A Igreja e o Mundo Germânico

Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XII

A Igreja e o Mundo Germânico

Não serão propriamente cismas ou divisões, mas avanços e expansões. De uma Igreja em crescendo, a ganhar a Europa e a formar uma cristandade, na formação do mundo medieval. Trata-se da implantação e definição religiosa e espiritual, mas também geopolítica, de regiões de onde mais tarde brotarão movimentos de reforma, de ruptura, de onde nascerão heresias e levantamentos de carácter anti-eclesial. Importa pois conhecermos as raízes da formação desse mundo, amplamente germânico e oriental, abaluartado no que será a futura Alemanha, ou Império Germânico, entre os Alpes e o Mar do Norte e o Báltico, até à Escandinávia e a leste até à Rússia. Da Irlanda, semeada a árvore do Cristianismo, esta não mais parou de crescer, sem crises nem cisões. Da vizinha Inglaterra para leste, aí sim, o futuro não será tão estável como na ilha de São Patrício.

Estamos na época provavelmente mais importante da definição da Cristandade medieval. Ou da Europa cristã tal como a concebemos. Ao mesmo tempo que o profeta Maomé, no Médio Oriente, a partir da Arábia, iniciava a sua missão de doutrinação do Islão e os seus árabes vão conquistando sucessivamente territórios na região e depois no Norte de África e Médio Oriente, na Europa a Cristandade avança para o grande Norte, a partir da sua região Central. Penetrava assim no mundo germânico, antes designado de “bárbaro”, desagregador do Império Romano do Ocidente.

Já aqui falámos dos quarenta monges romanos que São Gregório Magno enviou para a Inglaterra, liderados por Agostinho de Cantuária, para evangelizar os anglos e saxões, além dos povos célticos autóctones e alguns romanos que por lá ficaram. As resistências serão muitas, principalmente dos celtas das Terras Altas da Escócia e de Gales, onde ainda subsistem as suas línguas e tradições na actualidade. Mas foram precisos séculos para unificar a Cristandade da Grã-Bretanha, berço depois do Anglicanismo.

A Irlanda, rapidamente evangelizada, de forma profundamente inculturada e com graus de erudição e mundividência impressionantes – num povo que em menos de duas gerações se tornou completamente cristianizado, com um grau elevado de conhecimento de cultura e tradições cristãs como nunca se vira… – foi um dos mais importantes pontos de partida de evangelizadores para o Centro e Norte da Europa. Os mosteiros irlandeses tornaram-se em focos de cultura e irradiação do Cristianismo. Columbano foi um dos seus mais importantes nomes. Evangelizou a Gália Oriental, ao longo do Reno, à frente de um enxame de monges pregadores que chegaram até ao Norte de Itália.

Os monges beneditinos ingleses (anglo-saxónicos) rumariam depois para a actual Bélgica e Holanda, em particular para a Frísia, a partir de finais do séc. VII. São Wilibrord será o fundador da Igreja holandesa, erigindo a arquidiocese de Utrecht, criando mosteiros no Sul da Bélgica e Luxemburgo. Daqui partiram missionários para a Alemanha, como São Bonifácio, além de outros para as regiões dos francos (França renana). Bonifácio organizou a Igreja germânica e renovou cristandades mais antigas, entretanto definhando sem renovos, como sucedia na França. Criou paróquias, mosteiros, dioceses, correu incansavelmente a Alemanha, reorganizou dioceses e estabeleceu a regularidade dos sínodos provinciais, para eliminar defeitos, crises e dissensões, além de estimular as virtudes e a vida eclesial activa entre o povo e o clero. Foi um dos maiores missionários de todos os tempos.

Bonifácio, curiosamente, lançou as bases de uma das cristandades, a germânica (alemã), que mais força e unidade deram ao todo da Igreja, mas que também, paralelamente, esteve na base de muitos intentos de “igrejas nacionais” ou “episcopais”, ou seja, de autonomias e tendências galicanistas. Não foi à toa que Bonifácio, nos seus últimos fins, depois de uma vida em prol da missão germânica, proclamou, profeticamente. “Eu sou o discípulo da Igreja romana, vivi sempre ao serviço da Sé Apostólica”. Será que Lutero leu estas palavras de Bonifácio?

 

Fidelidade a Roma

 

De facto, Bonifácio lutou sempre contra a tendência autonomista que já se desenhava no clero germânico. Em 742, por exemplo, num sínodo geral de toda a Europa Central, conseguiu que todos os bispos reunidos prestassem juramento de fidelidade ao Papa e impôs a Regra de São Bento a todos os mosteiros, além de aplicar normas de formação para o clero, do ponto de vista moral e canónico principalmente, de acordo com os preceitos de Roma. Era preciso não deixar tresmalhar o rebanho, uni-lo em torno da Sede Apostólica. Acabou porém martirizado, em 754, na Frísia, por pagãos. O fundador do mosteiro de Fulda, modelo monástico na Germânia, missionário e unificador da Cristandade entre os Germânicos, fiel a Roma, sucumbia em plena missão.

Esta figura, a sua biografia, trazem-nos uma leitura muito interessante neste contexto de prevenir divisões e fortalecer a unidade. O Papado tinha pois um objectivo definido de instituir uma Igreja bem organizada, com base nas arquidioceses, ou sés metropolitanas, contando com a fidelidade de bispos que reconhecessem o primado e a jurisdicção do sólio petrino (Roma). O perigo de fragmentação era latente, grande até, na Alemanha, principalmente, mas também na França, Inglaterra e Espanha. A tentação de submissão das “igrejas” desses territórios aos poderes políticos, que se afirmavam e reconheciam já o peso e valor da Igreja, era enorme. O resultado dessa submissão aos poderes laicos era claro e visível: fragmentação que conduzia à criação de “igrejas nacionais” ou “regionais” sem relação entre si e cada uma no seu ritmo, caminho e evolução.

Por isso Roma e os missionários e prelados mais activos e proeminentes sempre vislumbraram este perigo de fragmentação “galicanista” (divisão em “igrejas nacionais”). Por isso, Gregório Mango centralizou em Roma todas as actividades de missão, dirigindo-as e coordenando-as, com instruções e modelos romanos, atento às nomeações/eleições episcopais e promovendo os sínodos e concílios regionais, que controlava. Assim se conseguiu renovar a Igreja na França, um pouco dividida desde as suas origens, instalando-se igualmente de forma sólida e coesa na Alemanha, além de se terem conseguido criar relações entre a Cristandade hispano-visigótica das Espanhas e Roma. A missão percorria a Europa pré-ano Mil, semeando o Evangelho, na unidade e sob a tutela de Roma. Contra as divisões e fracturas…

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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