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Semanário Católico de Macau

O Panteísmo – III
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Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XCVIII

O Panteísmo – III

O que é que torna afinal o Panteísmo uma heresia? Se o Panteísmo até, como “corrente filosófica”, foi um recuo em relação ao Positivismo? Ou seja: quando este último tende para o Ateísmo absoluto, pois deixa Deus fora simplesmente de qualquer consideração, o Panteísmo mantém-No, embora o “degrade”. Isto é, reduz Deus a um tudo que não é nada, retirando-lhe transcendência e intemporalidade, por exemplo. Apesar de não ter caído no Ateísmo, o Panteísmo não tratou bem Deus, ou diminui-O, desclassificou-O e desvalorizou a Sua natureza e acção salvífica.

Para o senso comum, a fórmula do panteísmo quase se pode reduzir a: Deus e o Universo são um e o mesmo. Não deixa de ter razão, de certa maneira, mas não na forma redutora e mitigante com que O define. E para mais, quando se envereda por atributos do espírito em materialidades, explicar o panteísmo pode-se tornar algo armadilhado e confuso. Ou pior, quando se tem, à luz da defesa do panteísmo, que explicar como é que o espírito eterno e perfeito pode ter os defeitos da matéria enquanto se mantém Uno, o que por si não tem nenhum defeito…

O panteísmo acaba a negar o inegável, em mais um caminho escuro por onde derivou. Descartes (1596-1650), filósofo racionalista de origem francesa, proclamou a certeza da personalidade individual, manifestada na sua máxima “Penso, logo existo”. Ora, o panteísmo nega a existência da personalidade individual fora da “personalidade universal” que nós podemos, se assim quisermos, denominar como Deus. O panteísmo nega que nós saibamos o que somos e quem somos, como seres responsáveis que sabemos regular-nos e agir em nós próprios, ter os nossos pensamentos e viver as próprias vidas. Esta liberdade de existir, que a doutrina católica assume e não nega, não é aceite dessa maneira pelo panteísmo. Este diz que há apenas uma substância existente – Deus. Eu sou Deus, o estimado leitor é Deus, o seu canário é Deus, uma habitação é Deus, o Jardim da Vitória é Deus, as árvores na Guia são Deus, enfim a terra e as estrelas são Deus, que o Universo é Deus, tudo é Deus. Não há porém experiência, razão, fé… tudo é Deus, mas final nada é Ele, na lógica panteísta. Nem há criação afinal de Deus.

AS DERIVAS DO PANTEÍSMO

O panteísmo, como uma forma de positivismo (o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro), em grande medida, tende a ser uma forma de materialismo e ateísmo. Senão vejamos. Deus é a causa do Universo. E uma causa não se pode produzir, ainda que o Universo seja algo causado e dependente. O panteísmo não vê assim. Deus, se afinal é substância e parte de todas as coisas, está sujeito à mudança, tem mudado e está em constante mutação, segundo os panteístas. Então o Infinito, a causa da causa, pode mudar? Se pode é finito. Então para que é que Deus está em tudo? Ou é tudo? Para ser e estar apenas?

O panteísmo nega também a existência do individual, afirmando que cada um de nós não pode ter consciência da individualidade, pois estamos perdidos, diluídos numa única e globalizante consciência. E, afinal, não é o ser humano consciente da sua individualidade? Da forma como se apresenta esta inconsciência panteísta do indivíduo, este não pode ser responsável e, portanto, não pode ser livre. Porque então o indivíduo é apenas uma parte irresponsável de uma substância, que não se consegue assim perceber se é mutável ou imutável. Pois se os homens são partes de Deus, pode-se entender desta forma que o infinito tem partes, logo deixa de ser infinito. E os seres, se são apenas meras partes, acabam por não ter certeza se pensam, se vêem, ouvem ou até falam.

Tudo isto coloca consequências de carácter moral, de regulação ética. Os criminosos, por exemplo, porque é que se condenam, se não há crimes? E também não há virtudes. Punir e castigar para quê? Os pais para que repreendem os filhos, se estes não podem melhorar? A justiça não existe, não há virtude. Pois se os seres humanos são parte de Deus, não se podem ajudar nem prejudicar. Ou há mal em Deus, no fim de contas? Se até Ele pode ser responsável pelo pecado?

No antropoteísmo já antes vimos que existe uma manifesta intenção de transformar, ou elevar, o homem em/a Deus. O que é considerado uma versão gnóstica da heresia metafísica. No panteísmo, mais racional, não há divindade transcendente, pois ela é imanente ao Universo e confunde-se com este. A Matéria, dizem os panteístas, é eterna e constituída por dois princípios contrários e iguais, que ocasionam a evolução contínua do mundo da pedra bruta para a vida vegetal, desta para o mundo animal, e daí para o homem. E parece que deste para… o Super Homem? Não há aqui uma gnose que tende a divinizar o homem?

O panteísmo é dualista, dialético, evolucionista, racionalista, cientificista e mecanicista. O Papa Bento XVI, em “Adão e Cristo: do pecado (original) à liberdade”, na Audiência Geral de Quarta-feira de 3 de Dezembro de 2008, apresentou esta segunda versão da “Religião do Homem”, o antropoteísmo, da seguinte maneira: “Na versão evolucionista, ateia, do mundo volta de maneira nova a mesma visão. Mesmo se, nesta concepção, a visão do ser é monista, supõe-se que o ser como tal desde o início tenha em si o mal e o bem. O próprio ser não é simplesmente bom, mas aberto ao bem e ao mal. O mal é igualmente originário como o bem. E a história humana desenvolveria apenas o modelo já presente em toda a evolução precedente”.

O antropoteísmo, nas suas versões – gnóstica e panteísta – procura substituir a verdade do pecado original pela ideia de queda metafísica, isto é, de que a divindade caiu no ser. Na história, a Divindade luta para se libertar e afirmar, impor, através da evolução dialética, de antíteses e choques, de tensão. O panteísmo e gnose seriam como dois fios eléctricos – um vermelho e o outro branco – que se enroscam um no outro, dando origem ao fio da história. Nesta concepção, surge mais uma deriva do panteísmo, o chamado panteísmo materialista – e anti-clerical –, em grande parte aclamado e defendido pelas sociedades secretas laicistas. A gnose (estado mental específico que permite o contacto com outros planos não físicos, espirituais) é defendida pelas seitas secretas de carácter místico. Muitos designam estas duas correntes como a língua bífida do mesmo corpo e na mesma cabeça, no fundo uma natureza comum. Por todo o exposto, caíram no campo da heresia e da ruptura, principalmente pela confusão e contradição que semeiam.

A Terra foi durante muito tempo, desde as origens do Homem, considerada como um lugar sagrado onde tudo estava cercado de divindade, ou era mesmo divino. A Natureza foi por isso a primeira forma de divindade. Desta percepção, desta dimensão de conhecimento, brotou o panteísmo, que teve várias facetas e entendimentos ao longo da história.

Vítor Teixeira 

Universidade Católica Portuguesa

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