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Conflito armado dura há mais de três anos. Mortos são às dezenas de milhares.

Iémen, a guerra ignorada

Há mais de três anos que o Iémen é devastado pela guerra. Este país da Península Arábica tem a extrema infelicidade de se ter tornado no campo de batalha do conflito de outros países: Irão, de um lado; Arábia Saudita e os seus aliados ocidentais, do outro. Quem mais sofre é, como habitual, a população civil. As mortes contam-se em dezenas de milhares e a fome ameaça milhões.

Poucas vezes aparece nas notícias, mas o Iémen vive hoje aquela que é, muito provavelmente, a maior crise humanitária mundial. Em Outubro, as Nações Unidas avisaram mesmo que podemos estar ali perante “a pior fome dos últimos cem anos”.

Na origem desta catástrofe está uma guerra civil, que começou em Março de 2015. O movimento Houthi, composto por xiitas do norte, tomou o controlo da capital do País, Sana’a, e obrigou o Presidente Hadi a fugir para o estrangeiro. As razões para o golpe são as mesmas de tantos outros, mundo fora: corrupção no Governo, desprezo deste pelas aspirações e necessidades locais, divisões étnicas e religiosas.

O rápido avanço inicial das forças Houthi parecia indicar que a sua vitória era certa e que a guerra seria curta, mas não foi assim – e não foi porque houve intervenções externas. Sob a liderança do príncipe herdeiro Mohammad Bin Salman, a Arábia Saudita formou uma coligação de nove países árabes e africanos para apoiar as forças do Presidente Hadi.

Por detrás desta, a dar informações e apoio logístico essencial, estão os Estados Unidos e outros países ocidentais, como o Reino Unido e a França. Desde 2015, Washington autorizou a venda de armamento aos sauditas no valor de mais de quarenta mil milhões de euros. Entre esse material estão bombas e mísseis “inteligentes”, que permitem à Força Aérea Saudita atacar alvos militares com grande precisão; contudo, os casos de bombardeamento de estruturas civis, como campos de refugiados, instalações humanitárias e prédios de habitação têm sido tão frequentes que levam organizações como a Amnistia Internacional a falar de crimes de guerra sauditas no Iémen.

Os Houthi não escapam também a essas acusações, nomeadamente depois de terem começado a lançar mísseis balísticos (muito provavelmente, de origem iraniana) contra cidades da Arábia Saudita, incluindo Riade, a capital. O Governo de Teerão nega que esteja a apoiar os rebeldes, mas as provas que mostram o contrário são bastante sólidas. O que parece muito mais duvidoso é que os Houthi sejam controlados diretamente pelo Irão, como afirmam os sauditas e os seus aliados árabes. Seja como for, é inaceitável para Bin Salman que um dos seus países vizinhos esteja sob controlo de um governo xiita, e ele fará tudo o que puder para que isso não aconteça.

É este confronto global entre sunitas e xiitas, entre a Arábia Saudita e o Irão e, também, entre os Estados Unidos e o Irão, que explica que treze milhões de pessoas estejam hoje em risco de morrer à fome no Iémen. A guerra pode ser civil, mas sem os apoios e incentivos que vêm de fora, muito provavelmente, já se teria apagado por falta da recursos.

O próprio Donald Trump parece ter percebido isso, mas recusa-se a deixar de alimentar a fogueira infernal se os iranianos não se comprometerem a fazer o mesmo. «Odeio ver o que se passa no Iémen», disse o Presidente norte-americano, «mas são precisos dois para “dançar o tango”. Quero ver o Irão a retirar também do Iémen. E acredito que o fará».

Esse “tango” acabou por se dançado na Suécia, onde decorreram negociações entre as principais partes envolvidas no conflito, mas é preciso não esquecer que, além das forças governamentais, dos seus aliados árabes e dos Houthi, a guerra inclui ainda um grupo separatista do sul do País e a al-Qaeda. Qualquer uma dessas forças pode destruir qualquer processo de paz, a qualquer momento.

O principal factor que impede que se chegue a um acordo definitivo é o estatuto da cidade-porto de Hodeida, que está nas mãos dos Houthi, mas sob cerco apertado do exército saudita e dos seus aliados dos Emirados Árabes Unidos desde Junho de 2018. A tomada de Hodeida é vista como a chave para a derrota dos rebeldes, porque é por ali que eles recebem a grande maioria dos seus abastecimentos de armas e munições. O problema é que é também por esse mesmo porto que vem cerca de oitenta por cento dos bens essenciais à sobrevivência da população iemenita.

Sem um verdadeiro cessar-fogo em Hodeida, os civis morrem à fome; sem um acordo relativamente ao controlo de Hodeida, a guerra continua.

As Nações Unidas, que mediaram as conversações na Suécia, propuseram desfazer este nó górdio, colocando a cidade sob a sua administração, mas, também nesta matéria, não foi possível chegar a um acordo. O que poderá mudar tudo isto é a noção generalizada nas chancelarias ocidentais de que a guerra atingiu um impasse e que, portanto, é para acabar.

Além disso, o assassínio de Jamal Khashoggi deixou Bin Salman muito mal visto nos Estados Unidos. Aquele crítico do Governo do príncipe herdeiro, que estava exilado em terras norte-americanas, foi estrangulado e desmembrado por membros dos serviços secretos do seu país dentro de um consulado da Arábia Saudita na Turquia. Tudo indica que a operação foi ordenada directamente pelo próprio filho do rei. Os detalhes macabros dessa morte tornaram-se conhecidos graças a um vídeo, aparentemente gravado pelos serviços secretos turcos, que registou tudo o que se passou.

A transcrição das palavras e dos sons arrepiantes que se ouviram durante o crime fez mais para virar as opiniões públicas ocidentais contra a Arábia Saudita do que quase quatro anos de chacina no Iémen.

Para os Governos, os cálculos são mais frios, mas nem por isso a conta final é muito diferente: Bin Salman está fora de controlo (estamos a falar de alguém que, há um ano, ordenou a detenção do primeiro-ministro libanês quando este visitava o seu país!) e a sua política externa é irresponsável e perigosa.

Se os iemenitas tiverem um pouco de sorte, esta conjugação de acontecimentos poderá abrir caminho para um distanciamento de Washington em relação a Riade, o que tornará o prosseguimento da guerra impossível a curto prazo.

A vida de treze milhões de pessoas depende disso.

Rolando Santos 

Família Cristã

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