O antiteísmo – II

Cismas, Reformas e Divisões na Igreja – XCV

O antiteísmo – II

O antiteísmo é assim tão intolerante que não tenha em conta o respeito pelas diversas formas de culto? Hoje em dia muitos consideram o antiteísmo mais negativo e “violento” que o ateísmo, por exemplo. Por um lado, cerceia a liberdade de pensamento e de escolha, por outro a liberdade de expressão, como reflexo prático do pensamento, fica limitada ou diminuída. Afinal, para o “movimento” anarquista, se assim pudermos designar, a mutilação da liberdade de pensamento e de expressão não são dos piores crimes? E estando o antiteísmo estribado no anarquismo, não se vislumbra aqui uma contradição?

A liberdade de pensamento e de acção, de expressão, deve ser absoluta. O antiteísmo, na sua radicalidade, aniquila-a. Aqui podemos ver alguns dos reflexos do antiteísmo na sociedade, religiosa ou não. O antiteísmo é uma oposição activa a todas as crenças religiosas, como vimos, não apenas defendendo que Deus não existe como ao mesmo tempo se opõe a qualquer religião organizada ou à crença em qualquer deidade. Acaba a ser intolerante perante a ideia de Deus e de religião, perante todos os que assumem essas crenças, portanto. Acusando-as de intolerância, ao mesmo tempo acaba por ser mais intolerante.

O antiteísmo é activista, exacerba o ateísmo e move-o contra qualquer fenómeno religioso, apoiado em postulados estribados na Razão e a na Ciência, embora com argumentos contraditórios e nem sempre capazes de sustentação crítica. Muitos confundem ateísmo e antiteísmo. Muitos antiteístas consideram-se como os “novos ateus”, advogam a ciência como a base da moral. A ciência, argumentam, torna a sociedade mais racional e mais humana, pois consideram que as ideias religiosas não trazem nada de bom. Além de que se comprazem com o facto, dizem, de que ninguém consegue provar a existência de Deus.

“INCOMPATIBILIDADES”…

E se Deus existisse? Perguntaram os antiteístas, como o fizera Proudhon, em 1851, na sua obra “Idée Générale de la Révolution”. A resposta foi: “Imaginemos que Deus existe; afirmemos mesmo a sua existência. Bem, essa existência é incompatível com a existência da humanidade”. Por isso, não há outra escolha, consequentemente, afirmava, senão negar a existência de Deus, pois só pode existir ou não. A humanidade é pluralista e evolutiva, na sua essência, dizia Proudhon, e aquilo, portanto, que hoje possa ser verdadeiro, não o era ontem ou será amanhã… O que é verdadeiro no Ocidente, pode não o ser no Oriente. Toda a religião, assim, fundamentada em leis eternas e universais, que a criaram, está por natureza em contradição com a humanidade, a qual não é eterna nem universal, mas com diferenças. Atrevemos a dizer que o relativismo também está impregnado no antiteísmo… A humanidade, para existir, desta forma, deverá negar a existência de Deus, não pela hipótese (em si) da Sua existência, mas por causa dessa mesma hipótese.

O antiteísmo permite uma distinção entre a simples indiferença ou apatia face ao teísmo, ao ateísmo ou ao agnosticismo, bem como uma rejeição ou oposição face às crenças religiosas. Está contra tudo, portanto… Um ateísta, definia Stefan Baumrin, é como que “uma pessoa que tenta convencer os teístas de que eles são um erro”. Se o ateísmo é a ausência de um deus, ou de Deus, segundo alguns, o antiteísmo é a procura activa dos piores aspectos da fé num deus, no objectivo de elaborar uma representação, uma imagem ou definição, da religião dessa deidade. O antiteísmo procura culpar os crentes da sua religião e afastá-los dela, destacando a “estupidez” das suas crenças em um ou mais deuses. Ou seja, há uma justificação baseada em aspectos negativos que servem apenas para extrair as pessoas dos fenómenos de fé. Visa-se o negativo, numa perspectiva pessimista e não o todo. Opta-se por uma visão maniqueísta, embora só se veja o lado negativo, concebendo-se o mundo numa perspectiva “black and white”, sem mais…

De facto, muitos que reivindicam a sua adesão ao antiteísmo fazem-no sob a desculpa de considerarem o teísmo, nas suas formas e expressões, como algo perigoso e destruidor do indivíduo e da humanidade. As religiões são versões da mesma falsidade, a sua influência é nefasta e perigosa, atiravam alguns antiteístas.

Há uma oposição a Deus, ou a deuses, ao sagrado, ao divino, para além da negação das religiões institucionalizadas. Nesta definição, o antiteísmo vai anda mais longe e radicaliza-se muito mais, quando se assume também como uma forma de combate a todas as formas de superstição e crenças folclóricas no sobrenatural, as quais são susceptíveis de fornecer à religião um terreno favorável. O antiteísmo, nesse mesmo combate, pugna, por seu turno, pela promoção de uma visão científica e racional do mundo, sem sobrenatural nem divino. Assim o definem alguns antiteístas.

Doutrina contrária a todas as formas de teísmo, negação da existência de Deus, oposição a Deus e a qualquer divindade, tantas têm sido as formas de definir o antiteísmo. Convém recordar que este não opõe a Deus nenhum ser supremo, bom ou mau, ou que combatam espiritualmente. Antes refutam quaisquer doutrinas teístas ou deístas, pois consideram-nas negativas para o funcionamento da sociedade, logo consideram-nas como imorais e perigosas.

Jacques Maritain (1882-1973), grande filósofo católico francês, definia o antiteísmo como uma luta activa contra tudo o que recordasse ou se ligasse a Deus. Em geral, tem sido considerado com base na sua etimologia, isto é, contra tudo o que é teísmo. Contra o que alude a Deus, os seus atributos, as suas qualidades e influência no mundo. Os teístas conceberam sempre um Deus bom, uma entidade suprema generosa, ao contrário de muitos antiteístas, que, para muitos críticos, facilmente caíam na tentação de conceber uma entidade suprema má, cruel. O satanismo espiritual é um derivado desta asserção, a ideia de um Lúcifer portador da verdade, uma entidade maligna como forma teísta recusada pelos antiteístas. O antiteísmo, para muitos, tem derivado para esta tendência mais esotérica, que pertence mais ao domínio da fábula e quase da superstição.

Em suma, não há crença em Deus nem concepção de fenómeno religioso, conceitos que devem ser extirpados da experiência humana, na qual nem entram, assim defendem e se definem os antiteístas. Na actualidade, alguns antiteístas brincam com o conceito de Deus, dizendo que não se deve eliminar dado que é um captador de talentos extraordinário. Está-se num nível mais moderado que o de outros tempos, por exemplo com Bertrand Russel (1872-1970), célebre filósofo antiteísta, britânico, que sintetizava o seu pensamento com a frase “as religiões são tão danosas como falsas”. Outro antiteísta célebre é Salman Rushdie (1947- ). Muitos mais há que consideram o tanger dos sinos das igrejas como inquinamentos acústicos, uma forma de religião negativa. Hoje em dia, os antiteístas pautam-se mais por uma crítica à degeneração das religiões e uma crítica ao que entendem como influência nefasta no devir humano.

Vítor Teixeira 

 Universidade Católica Portuguesa

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