricultor», elucidava o meu companheiro de viagem. «– Comem as nozes e este limita-se a recolhê-las, intactas, dos seus excrementos secos».

De novo, similaridades com o sul de Portugal: jumentos e pequenas aldeias dominavam, a par com as argânias, o terreno ondulado.

Uma vez mais surgiram palmeiras, aqui e acolá, verdadeiras intrusas num panorama mais apropriado ao anti-Atlas. Deixamos para trás, lá para a costa, o cabo Sim. Mas que nome! Certamente de origem portuguesa, e, presume-se, por oposição ao cabo Não.

Junto à aldeia de Sminou nova aglomeração de argânias, ainda com folhagem ou completamente secas, mas sempre resistentes. Seguiu-se Tamanar, um vale onde pela primeira vez se avistou terra cultivada. Em casas cor-de-rosa funcionavam restaurantes que serviam bons petiscos a quem se sentasse nos seus terraços virados para os bananais a perder de vista.

Na camioneta sem ar condicionado as cortinas permaneciam corridas e os vidros fechados. Perguntava-me: como conseguirão viajar durante os meses de Verão?

Viria a saber, horas depois de constantes solavancos e curvas e contracurvas, que a carreira tinha como destino final Tan Tan, já no Saara Ocidental.

Chegados à costa – o mar era a referência niveladora – eis de novo grupos de ondas vergastando a pedra, viradas ligeiramente a sul. De início não vi areal, apenas rochedos. Momentos havia em que a estrada roçava a água, antecipando o dia em que a P8 terá forçosamente de mudar de trajecto. Juntinho ao mar, carros estacionados, pescadores em cima de penhascos e, uns quilómetros adiante, prospectores de petróleo, como os que tinha presenciado na estrada de Safim a Essaouira.

Ao longe, a aldeia piscatória de Imessouane, internacionalizado palco de competições de surf. Alguns barcos de pesca e um bloco de apartamentos em construção, pouco mais do que isso se resumia a aldeia de Tamri, antecedendo o cabo Rhir e o seu farol. A vista para sul impressionava: areais e baías com óptima ondulação. E os surfistas não se faziam rogados. Lá estavam, junto das famílias de marroquinos merendando à borda dos penhascos ou na areia dura da praia. As auto-caravanas nas arribas com as pranchas nos tejadilhos revelavam uma comunidade em permanência na zona. O local é perfeito, não fosse o lixo que continuava a marcar presença. Odiosos sacos plásticos pretos presos às espinhosas argânias, que aqui, finda a sua circunscrição botânica, são já praticamente arbustos.

Tarhazoute. Mais um reduto de surfistas, desta feita com abundância de apartamentos para alugar. Eram mais os praticantes na praia do que nas ondas, pois o mar não estava lá muito de feição.

Um pouco antes de Agadir, fomos surpreendidos pela zona industrial onde residia Chaibi, não sem antes termos percorrido uma vasta mancha verde de muitos hectares criada por mão humana que ocultava um palácio de um príncipe saudita. Um verdadeiro oásis de palmeiras em terra árida. Até a estrada melhorara a partir dali, pois o emir fizera questão de investir no asfalto.

«– Assim, o Lexus não tem de saltitar no percurso que o traz do aeroporto até cá», ironizava Cahibi.

Estávamos em Tamrhakht, a Tamaraque das crónicas portuguesas. Também ali se negociava forte e feio, como o comprova Afonso Rodrigues, feitor do castelo de Santa Cruz de Agadir, em carta redigida ao rei em 1513: “E por aqui não haver soma de bordates, se foram uns mercadores, que vinham para este castelo, a Tamaraque, onde estavam dois mercadores de Cádiz”. O feitor sugeria até que o monarca encontrasse uma solução para se desembaraçar “dos mercadores de Cádiz”, pois se eles não fossem ali comerciar “tudo viria a esta feitoria (de Agadir)”.

Este “contrabando de guerra”, como lhe chamou David Lopes, que tinha como protagonistas os mercadores franceses e castelhanos, continuou a fazer-nos dano. Beneficiava com ele o xarife, recebendo as armas com as quais nos haveria de combater e vencer. Teracuco, Tamaraque e, numa fase posterior, Tafetana, eram os portos por onde transitava todo esse contrabando estrangeiro.

Também Heitor Gonçalves, antigo feitor de Safim, escreve a D. Manuel informando-o da situação e dando-lhe conta de um ataque francês a um barco português que resultou na decapitação de toda a tripulação “senão a um neto do mestre Rodrigo que por ser criança o levaram a França”. E especifica: “Eram duas naus; esta é da Rochela e o capitão chama-se o Barbate, de alcunha”.

Joaquim Magalhães de Castro

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