Os cativos do Magrebe

Costa da Memória

Os cativos do Magrebe

Chefchouen foi fundada, alegadamente, por gente mourisca expulsa do sul de Espanha, no século XVI, que ali deparou com solos férteis e abundância de água, de tal reputação que muito recentemente os espanhóis chegaram a pensar em comercializá-la. Isabel não estava nada convencida, por isso precavera-se com vários garrafões de cinco litros, contendo o precioso líquido, recolhido directamente da Fonte da Moura, «onde brota a melhor água do mundo».

«– Não gosto da água de cá. É demasiado pesada», justificava.

Não deixava de ser curioso. Trazer para terras magrebinas água de uma fonte atribuída aos “mouros”, vocábulo, em Portugal, associado a tudo o que é antigo, tal como em Marrocos tudo o que é antigo é “português”, mesmo em locais onde os portugueses nunca tenham estado. Não é o caso de Xexuão, uma das povoações onde foram parar cativos portugueses no rescaldo das muitas pelejas outrora travadas, mormente a batalha de Alcácer Quibir, conhecida entre os marroquinos como a batalha dos Três Reis. Só aí foram feitos mais de nove mil prisioneiros. O que lhes terá acontecido? Muitos, certamente, acabariam os seus dias em masmorras como as do interior do casbá da almedina de Xexuão. A crueldade dos alcaides locais, sobretudo o de Alcácer Quibir, está bem expressa numa ilustração francesa do século XVI, retratando as diversas formas de tortura aplicadas aos esclaves chretiens: empalados, espancados nas plantas dos pés, enterrados, degolados, queimados e serrados… vivos!

É provável que muitos desses detidos, por uma mera questão de sobrevivência, tivessem renunciado à sua fé, islamizando-se e até constituindo família com mulheres locais. Abundam por ali feições e olhos esverdeados como os nossos. Mas também é verdade que essas terras, tradicionalmente habitadas, desde a Idade do Ferro, por tribos berberes originárias da Ásia Menor, viram passar cartagineses, fenícios, vândalos, romanos e gregos, todos eles antes da chegada do invasor árabe, que ainda hoje olha com despeito o berbere das montanhas, resultado destes e de outros caldos étnicos.

«– O rei não gosta dos berberes porque sempre foram rebeldes e resistentes», diria Hassan, no decorrer da nossa viagem.

Pergunto-me: quanto de berbere há em nós e quanto de português há neles? Num grupo de miúdos que jogavam à bola vi, por exemplo, um Cristiano Ronaldo (curiosamente envergava a camisa 7 do Manchester e até tinha bastante jeito para a coisa), noutro vi um Quaresma. Mas também vi o meu primo Fábio, quando era criança, ou uma desconhecida com quem me habituei a cruzar em Macau todos os dias sem nunca saber como se chamava. Ou ainda, rostos, dir-se-ia, de verdadeiros mongóis, mas que não gostavam que lhes mencionasses a analogia, como foi o caso de um professor primário, de feições claramente asiáticas, que no decorrer da nossa conversa não se cansou de afirmar a sua origem árabe e bem árabe, pois «descendia da família do próprio profeta». Onde é que já ouvira isso?

Faz parte dos rituais de passagem pela cidade de Chefchouen cumprir uma caminhada até à nascente do rio local, presenciando uma série de moinhos de água, fora de serviço, é certo, mas devidamente restaurados graças a um programa de reabilitação do património local, a cargo da Junta Autónoma da Andaluzia. Além dos moinhos, este organismo estava a recuperar as muralhas da almedina e os diferentes portões de entrada com o objectivo de candidatar a cidade ao título de Património da Humanidade. Seria esta, porventura, uma das formas de Espanha se redimir da “ocupação” que leva a cabo em Ceuta e Melilla? Muito provavelmente. A recente visita a Ceuta do rei castelhano, sobejamente divulgada na Imprensa local, originara várias manifestações de protesto, na fronteira e em diversos pontos do País.

Junto a um desses moinhos, onde funcionava um forno de pão tradicional, deparei com a designada Ponte dos Portugueses – muito parecida com as pontes romanas – construída pelos cativos atrás mencionados. Foram também eles que ergueram o casbá, e havia até quem não hesitasse em afirmar que o castelo pertencia aos portugueses, que teriam ocupado Xexuão. Falava-se de um túnel, ligando a almedina a uma colina próxima, “utilizado pelas tropas invasoras para entrar na cidade”. Tive a oportunidade de constatar a existência do dito túnel, embora a construção de um hotel de luxo tenha selado para sempre uma das entradas. Quanto à presença histórica de portugueses em Chefchouen – “que dali comunicavam com Targa, junto à costa, onde existe outro castelo português” – é comprovada por diversos documentos coevos.

«– E foi esta uma cidade santa. Quem diria!». O desabafo veio de alguém que não se apresentou como guia, mas mais tarde ou mais cedo iria revelar essa faceta, pois, em Marrocos, abordagem não solicitada, por mais desinteressada que possa parecer, traz, por norma, água no bico. «– Agora é uma pouca-vergonha. Consulte a Internet e logo verá o que se passa», acrescentou o homem, que se dizia chamar Abij.

O que se passava afinal? Aparentemente, os estrangeiros, «sobretudo nos últimos seis anos», tinham vindo a comprar casas em Chefchouen, inicialmente ao preço da uva-mijona, inflacionando, entretanto, os valores a um nível nunca visto. Era a síndrome do Algarve aplicado ao norte de África.

Abij, envolvido num diferendo com as duas irmãs – dispostas a vender a casa paterna, «o único património da família», a uns estrangeiros – afirmava que muitos negócios obscuros se passavam no interior dessas habitações, entretanto luxuosamente renovadas pelos recém-chegados. Alegava que se praticava aí a «prostituição e a homossexualidade». E a pedofilia? Abij franziu o sobrolho, como quem diz: “quem sabe?”. E repetiu: «– Dê uma vista de olhos na Internet. Pode lá encomendar o serviço que pretender».

Joaquim Magalhães de Castro

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